PATRÍCIA GONÇALVES
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Racismo: Izabel escutou que cabelo do filho não era 'adequado' para escola

Caso aconteceu em agosto de 2013, instituição e diretora foram multadas em R$ 106 mil

Karina Menezes, Especial para O Estado

20 Novembro 2015 | 09h00

Era final de agosto de 2013 quando a administradora financeira Izabel Neiva foi pega de surpresa. No caderno de Lucas Neiva, seu filho de apenas oito anos, havia um comunicado enviado pelo colégio Cidade Jardim Cumbica, local onde o garoto estudava à época. A mensagem, assinada pela diretora Alaíde Ugeda Cintra, pedia para que a mãe desse um corte "adequado" aos cabelos de Lucas. 

Não foi a primeira vez que Izabel viu a perversidade do racismo -  ela conta que seu companheiro é alvo constante de preconceito. "Já aconteceu de a gente estar sacando dinheiro e a polícia perguntar se ele realmente era meu marido, se eu não estava sendo sequestrada", disse. Durante a infância, a administradora se achava feia por não ser branca e não ter os cabelos lisos. Agora, o preconceito se estendia, também, ao seu filho. 

Ao questionar a atitude da diretora, Izabel recebeu como resposta que não era pessoal, e sim que "aquele tipo de cabelo não era utilizado pelos alunos da escola". Alaíde alegou também que os cabelos de Lucas atrapalhavam os colegas do garoto a enxergarem a lousa. O colégio contava ainda com uma cartilha de instruções - um dos itens destacava que o Jardim Cumbica não aceitava estudantes com "cabelos extravagantes". 

Izabel decidiu não pegar a tesoura. A resposta da escola veio poucos meses depois - em novembro, um aviso de rematrícula foi enviado aos pais de todos os alunos. Ela não recebeu. Ao buscar explicações, foi informada de que não havia mais vagas no colégio. Sem saber o que fazer, recebeu ajuda da mãe de outra aluna, que ligou para uma advogada. A orientação foi para que buscassem a delegacia mais próxima e formalizassem a denúncia de racismo. 

A administradora conta que teve sorte ao registrar queixa, pois o atendimento que recebeu na delegacia foi uma das motivações que encontrou para seguir em frente. "Muitos funcionários não sabem como proceder", disse, chamando atenção para a falta de profissionais qualificados para acolher vítimas de racismo. Desde a abertura do inquérito até hoje, seguem-se dois anos de batalha judicial e desgaste emocional para Izabel e sua família. 

Uma das maiores dificuldades que ela encontrou no meio do caminho foi a falta de apoio. "Você, de vítima, passa a ser vilã", conta, ressaltando que muitas pessoas não levam a sério as denúncias de racismo. Izabel chegou até a escutar que queria somente "aparecer" ao denunciar a situação pela qual Lucas havia passado. Por outro lado, a família recebeu ajuda da Coordenadora de Políticas para a População Negra do Estado de São Paulo, Elisa Lucas Rodrigues. 

Foi somente no início deste ano que a Justiça deu a primeira resposta favorável à Izabel - no âmbito administrativo, diretora e escola foram multadas em cerca de R$ 106 mil, com base na lei estadual n° 14.187. Agora, ela espera uma resposta positiva também no processo criminal, que corre na 5ª Vara Criminal de Guarulhos, acompanhado pelo advogado Sinvaldo Firmo. A próxima audiência deve acontecer apenas em março de 2016, quando as últimas testemunhas devem ser ouvidas e um parecer deve ser emitido. 

Por mais que mãe e filho tenham se fortalecido, e ainda que a nova escola de Lucas o respeite, Izabel teme pelo futuro. "Meu filho, e se (o processo) não der em nada, o que você vai fazer quando crescer?", ela costuma perguntar. O garoto, ciente de toda a batalha que a família tem enfrentado, responde: "Eu vou fazer a mesma coisa que você fez." 

 

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