Rainhas do Samba

Oito mulheres de diferentes formações desafiam a lógica e mostram que são boas no ritmo

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

26 de julho de 2008 | 00h00

Preste atenção nas foto desta página. À primeira vista, essas belas e esguias mulheres, seis paulistas de nascença e duas de coração, com seu estilo hippie-chique moderno, nada têm da genealogia do samba e suas raízes africanas. Engano. Dê nova espiada na imagem e verá, entre elas, o surdo, o violão de sete cordas, o cavaco e o pandeiro. Elas tocam um sambão. Feche os olhos ao ouvi-las e jamais irá imaginar que é a loira Núbia Maciel, ex-modelo de 1,80 metro, quem puxa um samba com um vozeirão que remete a musas negras do batuque, como Dona Ivone Lara. Quem mexe os quadris, para sobressalto da platéia, atende pela alcunha de Japa, Erika Japa, com olhos puxados de nissei e surpreendente ginga nos pés. Ela também toca rebolo - o instrumento de percussão que impõe o ritmo quebrado ao arranjo. Aidée Cristina, no surdo, Carina Iglecias, na percussão geral, Gadi Pavezi, no pandeiro, Naná Spogis, no violão, Sandra Gamon, no tamborim e repinique, e Thais Musachi, no cavaco, além de Núbia e Japa, com idades entre 22 e 41 anos, compõe o grupo Samba de Rainha. "Um octeto de São Paulo, a primeira banda de samba totalmente feminina", como foram apresentadas pelo prestigiado jornal inglês The Guardian, antes de subirem ao palco do Guanabara, sofisticada casa brasileira de shows, em Londres - a primeira turnê internacional, iniciada em fevereiro, incluiu também sete shows em lugares como o Casino Estoril e o Theatro Circo de Braga, em Portugal. "Mas os que esperavam plumas e biquínis, ficarão desapontados, já que este é um impressionante grupo de jovens artistas com raízes no samba de tradição, mas que sobem ao palco vestindo jeans e moda de rua", segue o jornal.E o que elas estão conseguindo, com isso, é fazer o samba-de-roda voltar a cair no gosto dos jovens de todos os estilos, inclusive do público GLS, já que por muito tempo e até hoje mantêm noite fixa no Vermont, casa do gênero, no Itaim. "É um público fiel, que nos acompanha a qualquer show. Mas não queremos rótulos", diz a empresária Gracie Ganen, de 41 anos. "Nosso negócio é a música. Tocamos para todos os públicos." De fato, nos três shows que fizeram, nos dias 12, 13 e 14 no Auditório do Ibirapuera, conseguiram lotar a casa com uma platéia diferente a cada dia. Na sexta-feira, enfrentaram um público high society que figura nas colunas sociais, ao lado de Preta Gil, convidada da noite. No sábado, receberam a carioca Isabella Taviani e, exceto por um e outro sambista de peso, uma platéia 95% feminina e GLS. Empolgadas com a ginga sensual das meninas, rompiam o silêncio entre uma canção e a próxima com alguns sonoros "gostoooooosaaaaaas!!! maravilhoooooosaaaaaas!!!".Domingo foi o dia da desforra. Acompanhadas por Tia Surica, da Portala, e sob sua bênção, elas subiram no palco finalmente consagradas pela velha-guarda do samba carioca. No samba paulista, já são reconhecidas. "Elas são espetaculares", elogia o paulistano Germano Mathias, sambista veterano de 74 anos. "Os cariocas acham que só eles sabem fazer samba. Essas meninas são excelentes, mas, por serem branquinhas e paulistas, correm risco de sofrer preconceito."?QUEM O SAMBA SABE AMAR?Foi o que motivou a paulistana Aidée, da Lapa, que entrou para o Samba de Rainha após largar o emprego num plano de demissão voluntária da Caixa Econômica Federal, a compor Desdém. Diz assim: "Teu riso de deboche é que é um vexame/ Respeite quem na roda for entrar/ (...) O samba merece quem o samba sabe amar.""De cara, as pessoas nos olham meio torto... Mas, no primeiro acorde do cavaco, o preconceito vai embora", diz Thais Musachi, nascida em Perdizes, que aprendeu cavaco com o pai, que tocava por diversão, e acabou indo parar na Universidade Livre de Música. Também cursou violão popular na FMU. Thais entrou para o Samba de Rainha mandando um formal currículo, depois de vê-las na TV, em um programa de Adriane Galisteu - a quem Núbia entregou um CD "na cara de pau" ao cruzar com a apresentadora num café do Espaço Unibanco. "Ela adorou e ligou para a gente no dia seguinte, nos convidando para ir ao programa."Núbia é fluminense e vive em São Paulo há mais tempo do que jamais morou no Rio. Ela nasceu em Teresópolis, região serrana do Rio. Os pais eram lavradores. Mas, adoravam música. Organizavam um bloco de carnaval na roça, com marchinhas de Ataulfo Alves e Ary Barroso. O caminho de Núbia até os palcos, no entanto, foi tortuoso: ela já trabalhou como vendedora de caixões, em uma funerária de Teresópolis, foi modelo e, até 2004, quando o Samba de Rainha começou, fabricava bijuterias com a amiga e sócia Sandra.Artista plástica formada pela Unesp, hoje à cargo do tamborim e repenique. Neta de negros e portugueses, filha de uma mulata cearense e um baiano descendente de holandês, Sandra acredita que vem dessa mistura as suas influências no samba. "Cresci ouvindo Clara Nunes e Clementina de Jesus", diz.Carina, carioca, começou a cantar MPB, "de brincadeira", aos 13 anos. Até 2002, trabalhou como garçonete e, depois, como modelo - já fez propaganda para Coca-Cola, Natura, Banco do Brasil. Um dia, viu um show do Samba de Rainha em um bar nos Jardins e pediu para tocar com elas. "Você toca percussão?", perguntaram, recebendo resposta positiva. Carina ficou uma semana em casa ouvindo CD de samba e tentando acompanhar as músicas com um pandeiro - ela nunca tinha tocado um instrumento. E só relevou a farsa depois de aceita pelo grupo, quando passou a ter aulas para valer. As últimas a largar outras profissões pelo samba foram Erika e Gadi. Erika, japonesa por parte de pai e síria do lado da mãe, que samba e adora comida árabe, cursou Arquitetura. Trabalhou com decoração de interiores - seu último projeto, no ano passado, foi uma boate na Barra Funda. "Demos um ultimato: ou a prancheta ou o samba, Japa", lembra Núbia. ESTUDO E DOMEsse é, aliás, o tema do segundo CD do grupo, Vivendo Samba, lançado no fim de maio - o primeiro, Isso é Samba de Rainha, saiu em dezembro de 2004, com direção musical de Ratinho do Cavaco. Quem compôs a faixa principal do segundo CD foi Naná Spogis, que leva o apelido de "gringa" pelas colegas do grupo por ter mãe suíça e pai uruguaio. Ela começou a estudar violão aos 13 anos e cursou um semestre de composição na FMU - o resto é dom. "Gosto muito do samba, mas de quase todos os outros estilos de música também. Sou aberta", diz Naná. A versão de Satisfaction, dos Rolling Stones, em ritmo de samba foi idéia dela. "Elas têm de tocar coisas brasileiras, bem tradição, porque samba-de-raiz é isso: não tem distorção harmônica nem deturpação no ritmo", sugere Germano, em desagravo à adaptação que, diga-se, pode até desagradar à velha-guarda, mas fez até roqueiro sambar na platéia do Ibirapuera.Paulista de Penápolis, fisioterapeuta de profissão, com mestrado em Psicologia da Saúde, e espírita de fé, Gadi acredita que nada é por acaso. "Acho que estava escrito, porque é incrível juntar essa mulherada e dar tão certo. Somos muito diferentes umas das outras", diz. O encontro das "meninas" se deu em rodas de samba informais na casa de uma amiga em comum, Pati Cavaquinho, hoje não mais no grupo. Primeiro, foram convidadas a tocar no bar de uma amiga, nos Jardins, e, desde então, no boca a boca, já dividiram o palco com Marcelo D2, Leci Brandão, Rosas de Ouro e muitos outros. Na Virada Cultural, em 2007, levaram 3 mil pessoas ao palco do centro, às 3 horas da madrugada. Toda vez que tocam no Sesc, os ingressos somem. E lotam o Traço de União, Bar Brahma, o Boteco Bohemia e outras casas onde são habitués. "Nunca imaginamos viver do samba, nunca", repetem, em coro afinadíssimo.

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