BOSCO MARTÍN/EFE
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‘Racismo é diário', diz viúva de Mandela

Para Graça Machel, países precisam de mecanismos que diminuam as discriminações; ela recebeu prêmio em São Paulo

Edgar Maciel, O Estado de S. Paulo

25 de novembro de 2014 | 00h38

A ativista moçambicana Graça Machel, viúva do ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela, cobrou mecanismos de combate à discriminação racial e pediu que as instituições de ensino discutam diversidade social nos currículos. Defensora do sistema de cotas, Graça participou, no último fim de semana, do festival Flink Sampa. E recebeu à noite em São Paulo o Prêmio Troféu Raça Negra, que homenageou Mandela neste ano.

Considerada uma das cem figuras mais influentes do mundo, segundo a revista Time, Graça se formou em filosofia alemã pela Universidade de Lisboa. De volta à terra natal, participou como guerrilheira da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). Em 1986, tornou-se ministra da Educação, marcando uma mudança de paradigma na qualidade do ensino africano. Durante sua gestão, o número de crianças na escola passou de 400 mil para 1,5 milhão. A taxa de analfabetismo foi reduzida em 72%. 


Graça se casou duas vezes e tornou-se a única mulher do mundo a ser duas vezes primeira-dama de dois países diferentes. O primeiro marido foi Samoa Machel, primeiro presidente eleito de Moçambique. Ele morreu em um acidente de avião há 18 anos. Em 1998, casou-se com Nelson Mandela, primeiro presidente negro da história da África do Sul. Depois da morte de Madiba, permaneceu em luto por quatro meses.

Em junho deste ano, decidiu voltar ao ativismo social em defesa de crianças e mulheres, além de combater o racismo e a pobreza. À frente da organização não governamental (ONG) Graça Machel Trust, já sofreu preconceito e luta para que países como o Brasil estabeleçam metas e programas para combater as diferenças sociais. “Qualquer país precisa estabelecer mecanismos que reduzam de fato as discriminações e, ao mesmo tempo, aproximem os cidadãos nos seus direitos”, disse. “Transformações na sociedade não vão ocorrer por si próprias. Sem ações, nada vai para frente e esse tipo de situação vai continuar ocorrendo”, completou.

Graça citou como exemplo o caso de Moçambique, que após a independência (em 1975) adotou políticas antirraciais, com impactos positivos no desenvolvimento da sociedade. “A discriminação racial, ainda que seja de uma maneira velada, é uma realidade cotidiana. Por um absurdo, é uma realidade que afeta 52% da população deste País (Brasil)”, afirmou. “A sociedade brasileira não pode permitir que esse problema seja esquecido porque isso é uma realidade diária.”

Primeira-dama de um país que sofreu durante anos com o apartheid, Graça preferiu não comentar se o Brasil, atualmente, seria mais racista do que a África do Sul, mas disse que as duas nações precisam questionar seus valores democráticos. “É preciso que este país e outros se questionem sobre o que quer dizer uma representação democrática que reflita a composição de sua própria sociedade. A resposta não deve ser dada por mim, mas pelos brasileiros”, afirmou.

Cotas. Política pública criada pelo governo federal para diminuir as diferenças sociais na educação superior e no funcionalismo público, as cotas foram assunto de elogio da ativista moçambicana, que vê na ideia um instrumento de transformação da sociedade brasileira. “O Brasil tem muito a ensinar, mas precisa também aprender com outras nações que estão em desenvolvimento e precisam investir em educação. E também precisa retirar lições para melhorar alguns índices sociais”, ponderou.

Graça citou como exemplo a África do Sul comandada por Mandela, que instituiu mecanismos para igualar os direitos de brancos e negros, com ações afirmativas de combate à segregação. “Conseguimos prevenir, evitar que houvesse uma confrontação violenta no nosso País com base na raça.”

Desigualdade. Graça também sugeriu mudanças na forma que os países são avaliados socialmente. Segundo ela, classificar o desenvolvimento das nações apenas pelo crescimento econômico limita a análise do que precisa ser melhorado. “Moçambique cresceu 7% na última década. No papel é muito bonito, mas precisamos ir lá e ver a realidade da população, que é assustadora”, disse.

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