Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Ramadã começa com orações pela paz

Celebração de 30 dias composta por jejum e rotina de preces marca para o Islamismo a revelação do ‘Alcorão’ a Maomé; preconceito persiste

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2017 | 19h17

SÃO PAULO - Os muçulmanos do Brasil – cerca de 1 milhão, conforme estimativas da União Nacional das Entidades Islâmicas (UNI) – começaram neste sábado, 27, a celebrar o Ramadã, com 30 dias de jejum e orações em 115 mesquitas. Juntos, lembrarão o mês em que Alá revelou o Alcorão, livro sagrado do islamismo, ao profeta Maomé. “Vamos rezar pela paz, que é a tradução da palavra Islã, e refletir sobre o perdão dos pecados e o amor ao próximo”, disse o Sheik Jihad Hassan Hammadeh, presidente do Conselho de Ética da UNI e porta-voz da comunidade na América Latina.

O Sheik, cidadão sírio naturalizado brasileiro, afirmou que os muçulmanos são bem acolhidos no Brasil, embora sejam discriminados por uma minoria, especialmente as mulheres que são identificadas com facilidade porque usam o véu em público. “Tirem esse véu”, afirmam, por exemplo, no metrô e em supermercados pessoas que identificam muçulmanos como terroristas, por falta de informação correta. 

Abdel Aziz, de 12 anos, que estuda numa escola em Florianópolis, revelou que alguns colegas identificam muçulmano como homem-bomba e lhe jogam isso na cara, discriminando-o sem disfarces. “Eu falo que terroristas não são islamitas, porque o Islã prega a paz e quem pratica a violência não é reconhecido por Deus como muçulmano”, disse Abdel. O paulista Amer Hind, de 11 anos, que participou com ele na sexta-feira, 26, da oração das 13 horas, na mesquita de São Bernardo do Campo, observou que não sofre discriminação, embora seus colegas saibam que ele é muçulmano.

Meninos podem participar do Ramadã a partir dos 12 anos de idade, ou até antes, conforme a localidade. É o caso de Abdel e de Amer. Mesmo fora do mês sagrado, eles vão à mesquita para a oração do começo da tarde, depois de ir à escola pela manhã. Nos próximos 30 dias, farão jejum e rezarão voltados para Meca, a cidade santa do islamismo na Arábia Saudita, além de fazer orações também durante a noite, se possível na mesquita. Os dois meninos são filhos de pais de ascendência árabe. “Em casa, eu falo português e árabe”, contou Abdel.

Os muçulmanos fazem orações, prostrando-se voltados para Meca, cinco vezes por dia: às 5h45, 12 horas, 16 horas, 17h45 e 20 horas. Aplicativos de celulares fornecem programa para indicar, com uma bússola eletrônica, a direção exata da cidade santa de Maomé. “Eu rezo onde estiver, já rezei em restaurante, por exemplo”, contou o publicitário gaúcho Paulo Ricardo Prado, de 57 anos, convertido há três anos ao islamismo. “Tive formação católica e, antes de descobrir o Islã como religião ideal, fui espírita e adventista”, revela. Ao se converter, passou a se chamar Mohamed Sadik.

Rotina. Nos 30 dias do Ramadã, os muçulmanos nada comem nem bebem, do nascer ao pôr do sol ou das 5h45 às 17h45, conforme se estabeleceu para o Brasil. Pode-se alimentar com moderação antes do amanhecer e jantar depois do anoitecer. A fome que resulta do jejum durante o dia tem como objetivo aproximar os fiéis dos pobres. Atos de caridade e distribuição de comida aos necessitados, como sinal de compaixão, marcam essa comemoração do Islã. A data varia, de ano para ano, conforme o calendário lunar seguido pela religião. 

Além do jejum, os muçulmanos dedicam-se à espiritualidade durante o mês. Intensificam as orações noturnas e também a leitura do Alcorão. O objetivo é atingir a purificação interna e maior conscientização sobre as dificuldades humanas.

Depoimento, Edison Veiga, jornalista do Estado

‘O principal impacto é o dos longos jejuns’

A frenética Dubai se transforma no período do Ramadã. Em 2016, em conexão, acabei passando lá uma noite e um dia do período sagrado. Mesmo em locais mais ocidentalizados, como é o caso de Dubai, onde as mulheres estão dispensadas de usar véu, é recomendável que, ao menos no Ramadã, elas se vistam com mais cuidado. Mas o principal impacto é aquele causado pelos longos jejuns. 

A maior parte dos restaurantes fica fechada. Em regiões mais turísticas, alguns até funcionam – mas colocam cortinas nas portas e, geralmente, só empacotam para levar. Mesmo os que não são muçulmanos estão proibidos de comer ou beber em público. Faz todo o sentido: imagine o tamanho do sacrifício dos que estão se abstendo de alimentação; seria injusto que tivessem ainda de ver outros comendo.

As crianças estão livres do jejum. Na época, meu filho tinha 2 anos e 8 meses e, durante o passeio, era o único do carro que tomava água quando queria. Ao viajar aberto a vivenciar as mais diferentes experiências, com respeito pelas culturas dos outros, aprendemos com maior empatia o conceito de humanidade.

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