Realidade é a mesma há mais de um século

Portugueses e italianos tornaram populares as moradias coletivas

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 00h00

No começo do século passado, os proprietários de cortiços eram chamados de "senhorios" e os zeladores que administravam a cobrança de aluguel eram os "gatos". "Miolos de quarteirão" designavam os lotes estreitos e compridos usados na construção das moradias coletivas. Mais de um século depois, se os termos mudaram, a realidade dos cortiços continua semelhante.A maioria das habitações permanece nos distritos de sempre, como Bela Vista, Bom Retiro, Liberdade, Santa Cecília, Brás e Belém, grande parte em lotes e casas de antigamente. Os intermediários ou donos de imóveis continuam ganhando dinheiro no aluguel de habitação popular de baixa qualidade. É possível até mesmo encontrar portugueses à frente do negócio - o povo que criou o termo "cortiços" (originalmente usado pelos apicultores em Portugal como sinônimo de casas de abelha) e juntamente com os italianos popularizou esse tipo de moradia em São Paulo.Nascido em Póvoa de Varzim, perto do Porto, em Portugal, Isolino Gomes Torres, de 76 anos, chegou a São Paulo em 1955 para trabalhar como porteiro de hotel. Abriu uma pequena pensão em Perdizes, na zona oeste, poucos anos depois. Mudou-se para a região de Campos Elísios, no centro, para trabalhar com três pensões vizinhas ao antigo terminal rodoviário, que fechou em 1982. Foi nessa época que ele transformou as pensões em moradias coletivas, incluindo um casarão tombado de 1898 na Alameda Barão de Piracicaba, pertencente a um barão do café. "Vinha gente querendo morar no centro. Eles chamavam os primos, tio, tia. Hoje tem gente que mora aqui há mais de 15 anos", diz Torres.Ele cobra entre R$ 200 e R$ 300 de aluguel em cada um dos 35 quartos espalhados em três cortiços e consegue manter o ambiente familiar, apesar de viver no miolo da região da Cracolândia. Com a intimação da Prefeitura, aproveitou para melhorar a segurança da rede elétrica e de gás e a estrutura do casarão. Torres nega que os proprietários das casas sejam responsáveis pelos altos custos do aluguel. "Rico não pensa nesse negócio. Com o dinheiro, dá para cuidar da família e às vezes passar uns dias na terrinha", diz.Os administradores de cortiços ganham entre R$ 1 mil e R$ 8 mil, dependendo da quantidade de quartos que alugam. Nascido em Borborema, na Paraíba, Severino Matias dos Santos, de 42 anos, aluga quartos em um casarão de 1949, na Rua Conde de São Joaquim, na Bela Vista. Os preços dos 24 dormitórios variam de R$ 280 a R$ 450 e rendem a ele, em média, R$ 1,5 mil por mês. "Sou meio desorganizado e por isso lucro menos. Às vezes chegam quatro parentes em uma mesma casa e eu não cobro adicional pelo aumento na água." Quem acaba recebendo dinheiro fácil são os proprietários das casas. VERTICALIZAÇÃOO arquiteto Nabil Bonduki explica que muitos cortiços funcionam só enquanto os proprietários aguardam a valorização dos terrenos no mercado imobiliário. Na Subprefeitura da Mooca, depois da corrida das incorporadoras para verticalizar o bairro, foram fechados 293, de acordo com a Secretaria Municipal Habitação.A instabilidade e informalidade dos cortiços, ao mesmo tempo que tornam a vida dos moradores vulnerável, ironicamente acabam sendo seu principal atrativo. A rendeira Maria Araújo dos Santos, de 69 anos, paga R$ 425 por mês de aluguel por um cômodo de pouco mais de 10 m² no Glicério. No mesmo cortiço, Arlindo Domissiano, de 75, vive com a mulher e barraquinha móvel de vendedor ambulante. "Se tivesse casa própria, teria dor de cabeça com impostos, conta de água e luz. Por isso moramos aqui", diz sua mulher, Maria Araújo. NÚMEROSR$ 8 milé quanto chega a ganhar um administrador R$ 200 é o preçomínimo para alugar um quarto na região da Cracolândia293 cortiçosfecharam na Mooca

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