PF
PF

Redes de tráfico de fósseis alimentam coleções no exterior e prejudicam ciência brasileira; entenda

Bacia do Araripe, no Ceará, está no foco de operação da Polícia Federal esta semana; área é um dos principais alvos deste tipo de crime

Marcela Coelho, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2020 | 12h00

A Polícia Federal prendeu nesta quinta-feira, 22, suspeitos de comandar um esquema de tráfico de fósseis na Chapada do Araripe, no extremo sul cearense. O crime teria participação até de um professor da Universidade Federal do Rio (UFRJ) - a instituição nega ação ilegal. Há décadas, o local no Nordeste é alvo de redes de tráfico que comercializam e transportam ilegalmente para o exterior tesouros pré-históricos.

Essas redes internacionais de tráfico de fósseis, segundo especialistas, prejudicam a pesquisa científica e o patrimônio natural do Brasil. “Perdemos em múltiplas vertentes. Esses patrimônios são expostos em museus para as pessoas verem. Quando um fóssil de grande importância é encontrado e vendido, nossos cientistas deixam de estudá-los. Perdemos até a oportunidade de capacitar pessoas que vão trabalhar na área futuramente. Estamos deixando de descobrir a nossa própria história”, disse Taissa Rodrigues, paleontóloga da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

A Bacia do Araripe é um dos depósitos fossilíferos mais importantes do planeta. Lá, são encontrados, por exemplo, fósseis de diversas espécies de peixes, libélulas, dinossauros, jacarés e plantas. E o fato de a região também ter minas de exploração do calcário laminado e da gipsita (material usado para fazer gesso) para fins comerciais torna o local mais “fácil” de encontrar fósseis e, assim, se tornar um dos principais alvos dos traficantes.

“Quando as pessoas estão trabalhando nas minas, podem encontrar os fósseis. E quando se encontra, o correto é levar a um instituto de pesquisa. No entanto, como não tem quem fiscaliza, os peixeiros (como são chamadas essas pessoas) não se sentem na obrigação de nada e passam para frente”, diz Antônio Álamo Saraiva, paleontólogo e curador do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri (CE).

“Às vezes, compram dessas pessoas por valores muito pequenos. Pessoas estão sendo exploradas e levam para o exterior disfarçado de alguma forma. Sem ter mais paleontólogos trabalhando, a gente não tem como fazer um bom trabalho de fiscalização”, comentou Taissa. Segundo a PF, o valor dos itens pré-históricos de Araripe vendidos ilegalmente podem ter preço de até R$ 10 mil. 

Apesar dos últimos episódios, a paleontóloga relata queda desse comércio ilegal. “Com o desenvolvimento da região, pessoas tendo maior ciência que é proibido, abriu-se um museu na região. Eles sabem que têm retorno pra comunidade. Mas ainda acontece”, explica a paleontóloga. Para Saraiva, o grande problema é a falta de fiscalização na região. 

Quem são os compradores dos fósseis?

Os principais compradores desses materiais são os colecionadores particulares de fora do País. “No exterior, as pessoas em alguns locais têm visão diferente dos fósseis. Muitas pessoas gostam de colecionar como objetos de interesse. Quando fósseis no Brasil escavados e exportados ilegalmente, vão ser vendidos, na maioria das vezes, para colecionadores particulares e provavelmente não se tem mais notícias deles”, afirma Taissa.

Conforme Saraiva, museus também buscam por essas peças. “Por conta de dinheiro. De maneira geral, no estrangeiro, os fósseis atraem visitantes para os museus, que fazem exposições. Como há o hábito de ir ao museu, quanto mais novidade, mais gente atrai, mais sobe o valor do ingresso.” Ele ainda afirmou que há pesquisadores brasileiros que compram os fósseis para “valorizarem os seus trabalhos e a coleção da universidade”.

O valor da venda desses fósseis pela rede de tráfico pode variar muito. Alguns fatores considerados para determinar o quanto custa são a qualidade do fóssil, o quanto do esqueleto está presente e o valor de raridade. “Um colecionador não tem interesse em comprar fóssil comum. Quer comprar um fóssil que ninguém mais tem”, explicou a professora da UFES.

Denúncias ajudam na investigação dessas redes de tráficos

A especialista orientou que, ao se deparar com vendas ilegais de fósseis, até mesmo em redes sociais, é necessário fazer denúncia formal no sistema de ouvidoria do Ministério Público Federal para ajudar nas investigações das redes de tráfico.

“Caso este tráfico seja internacional, eles entram em contato com a Interpol, polícia do outro país onde está o fóssil e buscam apoio para fazer essa investigação”, afirma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.