Reinventar a política no feminino

A nova presidente reflete duas visões do feminino na política: a reprodução da figura da mãe cuidadora e a caricatura do masculino, as mulheres como imagem especular dos homens

Joel Birman*, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2010 | 00h00

Há cerca de dois anos circularam rumores, em alguns setores da sociedade brasileira, de que seria talvez melhor ter uma mulher na direção política do País, em decorrência de uma insatisfação crescente com os políticos homens. Afinal das contas, dizia-se então à boca pequena, as mulheres não estavam já acostumadas a cuidar dos outros e não de alimentar rivalidades, como ocorria com os homens? Desta maneira, a gestão do espaço público deveria ser feminilizado, definitivamente.

Não foi assim um acaso que duas mulheres pleitearam a candidatura à Presidência da República e Dilma Rousseff foi a vencedora, sem esquecer dos demais cargos eletivos que foram conquistados nas diversas instâncias da sociedade política.

A questão então é não apenas o que se entende por cuidar, como também se a futura presidente do País reflete a forma hoje dominante, no imaginário social brasileiro, da figura da mulher. Além disso, é preciso indagar qual é a diferença existente entre a figura da mulher que pode ocupar no presente o poder político e a que desejariam alguns setores da população brasileira?

Assim, foi significativo que as questões ligadas à mulher fossem colocadas na cena da campanha. Antes de mais nada, Dilma Rousseff foi cobrada pelas suas posições sobre o aborto, face às críticas e as ameaças de perda de voto advindas das comunidades católica e evangélica. Marina Silva e Serra disseram que aquela deu uma resposta de conveniência para manter o seu eleitorado no campo religioso.

Contudo, o que isso indica é que todos temeram desafiar o interdito face ao aborto, defendido neste campo. Em seguida, Lula sustentou durante a campanha a imagem de Dilma como a de ser uma mãe para o povo; esta formulação coloca em evidência o que está em questão no debate sobre o aborto.

Com efeito, a figura da mulher que se delineia é a da mulher-mãe, que cuida de todos os seus filhos acima de tudo e custe o que custar, de maneira a não abortar do seu ventre as suas crias. O tradicionalismo religioso se opõe ainda hoje, no Brasil, a um outro projeto do que poderia ser efetivamente o feminino no poder. O que se afirma assim é a visão patriarcal da mulher, na qual essa - como mãe - viveria à sombra da figura do homem, numa posição hierarquicamente inferior. É o machismo brasileiro o que estaria aqui em pauta, com toda a sua eloquência.

Ainda no campo desta concepção patriarcal se constituiu uma figura aparentemente oposta, mas que se inscreve ainda na lógica do patriarcado. Assim, forjou-se uma imagem especular da figura da mulher-mãe, mas agora de ordem virtual, na qual a mulher se transformou numa caricatura do homem, evidenciando então certas características da masculinidade, quais sejam, força, autonomia e suficiência. De forma que a mulher se identificaria assim com a personagem do executivo e da performance. Como se para ocupar os lugares sociais, no espaço público e principalmente no campo político, que sempre foram reservados aos homens, as mulheres devessem ser forjadas como homens, para terem então credibilidade. No entanto, a lógica do patriarcado se mantém aqui incólume, sem tirar nem pôr, pois as mulheres perderiam com isso a sua diferença e se transformariam em caricaturas do masculino.

Repete-se aqui no Brasil o que já se passou em outros países, onde as mulheres também pleitearam a sua inscrição na cena política, principalmente para ocuparem os cargos mais elevados. Esta dupla figuração do feminino pode ser então colocada em destaque, delineando-se a inserção das mulheres na sociedade política.

Assim, Eva e Isabelita não passaram da condição de serem uma simples sombra do caudilho Perón, que até hoje domina o imaginário político na Argentina. Da mesma forma, Cristina Kirchner se configura como uma triste sombra de seu marido Néstor, que a colocou provisoriamente no poder para retornar nas próximas eleições, numa governabilidade que se decide nos bastidores da vida conjugal. Indira Gandhi era uma sombra de sua ascendência familiar e de seu clã, não obstante a sua importância na política da Índia.

Em contrapartida, a britânica Margaret Thatcher foi a representação máxima da caricatura do masculino. Por isso mesmo, foi denominada de a "dama de ferro", pela sua dureza e inflexibilidade. Angela Merkel, na Alemanha, é uma imagem esmaecida desta mesma tendência da figuração do feminino, se inscrevendo na tradição da primeira-ministra britânica.

Nesta perspectiva, nos mantemos ainda nas linhas de força e na lógica do patriarcado no campo da política, onde a mulher se inscreve no reduto tradicional do masculino, seja pela reprodução da figura da mãe sacrificada e cuidadora, seja pela caricatura do masculino, na construção pelas mulheres de uma imagem especular dos homens. A nova presidente do Brasil é uma articulação desta dupla marca do feminino na política, que representa a posição das relações de gênero no imaginário brasileiro na atualidade.

Porém, já existe hoje no mundo, tanto no Brasil quanto no cenário internacional, uma outra produção do feminino, pelo qual as mulheres reinventam a sua diferença com os homens, mas fora da lógica da tradição do patriarcado. Uma outra noção de cuidado aqui já se delineia, com nitidez, pela qual o verbo cuidar não se conjuga mais nem com o verbo sacrificar nem tampouco com o maternar. Vale dizer, é possível reinventar a política, fora da lógica do patriarcado e pela feminilização da experiência social. Enfim, não chegamos ainda lá, infelizmente.

Para isso, no entanto, é preciso que o feminino possa declinar a delicadeza e a graça com o rigor e o vigor da prática política. O futuro nos oferecerá isso, certamente, para celebrarmos uma outra experiência da política. Para chegarmos a esta reinvenção de nós mesmos será preciso, como nos disse Guevara, saber endurecer mas sem perder a ternura.

PSICANALISTA, PROFESSOR TITULAR DO INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA UFRJ E PROFESSOR ADJUNTO DO INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL DA UERJ

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