Reintegração: moradores de favela permanecem acampados

Cerca de 400 pessoas se recusam a sair da rua; um dia após ação, ainda havia fogo no local

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

26 Agosto 2009 | 00h00

Um dia depois da operação de reintegração de posse de um terreno de 33 mil m² no Capão Redondo, zona sul, onde ficavam os 800 barracos da Favela Olga Benário, o cenário era desolador. Montanhas e montanhas de restos de móveis e objetos pessoais ainda crepitavam, lentamente. Muita fumaça. Cheiro forte de queimado. A tristeza se materializava do outro lado da Rua Ana Aslan, onde centenas de ex-moradores da favela - 400, segundo a Organização Não-Governamental (ONG) Frente de Luta por Moradia -, sem lugar para ir, acamparam após serem desalojados de seus barracos. "Ainda não acredito no que vejo", diz, com olhos marejados, o pintor José Carlos da Silva, de 47 anos."Perdi armário, cama, colchão, guarda-roupa, geladeira. Tudo queimado", lamenta a desempregada Cleuza Silva, de 52 anos. "Jogaram os tratores em cima sem nem dar tempo de eu salvar minhas coisas", reclama a desempregada Vera Ferreira, de 49. Com um discurso afinado pela Frente de Luta por Moradia, todas as pessoas que restavam no local defendiam o direito de, despejadas da favela, ocupar a via pública. E, de comum acordo, não aceitavam a hipótese de serem removidas para albergue. "Quero moradia digna", afirma Cleuza. "Em um albergue vão esquecer a gente." Ontem aconteceram duas assembleias, lideradas pela representante da ONG Felicia Mendes Dias. "Não dá para ficar só na promessa do poder público. Precisamos de moradia definitiva." Por volta das 15 horas, o local recebeu a visita do assessor da presidência da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU), Antonio Lajarin. "Iremos iniciar imediatamente estudos de desapropriação para a construção de habitações definitivas", promete. No final da tarde, um grupo de oito ex-moradores foi à Subprefeitura de Campo Limpo. Pediram para ser provisoriamente alojados em um espaço público - a escola ou ginásio de esportes - até conseguirem moradia definitiva da CDHU. As negociações não avançaram. Os ex-moradores devem continuar na Rua Ana Aslan. A decisão de reintegração de posse do terreno, de propriedade da Viação Campo Limpo, foi emitida após recurso impetrado pela empresa no Tribunal de Justiça. Da operação, ocorrida na segunda-feira, participaram 250 agentes, entre integrantes da Tropa de Choque e do 37º Batalhão da Polícia Militar, além de bombeiros. Um grupo de moradores montou barricadas. Pneus e automóveis foram incendiados para dificultar a entrada. O confronto ainda teve pedras, rojões e coquetéis molotov. Ontem, cerca de cem PMs ainda eram mantidos no local. "A ordem já foi cumprida. Não vamos obrigar as famílias a sair da calçada. Apenas estamos mantendo a segurança", explica o major Delfranio de Carvalho. Os policiais distribuíram lanches e marmitas aos desabrigados "para amenizar um pouco o sofrimento". Não foi a única ajuda que receberam. A Igreja Católica, por meio de uma paróquia próxima, distribuiu mil lanches. Uma padaria doou 500 marmitas. A partir de hoje, a Secretaria Municipal de Assistência Social entregará aos ex-moradores 800 cestas básicas - a eles foram oferecidos colchões, passagens de volta para cidades de origem e vagas em albergues, mas ninguém aceitou. "Não consigo imaginar para onde eu vou", afirma o pedreiro Gregório de Andrade, de 39 anos, ao lado da mulher, Marta de Jesus, de 36, e rodeado pelos sete filhos. Mãe de três crianças - a mais nova, com 10 meses -, Alessandra da Silva, de 21 anos, também está inquieta. "O neném chorou a noite toda e está com os olhos irritados por causa da fumaça." Ana Claudia Pereira, de 32 anos, mãe de quatro filhos, é outra que não para de se preocupar. "Meu pequenininho (o filho caçula, de 8 meses) não entende o que está acontecendo", conta. "Ele parece nervoso."

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