Jamil Chade/Estadão
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Reforma Protestante: 500 anos depois, racha dá lugar ao diálogo

Temor de extremismos e desafios comuns fazem luteranos e católicos celebrarem cisma juntos pela 1ª vez e passarem mensagem de reconciliação

Jamil Chade, ENVIADO ESPECIAL

29 Outubro 2017 | 02h00

WITTENBERG - Entre prédios medievais, imagens de Martinho Lutero e o som de órgãos e sinos, um barco de refugiados recuperado no Mar Mediterrâneo chama a atenção em Wittenberg, Alemanha. A embarcação deteriorada faz parte das comemorações de um dos acontecimentos mais determinantes da história do Ocidente: a Reforma Protestante.

Símbolo do desafio de achar uma resposta à onda migratória que reabriu o caminho para xenofobia na Europa, o barco será usado por autoridades e líderes religiosos como marca do diálogo de católicos e protestantes e da tentativa de recompor uma das fraturas mais profundas já vividas no continente. O objetivo não é debater quem tem razão, mas garantir o respeito à liberdade religiosa e a necessidade de tolerância numa sociedade dividida.

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Em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero pregou na porta da igreja de Wittenberg as 95 teses que revolucionaram o cristianismo, a Igreja e a política. O ato de rebeldia se transformou logo em insubordinação e, poucos anos depois, em massacres de civis. Para historiadores, o protestantismo abriu uma via para o início da Era Moderna. Para teólogos, pôs fim à Igreja Medieval.

Na base do questionamento de Lutero estavam as indulgências, vendidas pelo clero para financiar suas igrejas e supostamente reduzir o tempo das pessoas no purgatório. Havia preço até mesmo para o pecado de eventualmente tirar a virgindade de Maria. Lutero defendia que apenas a fé era necessária para a salvação das almas.

Sua iniciativa foi vista como um questionamento às autoridades eclesiásticas em Roma. O alemão ousou dizer que as escrituras são as únicas referências, superiores ao papa. A fratura logo daria espaço às guerras religiosas e colocaria a Europa no cenário de caos e perseguição, que seria resolvido apenas um século depois, quando o Tratado de Westfália de 1648 deu ao continente novas fronteiras e sociedade.

Hoje, Wittenberg volta ao foco das atenções. Na terça-feira, eventos e concertos lembrarão os 500 anos na cidade de menos de 50 mil habitantes. E representantes de religiões de todo o mundo se reunirão num local chamado “jardim de Lutero” para debater pontos de vista e desafios.

“Queremos que a data seja usada para que nossa sociedade possa questionar o mundo em que vivemos”, explicou Kristin Ruske, uma das organizadoras. “Colocamos em evidência o tema da liberdade religiosa e da necessidade de que todos os lados entendam as sensibilidades dos demais e possam praticar sua fé.”

O barco dos refugiados que partiu de Bengazi, na Líbia, com mais de 200 pessoas faz parte desse debate, num momento em que Alemanha e Europa registram um fortalecimento da extrema direita e da presença de estrangeiros. Nos últimos três anos, mais de 1 milhão de refugiados e imigrantes foram recebidos no país de Lutero.

Benjamin Hasselhorn, curador das exposições dos 500 anos, afirma que a comemoração é a primeira de grande porte em que o governo alemão não sequestra a imagem de Lutero para fim nacionalista. “Em 1917, nos 400 anos, a Europa vivia a 1.ª Guerra e o governo usou Lutero como herói”, lembra. O resultado foi a perseguição de luteranos nos Estados Unidos, sob suspeita de colaboração com Berlim.

Em Eisleben, a cidade onde ele nasceu, o fim do regime comunista causou o desaparecimento da indústria local. O desemprego explodiu e jovens se mudaram para o sul do país. Nos apartamentos vazios, hoje moram refugiados e imigrantes que dividem elevadores com alemães irritados com o abandono. O resultado, nas eleições de setembro, foi a vitória do partido de extrema direita AfD.

“A Europa e a Alemanha de hoje se parecem muito com as da época de Lutero. As certezas ideológicas foram rompidas”, disse Hasselhorn. “Uma vez mais, vemos uma Alemanha dividida. Lutero foi quem permitiu que as perguntas fossem feitas. O que queremos é justamente que as perguntas sejam feitas agora.”

Ecumenismo

Teólogos também apontam que, em comemorações passadas, arrogância de um lado ou sentimento de superioridade de outro impediram eventos ecumênicos. Agora, cogitou-se até uma viagem do papa Francisco a Wittenberg, o que não ocorrerá. Mesmo assim, o plano é mostrar que as duas igrejas nunca estiveram tão unidas como hoje e que essa nova relação é uma demonstração a outros grupos de que há espaço para reconciliação, mesmo depois de tanto tempo e de tantas mortes.

No início do mês, o presidente alemão, Franz-Walter Steinmeier, esteve com o papa e defendeu a ideia de que a boa relação entre luteranos e católicos deve ser usada como “modelo”. “Não vamos usar essa data para redesenhar fronteiras. Mas promover a mútua conciliação”, disse Wolfram Kinzig, presidente da Faculdade de Teologia da Universidade de Bonn. “O que une os cristãos é muito mais importante do que o que os afasta. Como consequência, a ênfase foi a de incluir os católicos nesses eventos dos 500 anos.”

Internamente, as suas igrejas também atravessam problemas similares de esvaziamento. Em diversas regiões da Europa, igrejas estão sendo vendidas por falta de uso, enquanto padres ou pastores fazem cultos em diferentes vilarejos por falta de religiosos fixos no local. “Na Finlândia, um país luterano, menos de 1% da população vai à igreja”, conta Veli-Matti Karkkainen, teólogo da Universidade de Helsinque. “O número de crianças recebendo educação religiosa caiu 50% e isso terá uma implicação dramática em 20 anos. Hoje, apenas 20% da população diz acreditar em Deus.”

“Há uma erosão das estruturas eclesiásticas e a perda de fiéis”, confirma Kinzig. “A secularização passou a ser uma marca de grande parte do Ocidente, levando a uma queda dramática da educação cristã.”

O esvaziamento do luteranismo na Europa também vem de questionamentos internos. “Vemos uma proliferação de movimentos pentecostais e uma indiferença ao estudo bíblico”, disse. “Hoje, existem 9 mil denominações de protestantismo”, alertou. Dessas, apenas uma minoria tem relação direta com os movimentos iniciados em Wittenberg.

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Criação de texto sobre Reforma aproximou líderes das duas igrejas

Após emendas, correções e ponderações, foi apresentado em 2013 o documento Do Conflito à Comunhão

José Maria Mayrink e Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2017 | 03h00

São 50 anos de conversa. O diálogo teológico entre a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial começou em 1967, dois anos após o Concílio Vaticano II. E se intensificou em 2009, quando uma comissão de protestantes e católicos foi formada para escrever um texto conjunto sobre a Reforma. Várias sessões foram necessárias até que saísse um rascunho. Dezenas de emendas, correções e ponderações depois, foi apresentado em 2013 o documento Do Conflito à Comunhão. Para um dos membros da comissão, o próprio debate do texto aproximou altas instâncias dos dois lados, expondo e curando feridas.

O texto é visto como um marco por religiosos e historiadores, principalmente porque deixa espaço para que diferenças de 1517 possam ser superadas. Uma delas é a da salvação pela fé. Lutero sustentava que a salvação das almas dependia apenas da fé e as escrituras eram a única referência. A tese naquele momento afrontou a Santa Sé, que o obrigou a fugir após ser excomungado. 

Outro tema que contribuiu para afastar as duas igrejas, o da eucaristia, também dá sinais de cicatrização. O texto diz que “luteranos e católicos podem afirmar juntos a presença real de Jesus Cristo na ceia do Senhor”.

Ainda que alguns pontos do cisma estejam distantes de solução, como nos casos do ministério e dos sacramentos, o texto aponta que luteranos e católicos são convidados a buscar unidade e estudar etapas concretas para esse objetivo.

Em 31 de outubro de 1999, foi assinada em Augsburgo a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação. O papa João Paulo II aprovou a declaração e teve vários contatos com pastores luteranos. Seu sucessor, Bento XVI, visitou comunidades da Igreja Luterana e elogiou a fé de Lutero. Em 2010, foi ao convento agostiniano de Erfurt, onde o reformador morou. Em março de 2010, aceitou convite para rezar num templo da Igreja Evangélica Luterana de Roma.

Em 31 de outubro de 2016, o papa Francisco também participou de oração ecumênica na catedral luterana de Lund, na Suécia. “No contexto da comemoração comum da Reforma de 1517, temos nova oportunidade de acolher um percurso comum, que se foi configurando ao longo dos últimos 50 anos”, disse o papa, apesar das resistências na Santa Sé. 

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Berço do movimento tem menor taxa de fiéis da Europa

Na região de Wittenberg, apenas 6% dizem ter crença; meio século de socialismo ajuda a explicar baixa religiosidade

Jamil Chade, Enviado especial

29 Outubro 2017 | 03h00

WITTENBERG - Terça-feira, meio-dia. A Igreja do Castelo de Wittenberg está cheia. A notícia pode parecer boa. Mas apenas para os negócios. Trata-se de um grupo de turistas americanos que desembarca de um ônibus para conhecer a cidade de Lutero. Os fiéis locais? “Há muito não os vemos”, brinca uma das funcionárias do local.

Meio século de socialismo e mais de 25 anos de uma sociedade profundamente laica levaram ao esvaziamento do berço do movimento. Hoje, enquanto 60% dos alemães dizem seguir alguma crença, na região de Wittenberg a taxa é de apenas 6%. Menos de 2% dos 49 mil habitantes locais participam dos cultos.

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Na cidade onde Lutero nasceu, Eisleben, as três igrejas estão tão vazias que uma delas deixou de fazer cultos. Nas duas outras, o número de fiéis não passa de 30 pessoas a cada domingo.

“Trata-se do local com a menor taxa de fiéis em toda a Europa”, constata Benjamin Hasselhorn, curador das exposições sobre os 500 anos de Lutero. Segundo ele, o regime comunista da Alemanha Oriental manteve relação ambígua com Lutero. De um lado, por questão ideológica, barrou qualquer incentivo aos cultos ou ensinamento bíblico.

Mas fazia questão, sempre que podia, de festejar o fato de que Lutero era de lá. Prova disso foi a festa que realizaram em 1983 para marcar os 500 anos de seu nascimento. Os eventos, porém, se limitaram aos museus.

Para moradores de Wittenberg, uma infância sob o socialismo significou que todas as histórias de Lutero foram deixadas às margens do ensino. No lugar dos fiéis, porém, os locais se transformaram em atrações turísticas, com o governo alemão injetando milhões depois da queda do Muro de Berlim.

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Hoje, pelas ruas da pacata cidade que um dia foi o centro de uma revolução, o turista pode levar para casa tudo o que pode imaginar com a imagem de Lutero. Mel, vinho, chocolate, aspirina, estátuas e até mesmo uma camiseta vermelha em que o monge aparece como em um retrato de Che Guevara. “Viva a Reforma”, diz a legenda, num jogo de palavras com “Viva a Revolução”.

Nada, porém, tem superado o sucesso de um boneco de Playmobil de Lutero. A peça se tornou o brinquedo mais vendido da Alemanha, justamente com a imagem de um monge que havia combatido a transformação da religião em negócio.

Pelas ruelas, grupos de turistas americanos, escandinavos e até brasileiros percorrem os principais marcos do protestantismo, para a satisfação dos comerciantes locais.

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“Em dois anos, dobramos o número de turistas”, contou Kristin Ruske, uma das organizadoras dos eventos em Wittenberg. Na esperança de promover o turismo nacional, o governo alemão ainda declarou apenas para 2017 o dia 31 de outubro – data dos 500 anos – feriado. No dia tão esperado, trens deixarão Berlim a cada dez minutos para levar os fiéis. E os poucos hotéis da cidade lotaram.

Em Eisleben, cidade natal de Lutero, a comemoração também significou investimentos pesados. Mais de 20 milhões de euros foram gastos pelo governo para promover a renovação dos principais locais de visita, além da criação de um centro de pesquisa com a obra de Lutero.

Desemprego. Para as autoridades, o investimento tem um sentido econômico. Ao promover a reunificação, a região de Eisleben viu suas minas serem fechadas no início dos anos 1990. O desemprego bateu a marca de 30%, enquanto os jovens abandonaram a região.

Hoje, a taxa caiu para 12% diante da aposentadoria de muitos daqueles que perderam seus trabalhos nos anos 1990 e o êxodo dos jovens. Ainda assim é o dobro da média alemã, com 6%. Não por acaso a onda de turistas também é comemorada por todos. “Começo a achar que a palavra loteria vem de Lutero”, brincou o dono de um restaurante italiano no centro de Eisleben.

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‘Só cooperação pode manter as igrejas’

Para professor emérito da Universidade de Kiel, aliança ocorre em meio ao risco que o secularismo apresenta à sobrevivência das religiões

Entrevista com

Hartmut Lehmann

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2017 | 03h00

A aliança de protestantes e católicos não ocorre por acaso. Para o historiador Hartmut Lehmann, ela vem diante do risco que o secularismo apresenta à sobrevivência das religiões e influência delas na sociedade.

Por que o interesse de católicos e protestantes em dialogar?

Em primeiro lugar, há cada vez mais casais mistos, de protestantes e católicos na mesma família. Essas pessoas querem ser aceitas nas duas igrejas. Mas há um aspecto maior, que é o da era do secularismo. Vivemos esse período na Alemanha. Só a cooperação de protestantes e católicos pode manter a influência das igrejas na sociedade. Elas só podem existir com cooperação. Isso ocorreu quando líderes dos dois lados resistiram ao nazismo.

500 anos depois do cisma, qual deve ser a mensagem dessa data?

A do ecumenismo. De que é hora de cristãos se olharem nos olhos e darem as mãos. Isso, obviamente, leva ao tema da tolerância. Marcar os 500 anos era uma oportunidade de mostrar que a religião é importante na vida das pessoas e no estabelecimento de comportamentos. Em certa medida, há uma descristianização da Alemanha e da Europa.

Até que ponto o debate dos 500 anos se cruza com o da onda de migrações?

A chegada de milhares de muçulmanos é um fator nessa discussão. Os 500 anos ocorrem num momento em que a Alemanha se transforma numa sociedade multirreligiosa. 

Entre líderes cristãos, qual o sentimento sobre essa chegada de estrangeiros?

Há dois aspectos. Há um medo real de que, em certos bairros, cristãos se tornem minoria e o ponto de referência passe a ser a mesquita. Mas outro fenômeno é o da recuperação de igrejas cristãs. Parte dos imigrantes africanos e sírios é cristã e deu novo impulso a essas comunidades ao chegarem à Europa, onde igrejas estavam vazias. Além disso, igrejas foram instruídas a socorrer imigrantes. Algo como pôr em prática valores que, por décadas, trataram da ajuda aos mais fracos só na liturgia. 

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Artigo: De monge rebelde a símbolo de transformação

Lutero rapidamente se tornou referência para os anseios que ecoavam na Europa da época

Lauri Emilio Wirth*, O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2017 | 03h00

Segundo o historiador francês Lucien Febvre, a Alemanha dos finais do século 15 e começos do 16 é uma terra “inquieta, surdamente palpitante de paixões mal contidas, que esperava apenas um sinal, um homem, para revelar em público seus secretos anseios”. Esta inquietação social generalizada é a expressão local de uma Europa em crise, marcada pelo esgotamento do feudalismo e da tradicional mentalidade artesã, e o prenúncio de um sistema em que as relações humanas passavam a ser mediadas pela economia de mercado.

Mas a Alemanha tinha suas especificidades. Longe de se configurar como um país, tratava-se de um conglomerado de principados, ducados, condados e assemelhados, que ainda preservavam intacta a estrutura do mundo feudal ao mesmo tempo em que competiam por espaço territorial e poder político com cidades imperiais, relativamente independentes, muitas delas com projeção internacional. 

Neste contexto, a religião se oferecia como um horizonte viável de convergências, numa sociedade permeada por conflitos e contradições de toda ordem, mas ainda estruturada em torno do imaginário religioso. Neste ambiente, a igreja ainda se pretendia portadora de uma verdade única, emanada diretamente de Deus.

Assim, mais do que restringir-se a dilemas estritamente religiosos, a trajetória de Lutero expressa o espírito de uma época em profundas transformações, não só nas relações prático produtivas dominantes no mundo de então. Novas visões de mundo e novos regimes de verdade, cujos prenúncios sempre sufocados já ecoavam há séculos, agora encontravam um ambiente propício para ocupar o palco dos acontecimentos de forma irreversível.

Filho de mineiros pobres, mas em trajetória social ascendente, a biografia de Martinho Lutero é marcada por deslocamentos. Nasceu em Eisleben, uma pequena cidade na região da Turíngia, em 1483. Foi criado em Mansdfeld, um povoado de mineiros e mercadores.

Uma primeira tentativa de buscar formação qualificada, aos 14 anos, na cidade de Magdeburg, um centro urbano na Alemanha de então, fracassou por problemas de saúde e pelos maus tratos sofridos na ordem religiosa que o acolhera. Finalmente, acolhido por parentes e amigos da família, primeiro em Eisenach e, posteriormente, em Erfurt, Lutero encontrou o caminho para os estudos universitários. Por influência da família, pretendia estudar direito, a carreira acadêmica mais prestigiada de então, ao lado da medicina e da teologia.

A opção pela vida monástica ao ingressar na ordem dos agostinianos, em Erfurt, em 1505, não decorre apenas da trágica experiência de quase ter morrido numa tempestade. Foi o gesto radical que repercute o ambiente espiritual da época, uma tentativa de fugir de um Deus terrível e vingativo, cujas ameaças ecoavam permanentemente nas pregações dos mestres da vida cristã de então.

Contudo, a vida monástica apenas aprofundou esta percepção de estar irreversivelmente entregue a um juiz implacável e insensível aos esforços para merecer a misericórdia divina. Ao menos é isto que Lutero recorda em suas conversas à mesa, agora como professor de Teologia na recém-criada Universidade de Wittenberg e já casado com a ex-freira Catarina de Bora: “Fui, durante vinte anos, um monge piedoso. Rezei a missa diariamente. De tal maneira me esgotei em orações e jejuns que não teria vivido muito mais tempo, se lá tivesse permanecido”.

Em Wittenberg, Lutero logo de destacaria por seu carisma como pregador e como perspicaz explicador dos textos sagrados. Mas também ali perseguia a pergunta que inquietava toda uma geração de seu tempo. Em que consiste a justiça de Deus? Tratar-se-ia de uma justiça formal de leis e ordenamentos jurídicos, que invariavelmente confrontava os crentes com suas dívidas impagáveis e os ameaçava com uma condenação eterna?

Ao contrário do que ensinava a teologia normativa de então, Lutero se convence de que a justiça de Deus se revela no texto sagrado e só é acessível pelos caminhos da fé. Assim, a justiça de Deus não dependeria de méritos, mas seria absolutamente graciosa. A conexão do crente com esta justiça não decorreria do convencimento racional e lógico. Ela equivale a uma revelação, decorrente da relação altruísta e amorosa com as necessidades e as dores dos outros, que cotidianamente interpelam os crentes.

O ser humano, tocado por esta realidade, aceitaria sua miséria moral e saberia da sua incapacidade de superá-la por suas próprias forças. Descobrir-se-ia injusto quando referenciado em sua própria racionalidade, quando cativo de seus próprios desejos, quando dependente de seus limitados méritos. Ao mesmo tempo, pela fé, alcançaria a confiança na misericórdia de Deus, que não lhe imputaria suas limitações e o libertaria para tornar-se um Deus para os outros, como veículo e sinal da graça divina, um carregador de cruzes alheias, como expressão de liberdade de quem se sabe dependente incondicionalmente da graça de Deus. A salvação perseguida como meta pela teologia normativa de então, agora se revelaria como fundamento idealizado e absoluto de um perfil de vida a ser trilhado cotidianamente, em total liberdade. Livres para servir, seria o novo lema da sociedade imaginada por Lutero.

Um episódio político, em 1517, abriu passagem aos questionamentos do monge rebelde para a esfera pública. Um jovem aristocrata de 23 anos, Albrecht de Brandenburg, havia sido sagrado arcebispo de Magdeburgo e Mogúncia. Para arcar com os custos devidos ao Vaticano por tais concessões, recebera do papa a autorização para vender indulgências, uma espécie de crédito adquirido pelos fiéis para aplacar as dívidas oriundas dos pecados já cometidos e por cometer. 

Trata-se de uma estratégia penitencial praticada há séculos pela igreja, como forma de reintegração de faltosos ao convívio social. Com o passar dos tempos, esta prática de piedade popular se transformaria em verdadeiro mecanismo de controle das consciências, uma genial estratégia de acumulação nas mãos da igreja, na medida em que as relações humanas se transformavam em relações de mercado. 

É o que está ocorrendo na Alemanha, quando Lutero, numa atividade acadêmica, em 31 de outubro de 1517, convocou um debate sobre 95 teses para esclarecer o real valor das indulgências. O debate nunca ocorreu, mas o impacto do conteúdo provocativo e desafiador das 95 teses abalaria a cristandade da época de forma irreversível.

Lutero rapidamente transformou-se em referência para os anseios por reformas que há muito ecoavam na Europa de então. Seus escritos, geralmente polêmicos e questionadores do pensamento hegemônico, rapidamente se transformaram em sucesso editorial inédito na época. Um emissário papal enviado à Alemanha fazia a seguinte constatação: “Nove em dez alemães estão gritando: ‘Viva Lutero’, e o resto, embora não o seguindo, junta-se ao corpo para gritar: ‘Morte a Roma’”.

Em janeiro de 1521, Lutero é declarado herege e excomungado da igreja. Convocado para renegar seus escritos diante do imperador Carlos V, em abril do mesmo ano, pronunciou a sentença que, em poucas palavras, sintetiza a convicção de que ninguém pode reger a consciência alheia e que a verdade religiosa doravante será resultado de debates e nunca imposta por uma autoridade: “A menos que me convençam, por testemunhos das Escrituras ou por uma evidência da razão (pois não acredito apenas no papa e nos concílios: está provado que por vezes demais erraram e se contradisseram), tenho um compromisso com os textos que produzi; minha consciência é cativa das palavras de Deus. Não posso e nem quero revogar o que quer que seja, porque agir contra a própria consciência não é seguro nem honesto. Que Deus me ajude, Amém! ”

Proscrito pelo imperador, Lutero contou com a proteção de autoridades simpáticas a sua causa, que assim impediram que ele tivesse o mesmo fim que milhares de hereges antes dele, o que evidencia a perda de poder tanto do papa como do imperador, num contexto político de afirmação dos Estados nacionais.

Em 1526, uma assembleia dos príncipes alemães determinou que cada príncipe estaria livre para agir em seu território em relação à matéria religiosa, até que um Concílio definisse a questão. Em 1529, outra assembleia de príncipes exigia a recatolização da Alemanha. Os príncipes fiéis à Reforma divulgaram um protesto formal contra esta pretensão. Desde então os adeptos da causa luterana são conhecidos como os protestantes. A estas alturas as fronteiras contra e a favor da Reforma estavam claramente delimitadas. 

Uma guerra entre católicos e protestantes parecia eminente. Em 1530, o imperador volta à Alemanha, em nova assembleia de príncipes, realizada na cidade de Augsburgo. Os protestantes lhe apresentam um documento com os fundamentos de sua fé. A Confissão de Augsburgo até hoje é tida como o principal escrito confessional dos luteranos. A partir de então, a causa da Reforma é mais uma questão política que propriamente teológica.

Mas a estas alturas, o movimento da Reforma já havia exposto suas fissuras e profundas contradições internas. Em 1525, um levante camponês reivindicava transformações radicais no regime de trabalho feudal e nos mecanismos de apropriação da renda do trabalho, um movimento que Friedrich Engels definiria como a primeira revolução em solo alemão. Citado pelos camponeses rebeldes como uma referência para suas reivindicações, Lutero, após fracassar em diversas tentavas de negociação, tomou partido ao lado dos príncipes, o que, para muitos pesquisadores do conflito, marcou o fim da Reforma Protestante como movimento popular.

Lutero morreu no dia 18 de fevereiro de 1546, em Eisleben, sua aldeia natal, onde se encontrava de passagem para mediar um conflito entre a aristocracia local. O que já então sobrava de sua sociedade imaginada fica evidente em seu próprio depoimento marcadamente pessimista: “Até agora, cometi a loucura de esperar dos homens algo que não reações humanas. Pensei que poderiam se conduzir segundo o Evangelho. O resultado nos mostra que, fazendo pouco do Evangelho, querem ser coagidos pela espada e pelas leis”.

* É teólogo e professor da Universidade Metodista de São Paulo

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Com ‘tecnologia revolucionária’, Lutero se transformou em 1.º ícone midiático

Guerra dos panfletos e publicação inédita de livros em línguas locais popularizaram imagem e teses de alemão, também marcado por sua intransigência e polêmicas

Jamil Chade, ENVIADO ESPECIAL

29 Outubro 2017 | 03h00

WITTENBERG – A Reforma Protestante jamais teria ocorrido se, antes, a imprensa de Gutenberg não tivesse sido criada. Historiadores e teólogos consultados pelo Estado revelam que, ainda que a nova tecnologia tenha sido criada sete décadas antes, Martinho Lutero foi um dos primeiros “revolucionários da mídia” e a soube usar como poucos.

Hoje, a exposição que marca seus 500 anos conta com um cartaz que dá a dimensão de seu poder de comunicação. Ao lado de imagens de Lutero em seus momentos mais decisivos, um pássaro azul – símbolo reconhecido de uma rede social – o observa atentamente. 

“Lutero teria usado o Twitter e o Facebook de uma maneira exaustiva se as redes existissem”, analisa o escritor e curador da exposição, Benjamin Hasselhorn. “Ele tinha um desespero enorme por fazer chegar suas convicções aos fiéis”, comentou. 

Só a difusão de suas ideias é que o garantiu vivo e permitiu o cisma. Wittenberg, naquele momento, contava com apenas 2,5 mil habitantes. Lutero sabia disso. Outras tentativas de reformar a Igreja haviam fracassado por causa da falta de um apoio das massas e de uma repercussão que não ia além de uma pequena região. 

Ao comentar o poder da imprensa, Lutero apontou que “seus benefícios não podem ser explicados apenas por palavras”. “Por meio dela, as escrituras estão abertas e espalhadas em todas as línguas e preservada aos descendentes”, disse. 

Até 1500, cerca de 27 mil livros haviam sido publicados na Europa. Com o desembarque da polêmica de Lutero, esse número se multiplicou. Mesmo a proibição de que suas obras circulassem a partir de 1519 não freou sua proliferação. 

Um dos motivos era o novo formato que ganhara espaço: os panfletos. Livros pequenos, baratos e capazes de serem levados no bolso. Verdadeiros instrumentos de propaganda, eles serviram como meio para que Lutero explicasse, em alemão, a doutrina da Igreja e publicasse textos bíblicos. Entre 1517 e 1524, o número de livros publicados aumentou em dez vezes e Wittenberg passou a ser responsável por 15% de todos os novos títulos lançados na Alemanha. 

A estratégia de Lutero era de que suas teses deixassem a esfera dos teólogos e autoridades. Para isso, traduziu sua proposta ao alemão e, rapidamente, a imprensa o transformou em panfletos. Junto com eles vieram milhares de apoios. 

A velocidade das publicações e de sua disseminação ao norte da Alemanha se contrastava com a dificuldade e o tempo de se fazer chegar uma carta de Wittenberg até a Santa Sé, em Roma. Enquanto meses foram necessários para que o Vaticano soubesse o que exatamente tinha ocorrido e ordenar sua excomunhão, em 1519 o movimento contestatário já havia estabelecido sua fundação. 

Mesmo escondido para não ser morto e protegido por um dos príncipes, Lutero manteve seu maior projeto literário: traduzir a Bíblia ao alemão. Doze anos depois e com mais de mil páginas, a primeira Bíblia na língua local chegava ao mercado. Para a história do cristianismo, ela foi um divisor de águas, permitindo que a população pudesse ter acesso direto à palavra de Deus. Sem passar por alguém que a interpretasse. Para isso, Lutero teve de a escrever de uma forma acessível e até inventar palavras. 

O golpe funcionou. Em apenas três meses, 3 mil cópias foram vendidas, o que na época foi um best-seller. Imediatamente, novas edições foram realizadas, que voltaram a se esgotar. 

O impacto ainda foi sentido na formação de uma nação. Pela primeira vez, um livro para as “massas” teve a capacidade de unir as diferentes regiões que, até então, falavam diferentes dialetos. Assim, a bíblia de Lutero consolidou o alemão como língua nacional. 

Ícone

Apenas publicar não era suficiente. Lutero precisava de um interlocutor de poder para que o debate ganhasse uma dimensão maior. Sua estratégia foi a de enviar suas teses não aos padres locais. A carta em que ele questiona a Igreja em 1517 é endereçada a Albrecht de Brandeburgo, o máximo representante. 

Também em uma estratégia de comunicação, ele mudou seu nome. Na carta de 31 de outubro, Martinho Luder – seu nome original – se transforma em Martinus Lutherus. O sobrenome seria uma palavra criada a partir do grego Eleutherios, “aquele que foi liberado por Deus”. 

Com o tema saindo da esfera religiosa e se transformando numa questão de insubordinação diante das autoridades, aliados de Lutero ainda colocaram em circulação panfletos com imagens explicando e denunciando os papas da época. 

Não demorou para que aquele movimento alimentasse uma revolta dos campesinos locais em 1525, que publicaram reivindicações ao mesmo estilo de Lutero pedindo o fim do trabalho forçado. O movimento levou à destruição de dezenas de monastérios e o assassinato de monges e freiras. Para a surpresa dos pequenos agricultores, o reformador os abandonou e fechou seu apoio aos príncipes. Lutero chegou a escrever contra os rebeldes e pediu sua morte, o que acabou ocorrendo. 

Odiado por muitos e venerado por outros tantos, Lutero ainda causou polêmica ao se expressar de forma dura contra os judeus e os atacar. 500 anos depois, um dos poucos partidos de extrema-direita da Alemanha, NPD, usou nas eleições de 2017 a imagem de Lutero insinuando que ele seria a base de parte do pensamento neonazista, algo que historiadores negam. 

Mas a imprensa em 1517 também foi usada para o atacar. Satirizado, livros passaram a espalhar o rumor de que Lutero havia sido dominado por Lúcifer ou criticar seu estilo de vida e intolerância aos que o questionavam. 

Houve ainda a censura, inclusive de príncipes que eram seus aliados. Uma das primeiras reproduções do rosto do jovem monge Martinho acabou sendo proibida pelo príncipe Frederico e encontrada apenas depois de sua morte. Nela, o reformador aparecia com um rosto determinado e uma calma de quem sabia o que estava fazendo. O motivo da censura: seu carisma o transformara em militância, algo perigoso para os monarcas. 

Mas o resultado foi uma popularidade cada vez maior do monge insubordinado. Sua imagem passou a fazer parte das publicações e, para historiadores na Europa, Lutero foi o primeiro “ícone midiático da modernidade”. Em mais de 80 retratos, ele foi apresentado como cavaleiro em armas ou como um iluminado. 

Queimando livros católicos em praça pública ou adotando posições polêmicas para a época, a vida de Lutero passou a ser acompanha de perto. 

Para historiadores, ele se considerava como um profeta e, ao longo de sua reforma, a mudança que ela promoveria na sociedade não se limitaria ao destino das almas. Com o fim da relação com o Vaticano, as igrejas passaram a ter de se organizar localmente, com seminários aos religiosos, com o abandono de centenas de pessoas de instituições católicas, com a transformação até das finanças. 

No programa escolar, Lutero passou a defender o ensino do pensamento de Aristóteles e o fim de dezenas de feriados relacionados a santos. 

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'A religião não pode ser algo que divida as pessoas'

Iris Hellmisch, que ocupa o prestigioso púlpito usado por Martinho Lutero, relata desafios da igreja

Entrevista com

Iris Hellmisch

Jamil Chade, Enviado especial

29 Outubro 2017 | 03h00

EISLEBEN - Iris Hellmisch é filha de pastores e casada com um pastor. Hoje, ela é uma das religiosas que ocupa o prestigioso púlpito usado por Martinho Lutero em sua cidade de origem, Eisleben.  

Em entrevista ao Estado, a pastora insiste na necessidade de falar de tolerância e defende a religião como um instrumento de abertura, e não de radicalismo. Mas Iris admite que um dos maiores desafios é o de voltar a atrair a população à igreja e conta como teve até mesmo de explicar o que é um sermão.  

Sua igreja, que num momento foi o centro de uma religião, hoje está vazia de fiéis. Eis os principais trechos da entrevista:  

A sra. sente uma responsabilidade extra pregando do mesmo local do qual Lutero fazia? 

Com certeza. Não apenas uso as palavras dele, mas o local de onde ele falava.  

De que forma Lutero a influencia diante dos fiéis? 

Ele nos relembra que temos de falar às pessoas. Ele ia ao ponto, sempre. Sua forma de pregar era com base na Bíblia, não sobre ele. Lutero falava com imagens para explicar a mensagem. Jesus também fazia isso.  

Há 500 anos, essa igreja certamente estava lotada. E hoje? 

Eu ensino aos guias de turismo o que essa igreja é. Mas o curioso é que eu preciso também ensinar o que é um sermão. Muitas pessoas hoje não sabem nem o que é um sermão e nunca entraram numa igreja.  

E o que é um sermão hoje? 

É fazer as pessoas pensarem por si mesmas sobre a palavra de Jesus. Não é dizer o que eles têm de fazer. Não sou eu quem devo dizer a eles. Eles precisam pensar por si próprios.  

E como a sra. explica uma situação em que a população da cidade sequer sabe o que é um sermão, na cidade de Lutero? 

Essa é já a terceira geração. Seus avós deixaram a igreja. Alguns dos jovens vem até mim e me dizem que querem batizar suas crianças. São coisas que eles não receberam de seus pais. Ninguém os ofereceu isso. 

O que causou esse êxodo? 

Durante o governo da Alemanha Oriental, as pessoas foram pressionadas a deixar a igreja. Muitas pessoas não tiveram confirmação, nem batizados e nem aulas de catecismo. Essas atividades aos jovens foram substituídas por atividades da juventude socialista. Era muito difícil se casar numa igreja. Portanto, se você não estava casado na igreja, não havia como batizar.  

Hoje, num culto que a sra. realiza, quantas pessoas estão presentes? 

Entre 30 e 40. Muita gente aqui nunca esteve numa igreja. Quando algumas das obras de renovação terminaram, algumas famílias entraram para ver o que existia lá dentro. Mas elas estavam vazias. Outro impacto que vimos foi o fato de que, com as comemorações dos 500 anos de Lutero, essa população começou a ver ônibus de estrangeiros desembarcar para visitar o que eles nem sequer conheciam. A reação foi: eu tenho de ver o que todos vêm até aqui para visitar.  

O que significa o desaparecimento da religião aqui nessa região?  

Meu sentimento é de que a população adoraria voltar a ter esse lado espiritual. Mas não sabem exatamente como fazer e nem como se expressar nesse sentido. Acho ainda que é possível atrair a juventude. Não toda ela. Mas principalmente aqueles que se deram conta de que ir às compras no domingo não é a prioridade. Trazemos também crianças pequenas e vemos com ficam impressionadas com as histórias que escutam. Mas o assunto desaparece uma vez que crescem. A religião não é nem mais um tema de debate. Está, em algumas instâncias, totalmente fora das considerações.  

Mas o que vocês fazem para tentar trazer essas pessoas de volta? 

Realizamos muitas atividades culturais e concertos. Nossa estratégia é a de ser aberto. As igrejas estão abertas e ninguém questiona quem entra. Recebemos crianças não batizadas também. Nós, os pastores, ainda nos colocamos à disposição para conversar e sermos acessíveis.   

Estamos em meio a uma crise de intolerância em diversas partes do mundo. Até que ponto sua pregação tenta atender a essa questão? 

Essa é uma questão fundamental. Tivemos eleições gerais há pouco tempo e os resultados não foram positivos em Eisleben. O AfD (partido de extrema direita) teve 30% dos votos aqui. Portanto, é um problema real. Não acredito que os eleitores sejam membros da igreja. Mas viver como cristão é viver em paz com seu vizinho. Um dos temas da Reforma foi justamente a graça. Oferecer a todos sua mão é algo que precisa ser realizado. Compartilhar é um presente para um cristão. Muita gente deixou Eisleben, com a falta de trabalho. Muitos apartamentos estão vazios. Portanto, os estrangeiros passaram a viver entre os habitantes locais. Mas temos um enorme problema de desemprego.   

Como a sra. vê o papel da religião numa sociedade multicultural? 

Se você sente que Deus te ama, não precisa buscar formas de impressionar ninguém, nem se colocar no centro da sociedade. A religião não pode ser algo que divida as pessoas. Mas um instrumento para ser uma abertura. 

Qual deve ser a mensagem da comemoração dos 500 anos da Reforma? 

Para cristãos ou não-cristãos, a Reforma mudou o mundo. No centro, está o ser humano. As perguntas que Lutero apresentou são questões que temos de recolocar diariamente. Como igreja, temos a mensagem da graça. Não é o que você tem e o que você é. Mas o que você pode dar. Essa é uma mensagem muito poderosa hoje, num mundo em que todos querem apenas ter.   

E qual a relação da sra. com a igreja católica?  

Fazemos muitas coisas juntos. Não é uma questão de luteranos ou católicos. Temos problemas comuns aos cristãos. Fazemos, uma vez por mês, cultos conjuntos. Em certos momentos, também deixamos que os católicos façam suas missas para Maria em nossas igrejas, que foram erguidas antes da Reforma e contam com imagens de Maria. 

Como a sra vê o impacto que pode ter para meninas a presença de uma mulher na liderança de um culto?  

Há uma anedota que resume isso: na Inglaterra, onde as mulheres podem pregar desde 1994, uma garota que cresceu dentro da igreja um dia foi levada a uma catedral católica. Ao entrar e ver apenas homens no altar, ela disse para sua vó: não sabia que homens também podem pregar?

Existe ainda resistências em relação à presença de uma mulher no púlpito? 

Minha mãe já era pastora e teve de lutar. Na minha geração, temos mulheres no bispado. Já é algo consolidado dentro da nossa igreja. Mas temos de lutar para que continue sendo normal e em várias áreas da vida produtiva. Com o desemprego, há uma pressão para que seja o homem o que tenha o emprego e que a mulher fique em casa.  

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O Estado de S.Paulo

29 Outubro 2017 | 03h00

1 Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.

2 Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).

3 No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula, se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.

4 Por consequência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.

5 O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.

6 O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando que ela foi perdoada por Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos casos reservados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecerá por inteiro.

7 Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.

8 Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.

9 Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.

10 Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.

11 Essa erva daninha de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.

12 Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.

13 Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.

14 Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais, quanto menor for o amor.

15 Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.

16 Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.

17 Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor.

18 Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.

19 Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza.

20 Portanto, sob remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.

21 Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.

22 Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.

23 Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.

24 Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.

25 O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.

26 O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.

27 Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].

28 Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.

29 E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas? Dizem que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascoal.

30 Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.

31 Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.

32 Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.

33 Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Deus.

34 Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos. 

35 Não pregam cristamente os que ensinam não ser necessária a contrição àqueles que querem resgatar ou adquirir breves confessionais.

36 Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência.

37 Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem participação em todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem carta de indulgência.

38 Mesmo assim, a remissão e participação do papa de forma alguma devem ser desprezadas, porque (como disse) constituem declaração do perdão divino.

39 Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar perante o povo ao mesmo tempo, a liberdade das indulgências e a verdadeira contrição.

40 A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, pelo menos dando ocasião para tanto.

41 Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.

42 Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.

43 Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências. 

44 Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.

45 Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.

46 Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.

47 Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.

48 Deve-se ensinar aos cristãos que, ao conceder indulgências, o papa, assim como mais necessita, da mesma forma mais deseja uma oração devota a seu favor do que o dinheiro que se está pronto a pagar.

49 Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.

50 Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51 Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto - como é seu dever - a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extraem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.

52 Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.

53 São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.

54 Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.

55 A atitude do papa é necessariamente esta: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.

56 Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.

57 É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.

58 Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.

59 S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época. 

60 É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que lhe foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem este tesouro. 

61 Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos, o poder do papa por si só é suficiente.

62 O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.

63 Este tesouro, entretanto, é o mais odiado, e com razão, porque faz com que os primeiros sejam os últimos.

64 Em contrapartida, o tesouro das indulgências é o mais benquisto, e com razão, pois faz dos últimos os primeiros.

65 Por esta razão, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.

66 Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.

67 As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tal, na medida em que dão boa renda.

68 Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade na cruz.

69 Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.

70 Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbido pelo papa.

71 Seja excomungado e maldito quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.

72 Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.

73 Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,

74 muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram defraudar a santa caridade e verdade.

75 A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes ao ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.

76 Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados veniais no que se refere à sua culpa.

77 A afirmação de que nem mesmo S. Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o papa.

78 Afirmamos, ao contrário, que também este, assim como qualquer papa, tem graças maiores, quais sejam, o Evangelho, os poderes, os dons de curar, etc., como está escrito em 1 Co 12.

79 É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insignemente erguida, equivale à cruz de Cristo.

80 Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes conversas sejam difundidas entre o povo.

81 Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil, nem para os homens doutos, defender a dignidade do papa contra calúnias ou perguntas, sem dúvida argutas, dos leigos.

82 Por exemplo: por que o papa não evacua o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas - o que seria a mais justa de todas as causas -, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica - que é uma causa tão insignificante?

83 Do mesmo modo: por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?

84 Do mesmo modo: que nova piedade de Deus e do papa é essa: por causa do dinheiro, permitem ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, porém não a redimem por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta, por amor gratuito?

85 Do mesmo modo: por que os cânones penitenciais - de fato e por desuso já há muito revogados e mortos - ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?

86 Do mesmo modo: por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?

87 Do mesmo modo: o que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à remissão e participação plenária?

88 Do mesmo modo: que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações 100 vezes ao dia a qualquer dos fiéis?

89 Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?

90 Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.

91 Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.

92 Fora, pois, com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo: "Paz, paz!" sem que haja paz!

93 Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo: "Cruz! Cruz!" sem que haja cruz!

94 Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno;

95 e, assim, a que confiem que entrarão no céu antes através de muitas tribulações do que pela segurança da paz.

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