Reforma de Lula copia padrão militar

O modelo de distribuição de terras para a reforma agrária no atual governo segue um padrão semelhante ao dos projetos de colonização do regime militar - que empurrava populações rurais das regiões Sul e Sudeste do País para a ocupação de terras na Amazônia. A constatação é do cientista político Miguel Carter, professor da School of International Service da American University, em Washington, e estudioso da questão agrária brasileira, após analisar as áreas de terras destinadas à reforma agrária nos últimos 32 anos, de acordo com o período presidencial e as regiões do País.

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

Carter verificou que entre 2003 e 2006, no primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 72,7% das terras destinadas a assentamentos estavam na região Norte. Essa taxa só foi superada no governo do general João Figueiredo (1979-1984), quando chegou a 82,7%. Nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) ela não passou de 41%.

"Sob esse aspecto, a reforma agrária de Lula é muito conservadora", disse o pesquisador ao Estado. Ele observou que, enquanto Lula concentra assentamentos na região Norte, os conflitos se agravam em outras regiões. Segundo suas informações, quase 40% das pessoas mobilizadas para invasões de terras, ocupações de edifícios públicos e outras ações estão no Sul e Sudeste.

Os números do segundo governo do presidente Lula não estão consolidados. Mas informações preliminares confirmam que irá repetir o padrão do primeiro.

Admirador do Movimento dos Sem-Terra (MST), Carter é o organizador do livro de artigos Combatendo a Desigualdade Social, lançado há pouco. Ele acredita que a consolidação do agronegócio no Brasil vem produzindo uma correlação de forças muito desfavorável aos sem-terra. "A expansão territorial desse modelo, com a aquisição de grandes extensões de terra para a produção de soja, celulose, agrocombustíveis, carne e outras commodities de exportação tem impulsionado uma nova fase de concentração de terras", assinalou.

O que pode dar fôlego aos sem-terra, segundo Carter, é a preocupação global com a preservação ambiental, que seria menos favorável à agricultura em larga escala e com riscos para o ambiente.

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