Redistribuição de vôos não resolve crise, diz especialista

Para André Castellini, Aeronáutica deve gerenciar a situação dos controladores

Agencia Estado

04 Julho 2007 | 17h29

Redistribuir a malha de vôos das companhias, como propõe o comando da Aeronáutica, é apenas uma medida paliativa para amenizar o caos aéreo no curto prazo. A avaliação é do especialista em setor aéreo, André Castellini, da consultoria Bain & Company, que alerta para dois efeitos negativos: além de deixar passageiros sem oferta nos horários de maior demanda, corre-se o risco ainda de as tarifas destes vôos mais disputados serem inflacionadas. "A redistribuição de vôos é uma forma de minimizar os problemas no curto prazo. Mas essa necessidade que a Aeronáutica defende vem de um problema mais a fundo, que é o de infra-estrutura", avalia o especialista. E emenda: "No momento em que você limita os vôos por falta de capacidade de gerenciar o tráfego e os problemas de aeroportos, cria-se uma inconveniência para o passageiro. E como a demanda por esses vôos não vai mudar, as tarifas tendem a subir". Castellini observa que hoje dois terços da demanda de passageiros viaja a negócios e não ter vôos nos horários em que há maior necessidade - início da manhã e final do dia - gera uma situação complicada. "É como cortar pela metade o número de vôos em que há demanda. Um monte de gente não vai achar lugar para voar, e vai ter que desistir ou mudar de horário, onde se tratando de negócios fica difícil", analisa. Segundo ele, a medida defendida pela Aeronáutica, e a qual a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) resiste, vem na contramão de uma solução muito mais eficaz. Para ele, os investimentos em equipamentos, "que são relativamente pequenos", deveriam ter sido feitos de forma mais agressiva. "Se já foi feito, não teve visibilidade", observa. O especialista defende ainda que haja um esforço maior da Aeronáutica em gerenciar melhor a situação dos controladores e acelerar a formação de novos profissionais de tráfego aéreo. "A Aeronáutica tem que gerenciar os controladores de forma inteligente e ter uma liderança mais eficaz sobre eles. Além disso, dar máximo gás e empenho para formar novos controladores", afirma. Castellini ressalta também que tem que ser desenvolvido, com urgência, um projeto aeroportuário para eliminar os gargalos na região de São Paulo. "A questão dos aeroportos tem que ser resolvida o mais rápido possível. Foi levantada a construção de uma terceira pista no aeroporto de Cumbica (Guarulhos), a ampliação de Viracopos e até a construção de um novo aeroporto. Todas elas trazem questões complexas, mas é preciso fazer algo", diz o especialista. No entanto, salienta ele, falta alguém com liderança para assumir a questão. "A gente não vê quem é o responsável por liberar esses investimentos, para definir e executar a decisão. Falta saber quem é o pivô". Com a continuidade da crise, o especialista destaca que as companhias aéreas podem ser prejudicadas futuramente. Isso porque algumas, como TAM e Gol, líderes do mercado, fizeram aquisições de aeronaves recentemente e poderão ficar com elas paradas. "Se não houver soluções para a questão aeroportuária, a demanda ficará aquém do que o País precisa e as companhias ficarão com aviões sobrando", pondera.

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