Recomeço em meio à destruição

Em Sertão Verde, moradores tentam retomar a vida

Rodrigo Brancatelli, GASPAR, O Estadao de S.Paulo

03 de dezembro de 2008 | 00h00

Difícil é a missão de reconstruir algo quando quase nada sobrou. Vitório de Oliveira Cardoso, um tecelão de 38 anos que usa uma camisa do time do São Paulo, começou o trabalho pela fiação da casa. Ontem de tarde, depois de voltar pela primeira vez para o bairro, tirou o soquete de luz que se dependurava do teto, checou se havia eletricidade, aparafusou duas peças quebradas. Foi tudo o que ele conseguiu consertar - ao seu redor, bem como em toda a comunidade de Sertão Verde, há apenas lama, destroços e memórias dos cerca de 30 moradores desabrigados pela enchente.Os vizinhos, que decidiram voltar para as suas casas depois de o nível da água ter baixado, começaram ontem a reconstrução de Sertão Verde sem muitas esperanças de retomar a vida do jeito que era há menos de um mês. Três pessoas morreram soterradas ali e nem uma casa sequer sobrou intacta. Mesmo assim, homens, mulheres e crianças tentam reerguer suas residências e retomar a rotina. "Uma hora tem de voltar e encarar a realidade", diz Fabiana Linhares, de 29 anos, olhando os escombros da sua casa.Não há luz, a água é escassa e não há um técnico da Defesa Civil para acompanhar os trabalhos ou checar as condições de segurança. Sem a atenção devida das autoridades, Sertão Verde também ainda tem lama pouco abaixo do joelho, muita água represada que pode esta contaminada e cheira insuportavelmente à carniça. Ezequiel Vergino, de 31 anos, que trabalha em uma serraria que também foi atingida por um desmoronamento, percorre várias vezes, descalço, os 200 metros entre sua casa e uma mangueira do outro lado da rua. Também demora muito para andar quando mal se consegue levantar a perna no meio de tanto barro. "Preciso limpar tudo o mais rápido possível, porque vamos dormir no chão, à luz de velas, em colchonetes que pegamos no abrigo", diz ele. "Ainda é melhor do que ficar no abrigo. Não tenho o que fazer agora, essa casa é tudo o que eu tenho. Não sobrou nada, tudo foi destruído, móveis, geladeira, fogão, roupas..." Enquanto ele conta o prejuízo, seu filho de 6 anos, Carlos Eduardo, aparece para tentar ajudar. "Eu também perdi meu ursinho, minha bicicleta e minha bola. Não tem mais como brincar agora."

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