Radicalismo sai... do papel

Após a carta compromisso a ser divulgada antes da estreia do horário político, dia 17 de agosto, a campanha da presidenciável Dilma Rousseff se orientará com base em textos de cadernos setoriais que desdobrarão temas específicos de interesse direto do eleitorado. As duas iniciativas reduzem o programa registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a uma peça de caráter meramente protocolar.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2010 | 00h00

À parte a inutilidade da imposição burocrática, o episódio do registro do programa, substituído por um mais ameno, é referência temporal da reação dos aliados de Dilma Rousseff à hegemonia do PT na campanha. Desde a polêmica gerada pelo texto, que reproduz as diretrizes do congresso nacional do PT realizado em fevereiro, o principal parceiro da aliança, o PMDB, passou a impor sua participação nas decisões internas e terá suas digitais na carta a ser apresentada.

Esta valerá mais pelo que suprime e modifica no texto registrado no TSE , do que pelo que vier a introduzir, cumprindo a função de avalizar as moderações do segundo programa, agora com a garantia da candidata e também dos partidos aliados.

Os artifícios de campanha, porém, não eliminam o conflito: apenas o adia. Sua síntese está clara na reação do coordenador do programa de governo do PT, Marco Aurélio Garcia, à eliminação dos conteúdos intervencionistas do texto original, como o controle da mídia, entre outros. "Para mim, não há nada polêmico, tudo isso é bobagem", disse ele.

Contradições

Uma rápida leitura dos princípios do programa do PMDB - assinado pelo presidente do partido, Michel Temer, Delfim Netto, Henrique Meirelles, Nelson Jobim, Mangabeira Unger, Moreira Franco, Anibal Teixeira e Eliseu Padilha - expõe os conflitos de pensamento na aliança. Enquanto o PT rejeita a criminalização do MST, conceito reafirmado pela candidata Dilma Rousseff, o PMDB prega textualmente o contrário. "Aplicar a lei nos casos de invasões de propriedades rurais comprovadamente produtivas. Sem lei, não há ordem." Não se sabe a abordagem que esse tema terá na carta compromisso, ou se simplesmente desaparecerá.

Contradições II

O PMDB defende empresas estatais com "alto grau de governança". Aqui conflita consigo mesmo, maior cliente das nomeações políticas que comprometem a eficiência do Estado. E com o PT, que aparelha a máquina estendendo as nomeações políticas e o critério de apadrinhamento partidário às agências reguladoras, para as quais o PMDB promete uma independência que, dado o conflito, soa como mero discurso de campanha. Contradições III

O presidente do PMDB, Michel Temer, atuou pessoalmente para que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recuasse da tentativa de intervir na propaganda de alimentação infantil. A agência tentou restringir a propaganda no setor, através de portaria, legislando indevidamente em tema constitucional. A índole intervencionista foi contida não sem algum esperneio.

Comitês regionais

Nos Estados onde o partido não se submeteu à orientação nacional, o PMDB criou comitês para fazer a campanha de Dilma Rousseff, acomodando os interesses regionais. Casos de Santa Catarina e Mato Grosso do Sul, entre outros. O presidente do partido, Michel Temer, trouxe para seu lado Moreira Franco, que deixa a Caixa Econômica Federal para participar da elaboração conjunta do programa da aliança e da articulação da campanha nos Estados.

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