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Rapaziada do Brás

Rapaziada do Brás era o nome de um conjunto musical que nos cinemas do bairro acompanhava os filmes do cinema mudo. Do grupo fazia parte Alberto Marino, filho de imigrantes calabreses, nascido no próprio Brás em 1902. Aos 15 anos, compôs a valsa Rapaziada do Brás, que ainda não tinha letra e seria gravada apenas em 1927.

José de Souza Martins, O Estadao de S.Paulo

14 de setembro de 2009 | 00h00

A valsa nasceu no tumultuado ano da grande greve de 1917, que começou na Mooca, mas ganhou força ali no Brás, quando a polícia matou o jovem operário espanhol Antônio Martinez, na porta do Moinho Matarazzo, cujo prédio de 1900 sobrevive na Rua do Bucolismo. Marino morava ali perto, na Rua do Gasômetro. Seu pai tinha um armazém de secos e molhados, próximo ao Cine Glória. Em algumas regiões da Itália, o Brás era mais conhecido que São Paulo. O bairro se orgulhava de seus cinemas, de sua estação ferroviária com a famosa porteira do abre quando fecha. Após o jantar, no começo da noite, as famílias colocavam cadeiras na calçada para bater papo com os vizinhos, comentar a própria vida e a vida alheia. O Grupo Escolar Romão Puiggari, em frente à Igreja do Bom Jesus de Matosinhos do José Brás, foi frequentado por crianças que se tornariam adultos famosos. O Brás teve até seu teatro de ópera, o Teatro Colombo, no Largo da Concórdia. Numa das paredes internas, uma placa dizia que Pietro  Mascagni em pessoa ali regera sua Cavalleria Rusticana.

Em 1960, o cantor Carlos Galhardo pediu a Marino que pusesse letra em Rapaziada do Brás, pois queria gravar a valsa famosa. O compositor sugeriu que seu filho, Alberto Marino Júnior, escrevesse o poema. Em uma semana, o homem que seria o corajoso promotor público do caso do Esquadrão da Morte e se tornaria desembargador tinha os versos prontos: "Lembrar, deixem-me lembrar, meus tempos de rapaz no Brás/ As noites de serestas, casais enamorados/ E as cordas de um violão cantando em tom plangente / Aqueles ternos madrigais."

Aquele pedaço do Brás de Alberto Marino de certo modo ainda vive. A Cantina Castelões, de 1924, o ano da Revolução e dos bombardeios que mataram muita gente no bairro, mantém aquele jeitão das velhas cantinas italianas. Um aviso, no banheiro dos homens, ainda pede em dialeto para que os usuários evitem urinar no chão: "Por favor, chegue mais perto. "Ele" não é tão grande quanto você pensa..."

O Brás tinha e tem ainda sua própria língua, o dialeto ítalo-paulistano, que Juó Bananere, pseudônimo do engenheiro Alexandre Marcondes Machado, consagrou em suas paródias. Numa viela próxima à Casa das Retortas, quando eu há poucos meses fotografava as casinhas bem cuidadas, uma senhora idosa, de cabelinhos brancos, saiu à janela e puxou conversa no sotaque local. Contou-me histórias do bairro. Depois, antes de voltar para dentro, despediu-se:

- Ciao, Bello!

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