Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

‘Recebi ordem de cessar-fogo, mas decidi mandar atirar’

Depoimento: Amerino Raposo, coronel do Exército e tenente na Itália

25 Agosto 2012 | 15h45

A guerra acabou na Itália em 2 de maio, mas para nós da FEB ela terminou em 30 de abril, em Collecchio-Fornovo. Foi lá que o Ernani Ayrosa (então capitão) se arrebentou. Eu estive com ele um minutos antes. Foi uma coisa impressionante. O coronel Nelson de Melo havia dado prazo de 13 horas aos alemães - ou eles se rendiam ou seriam atacados. Eles se recusaram. O coronel deu ordem de marcha para contato, duas companhias.

O Ayrosa chegou em um jipe. Eu estava parado com as quatro peças (canhões) num bosque. Perto dali, havia um tenente alemão morto. O inimigo havia saído de véspera. Eu disse ao Ayrosa: "Capitão, qual é a sua direção de marcha para eu apontar as minhas peças? Eu tô perdido aqui". Ele me disse: "Também estou perdido. Não sei se os alemães estão pra lá ou pra lá".

Como era tudo confuso, ele tirou o motorista, o pôs atrás no jipe e pegou a direção. O sargento ficou no lugar dele, ao lado do motorista. O Ayrosa ainda apanhou um reboque com 300 rojões e foi alimentar as bazucas na linha de frente. Muito bem, o que é que ocorreu? Quando ele fez a curva, o sargento disse: "Capitão, olha o PA (posto avançado) alemão". Viu dois soldadinhos lá. O Ayrosa parou o jipe e foi manobrar para voltar. Aí passou na mina. Do banco da frente para trás do jipe, desapareceu tudo. O soldado que estava atrás virou pó. O Ayrosa foi capturado pelos alemães e o sargento foi jogado a uns 30 metros, mas sobreviveu. Era 28 de abril.

Eu não tinha noção da linha de contato com o inimigo. Calculei que eles estariam a 1.500 metros por causa da trajetória dos tiros de uma metralhadora antiaérea. Chamei os quatro sargentos chefes de peça: "A situação é essa: estamos cegos, mas vamos ter de atirar por causa do desespero da companhia nossa que está sob ataque". Mandei buscar munição, pois tinha pouca, e ela chegou. Aí dei a ordem: "Pôr tudo".

Mais ou menos à 0h40, o coronel Souza Carvalho, meu comandante, me chamou: "Raposo, os alemães aceitaram a rendição. Cesse o fogo e permaneça na posição até o amanhecer". Respondi: "Sim, senhor". Quando ele desligou, chamei os sargentos chefes de peça: "Vocês vão consumir as 200 e tantas granadas que ainda estão aqui". Coisa que é pena de morte. Mas são coisas feitas dentro de uma intenção, pois eles ainda podiam fazer misérias lá. E, às 8 horas do dia 29, ali em Collechio, começou a chegar um grupo de oficiais alemães de uniforme cinza, com barba feita e condecorações, como se fosse uma parada. Começava a rendição. / M.G. e E.F.

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