Reabertura do Valo Grande ameaça ecossistema

Cerca de 18 quilômetros do Rio Ribeira de Iguape, a partir da barra onde as águas do rio se juntam às do Oceano Atlântico, no município de Iguape, litoral sul de São Paulo, estão morrendo. Nesse trecho, um dos mais importantes rios do Estado, outrora caudaloso e repleto de peixes, está ficando raso e quase sem vida. Na foz, o que era antes um caudal com quase mil metros de largura, empurrando fortemente suas águas mar adentro, transformou-se em um canal estreito e raso, pontilhado por bancos de areia. A água salgada adentrou o rio e os peixes desapareceram. Sem força para arrastar os sedimentos, o Ribeira vai ficando cada vez mais assoreado. Ambientalistas já prevêem o fechamento total da barra e a transformação desse trecho em um manancial de águas paradas. A causa do fenômeno é a reabertura do Valo Grande, em Iguape, em 1994. Com a queda do que restava de uma barragem de contenção, as águas do Ribeira passaram a escoar por esse canal artifical, que desemboca no Mar Pequeno, criando uma segunda foz. Nos últimos anos, o valo passou a receber mais da metade da vazão do Ribeira, causando um desastre sem precedentes no complexo estuarino lagunar de Iguape-Cananéia, um dos maiores berçários de espécies do planeta. "Além de causar a morte do Ribeira Velho, o despejo de água doce no estuário acabou com os peixes, camarões, ostras, caranguejos e siris", afirma o prefeito de Iguape, João Cabral Muniz (PSDB). Das 12 indústrias de pescado do município, restam apenas três. A pesca turística também acabou. "O estuário sofre intenso assoreamento e está recebendo uma carga de poluição que, antes, era diluída no oceano", denunciou. Além dos esgotos das cidades que corta, o Ribeira tem elevados índices de contaminação por metais pesados, principalmente o chumbo. O Valo Grande é resultado de uma equivocada intervenção do homem na natureza. A estrutura de uma barragem que fecharia o canal está pronta há dez anos, mas as comportas não foram colocadas. O governo alega não dispor dos R$ 12 milhões que faltam para a obra. O valo transformou-se num grande escoadouro das águas do Ribeira, 18 quilômetros antes da foz. "É uma espécie de ladrão, num ponto muito crítico onde as águas naturalmente perdem velocidade", explica o superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Estado de São Paulo, Wilson de Almeida Lima.

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