Reconstrução serve de exemplo da superação

Há quem tenha usado as economias para adquirir novo lar. ?É só tirar a burocracia do caminho?, diz garçom

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

"Ali, na beira do rio, deixaram largado um povoado inteiro: casas, sobradinho, capela; três vendinhas, o chalé e o cemitério; e a rua, sozinha e comprida, que agora nem mais é uma estrada, de tanto que o mato a entupiu. (...) Quando passaram as chuvas, o rio - que não tem pressa e não tem margens, porque cresce num dia mas leva mais de mês para minguar - desengordou devagarinho. (...) Quem foi s?embora foram os moradores: os primeiros para o cemitério, os outros por aí a fora, por este mundo de Deus." As frases de Guimarães Rosa em um dos contos do livro Sagarana pintam quase que perfeitamente a paisagem atual de pelo menos dez localidades atingidas pelas chuvas em Santa Catarina. Comunidades mais isoladas de Ilhota, Gaspar, Belchior e Luís Alves, em uma região conhecida como Morro do Baú, parecem agora bairros-fantasmas, sem barulho e sem nenhuma pessoa andando nas ruas. Inúmeras casas foram condenadas pela Defesa Civil, que escreveu a letra "C" maiúscula na fachada de inúmeras delas para deixar bem claro o perigo que ainda existe nas áreas de encosta. Janelas e portas estão trancadas, móveis foram retirados, anos de dedicação, deixados para trás, e uma longa teia de possibilidades e delicadezas se desfez de uma hora para outra."É extremamente difícil o trabalho de reconstrução, porque em muitas cidades não sobrou quase nada", diz Jaime Lehmkuhel, garçom de 45 anos que teve a casa condenada em Blumenau. Sem aguentar mais dividir cômodos temporários com outros desabrigados da região, ele usou todas as economias para comprar um sobrado na periferia da cidade, que também foi invadido pela terra, mas não corre o risco de desabar. Agora, Jaime, sua mulher, Gorete, de 40 anos, e os filhos, Kevin e Janine, de 13 e 5 anos, trabalham das 15 às 19 horas todos os dias para reerguer suas vidas. "Paguei R$ 35 mil, mas é melhor do que continuar em abrigo ou ficar alugando a casa de alguém", diz. "Precisamos retomar nossas rotinas, e o único jeito de fazer isso é descruzar os braços. Não adianta ficar esperando ajuda, tem de ir atrás, tem de correr, batalhar. É só dar as ferramentas para a gente, tirar a burocracia do caminho, que a gente coloca a vida em pé de novo."UNIÃOA 40 quilômetros dali, em Ilhota, outro exemplo de humanidade frente à tragédia. Mesmo com a destruição total da sua indústria de conservas de palmito, a família Martendal continuou pagando em dia o salário de cerca de R$ 900 dos 15 funcionários. Donos e empregados passaram a ser desabrigados, juntos. Uma semana se passou, 15 dias, 2 meses, e nada de o governo chegar a um acordo sobre a reconstrução da cidade. Os Martendal resolveram então reerguer a fábrica com as próprias mãos - agora, novamente, donos e empregados estão juntos construindo um galpão de 1,1 mil metros quadrados, que deverá ser inaugurado nesta semana."Acho que ninguém aqui sabia realmente o ofício de servente, mas isso não foi um obstáculo para todos se ajudarem", diz Ademir Martendal, todo sujo de cimento e tinta, idêntico aos seus funcionários. "Um aprendeu a fazer a parede, o outro a pintar, o outro a trabalhar com o cimento, o outro a operar o trator. A tragédia uniu as pessoas daqui, sabe, todos estão no mesmo barco."

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