Capítulo 04

Reforçar estereótipos na educação? Difícil imaginar quem ganha com isso

Meninos e meninas precisam receber estímulos mais semelhantes em casa e na escola. Afinal, ter facilidade para matemática ou para português é uma questão pessoal. E não de gênero

Carla Miranda, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2019 | 17h16

Caro leitor,

Acompanhe comigo o desenrolar desta cena. Uma professora de  Matemática pergunta quem quer resolver um exercício no quadro negro. Três meninos e uma menina levantam as mãos – e ela convida um dos garotos para ir até a lousa. Na hora de solucionar o próximo problema, a professora chama outro dos alunos voluntários. Na sequência, volta a pedir ajuda do primeiro menino. Parece razoável a preferência pelos garotos? Por que a aluna não foi escolhida?

A menina foi silenciada durante o ano”, explica a pesquisadora Lindamir Casagrande, que durante seis meses acompanhou aulas da disciplina em uma escola pública do Paraná, onde a cena aconteceu. “No fim, a aluna já não se manifestava mais, ao passo que os meninos continuavam querendo participar.”

Não, não se trata de uma ocorrência isolada, específica daquela escola de Curitiba. Segundo especialistas, é comum ouvir frases como “os meninos têm raciocínio mais rápido” ou “eles gostam mais de Matemática”. A questão é: devemos continuar reforçando e perpetuando esse tipo de comentário?

Seguindo essa lógica de associar aptidão a gênero, uma cena semelhante poderia ocorrer na escola com sua filha, sua sobrinha ou sua neta. Mesmo ela tendo interesse em Matemática e facilidade para fazer cálculos. Ou com seu filho, se a aula fosse de redação e o professor só escolhesse meninas para ler suas poesias para a turma. A divisão entre “coisa de menino” e “coisa de menina” é, infelizmente, um preconceito mais abrangente do que a escolha da cor da roupa.     

Difícil é imaginar quem ganha quando se reforça estereótipos, seja qual for a situação. Na educação, fica claro que todos perdem, meninos e meninas. Com consequências graves para o futuro deles.  

Como quadro geral, sabemos que as deficiências de aprendizado entre estudantes de todos os gêneros persistem. O Brasil avançou em direção à universalização do ensino, mas ter mais alunos na escola não significa educação de qualidade. O País não está conseguindo, por exemplo, atingir as metas de aprendizado definidas pelo Ministério da Educação para as séries finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano) e para o ensino médio, segundo dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

Também estamos em desvantagem na comparação com outros países. Continuamos frequentando a parte inferior do ranking do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), que testa alunos na faixa dos 15 anos nas disciplinas de Leitura, Matemática e Ciências.

Em um cenário trágico como o atual, faz sentido argumentar que a desigualdade entre os gêneros não é o único problema da nossa educação. Assim como faz sentido defender que a diferença de estímulos não deve ser tratada como algo irrelevante ou natural.

Quando dividimos por gênero os resultados do último Pisa – os testes foram realizados em 2015, com divulgação no ano seguinte -, as meninas brasileiras tiveram notas maiores em Leitura, ficando 23 pontos acima da média dos meninos. Já os garotos foram melhores em Matemática, com 15 pontos a mais, e em Ciências, com 4 pontos de vantagem.

Algo semelhante ocorre no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). As maiores notas de Matemática e Ciências são geralmente obtidas pelos garotos, enquanto elas se sobressaem em Redação. Meninos e meninas têm a mesma capacidade de aprender, isso está mais do que comprovado. O que leva, então, a essas dessemelhanças?

Para especialistas, a diferença começa em casa, no estímulo que as famílias dão aos filhos. É preciso motivá-los de forma mais semelhante, independentemente de seu sexo. Os bloquinhos de montar e os jogos que estimulam o raciocínio não podem ser brinquedos só de meninos. E as meninas não devem ficar apenas no mundo da fantasia, entre princesas e bonecas.

As escolas, por sua vez, têm de promover caminhos mais iguais, em vez de refletir e reforçar o que ocorre em vários lares. É razoável podar o ânimo da aluna que quer ir ao quadro resolver a questão de Matemática, por uma suposta ideia de que garotos têm raciocínio lógico melhor? Será que meninas não precisam fazer contas e os meninos não precisam ter mais capacidade de interpretar textos e escrever? Sim, precisam. A sociedade vai cobrar isso deles no futuro. O mercado de trabalho, idem.

No ano passado, o Estado montou uma reportagem especial que mostra claramente as diferenças no desempenho do Enem não só entre os gêneros, mas também segundo raça e condição socioeconômica. Garotas negras e pardas representavam apenas 6% das notas mais altas, embora fossem a maior parte dos inscritos no Enem. Garotos brancos eram 50% do grupo com as mil maiores notas no exame. Os mais ricos também se destacavam no grupo dos que tinham melhor pontuação.

Todas essas desigualdades deságuam no mercado de trabalho. O desestímulo ou não incentivo ao estudo de Matemática e de Ciências, por exemplo, acaba afastando muitas meninas de áreas como de Exatas e Tecnologia. Qual o problema, muitos se perguntam? A questão é que esses são setores em que as remunerações costumam ser mais altas. Para encurtar uma história longa, está nessa falta de estímulo original uma das explicações para o chamado gender gap, a diferença no salário de homens e mulheres no mercado de trabalho.  

Por isso, a preocupação de associações, ONGs e agentes individuais, no mundo e no Brasil, que buscam fomentar a participação feminina nesses setores. Não faltam exemplos como o programa Meninas na Ciência, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que procura destacar o trabalho das cientistas, seja as que fazem parte da história ou as que estão produzindo atualmente. A ideia é que esses casos sirvam de inspiração, de modelo.

E eles existem. A americana Frances Arnold dividiu o Nobel de Química do ano passado com dois colegas. O mesmo ocorreu no Nobel de Física com a canadense Donna Strickland, a terceira mulher a ganhar o prêmio nesta categoria. Aqui no Brasil, a pesquisadora Liu Lin está à frente da equipe de Física do projeto Sirius, que constrói em Campinas o que será o segundo acelerador de partículas de quarta geração do mundo.   

Já ouviu falar na senegalesa Mariéme Jamme? Pois é. Ela aprendeu a ler sozinha - e depois descobriu como programar em sete linguagens diferentes. Hoje, liderando a ONG I Am The Code, ela se propõe a mudar a vida de 1 milhão de meninas até 2030, através do ensino de programação. “Temos um código para mudar a vida das pessoas”, disse Mariéme, na entrevista ao site Capitu. Estimular crianças de forma mais igualitária e não restringir aptidões e sonhos fazem parte do caminho para a mudança.  

 

 

Carla Miranda

Carla Miranda

Editora do Capitu

Jornalista, doutora em comunicação e mãe de duas meninas superpoderosas. Especialista em jornadas duplas ou triplas, como quase toda brasileira.

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