Régis tem 19 quilômetros novos e inúteis

O trecho paulista da rodovia federal Régis Bittencourt (BR-116), 300 quilômetros que ligam São Paulo ao Paraná, tem 19 quilômetros de pista dupla prontos, desde setembro, mas inúteis para o tráfego. Outros 18 quilômetros, terraplenados para duplicação desde 1999, deterioram-se a olhos vistos, sob efeito da erosão. De janeiro a maio, a Polícia Rodoviária Federal registrou na extensão paulista da Régis 1.414 acidentes - 349 deles com vítimas (559 feridos e 59 mortos). Nos 68 quilômetros de pista única ocorreram 312 acidentes, 83 dos quais com vítimas (115 feridos e 18 mortos). Se estivessem em uso, como há muito deveriam estar, os 37 quilômetros aumentariam a extensão da pista dupla trafegável de 232 para 269 quilômetros. Ficaria faltando, apenas, a duplicação do trecho do km 337 ao 367, que serpenteia a Serra do Cafezal. Em meio a uma complexa discussão jurídico-ambiental, o Ministério Público Federal vetou a concessão da licença prévia para as obras. A responsabilidade pela administração da Régis e, portanto, pelos 37 quilômetros inúteis, é do Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (DNIT), substituto do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), que está em processo de extinção. "É um absurdo, mas tivemos problemas", disse ao Estado o diretor do DNIT em São Paulo, Deuzedir Martins. No caso dos 19 quilômetros prontinhos - um escárnio para motoristas que podem vê-los da sempre arriscada pista única entre os km 537 e 556, na Serra do Azeite, em Barra do Turvo - o problema, segundo Martins, foi a dificuldade de caixa enfrentada pelo consórcio das empresas Faulhaber Engenharia e Eccon, com matriz no Rio, contratado para executar um viaduto e três pontes. Procurada, a Faulhaber não quis se pronunciar. Seu mote de propaganda na internet é: 50 anos Promovendo Soluções. As obras que permitiriam o uso dos 19 quilômetros também deveriam ter ficado prontas em setembro. Lá se vão dez meses - e elas ainda se arrastam, como mostra a construção morosa, e às vezes sem um único operário à vista, da ponte sobre o Rio Pimenta, no km 541. É um ótimo ponto de observação para uma perigosa curva fechada da pista única, trecho em que a Régis continua a merecer o nome macabro de Rodovia da Morte. Entre os km 407 e 568 - de Juquiá à divisa, em Barra do Turvo -, a Polícia Rodoviária Federal registrou 620 acidentes de janeiro a maio, com 197 feridos e 22 mortos. Os outros 18 quilômetros que há muito já deveriam ser pista dupla - do km 319 ao 337, em Juquitiba - tiveram a terraplenagem concluída em 1999. Martins explica que na época a Secretaria Estadual do Meio Ambiente vetou, por ambientalmente inadequada, a utilização de uma pedreira que forneceria matéria-prima para pavimentar a pista. Uma nova licitação teve de ser feita - e só agora, três anos depois, está em vias de dar algum resultado. O custo da pavimentação será muito maior que o calculado inicialmente. Boa parte da terraplenagem terá de ser refeita, tal o nível de abandono e os prejuízos causados pela erosão. Abandono"As empresas serão responsabilizadas pelo atraso", diz o chefe do DNIT na base de operações da Régis, em Registro, Ademir Marques. Ele também fica desalentado com a situação. A "Rodovia do Mercosul" está, desde maio, em completo abandono. "Não temos dinheiro nem para roçar o mato." Em vários trechos, o capim já cobre placas de sinalização. Em outros, a pista foi comida pela erosão, há depressões acentuadas, ausência de acostamento e, como sempre, nenhum serviço de atendimento ao usuário. Fecha o quadro a continuada impunidade dos motoristas, principalmente caminhoneiros, que fazem o que querem - de ultrapassagens proibidas a andar à noite com faróis traseiros apagados. Cenas freqüentes nos 68 quilômetros de pista única da rodovia em São Paulo.

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