Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Reitor da UFRJ e diretor do Museu Nacional responsabilizam governo federal pela falta de recursos 

A partir de 2015 foi desenvolvido um projeto de recuperação estrutural do museu, mas a liberação do dinheiro só saiu este ano

Roberta Pennafort e Ligia Fometti, O Estado de S. Paulo

03 Setembro 2018 | 11h08
Atualizado 04 Setembro 2018 | 12h37

O reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Roberto Leher, e o diretor do Museu Nacional, Alex Kellner, ao acompanhar o trabalho de rescaldo dos bombeiros no prédio nesta segunda-feira, 3, responsabilizaram o governo federal pela falta de recursos para a instituição. Eles disseram que a partir de 2015 foi desenvolvido um projeto de recuperação estrutural do edifício histórico, mas a liberação do dinheiro - cerca de R$ 21 milhões, do BNDES -  só saiu este ano. O museu foi destruído por um incêndio domingo, 2.

"Todos sabíamos que o prédio estava em condições vulneráveis. Eram necessárias intervenções sistêmicas", disse Leher. "O Brasil precisa avaliar para onde estamos caminhando. Não existe nenhuma linha de financiamento dos ministérios da Educação e Cultura para prédios históricos tombados pelo patrimônio histórico. Sofremos queda brutal de orçamento, de R$ 140 milhões no custeio nos últimos quatro anos. É necessário que o governo federal olhe para o Brasil. Precisaremos de recursos importantes para recuperar o museu. No orçamento de 2019 a sociedade brasileira vai aferir se vamos ter ações objetivas ou se vamos sofrer até a próxima tragédia. Queremos compartilhar nossas lágrimas e nossa indignação."

O reitor disse que em 2015 foi colocada a necessidade de um novo sistema de prevenção de incêndios. Ao comentar se o acidente foi uma tragédia anunciada, afirmou: "Era um cenário muito provável. Prédios tombados precisam de recursos significativos, que nossos museus não têm. Sem dinheiro, todo o patrimônio público museal corre riscos".

Do projeto de 2015 constava a necessidade de recomposição do telhado e de "patologias estruturais". O sistema elétrico, no entanto, não estava em más condições, disseram o reitor e o diretor. Alex Kellner afirmou que seria leviano apontar o que se perdeu e o que se salvou, uma vez que sua entrada no prédio não foi liberada. 

À entrada do museu, é possível ver apenas o meteorito de Bendegó. Outros meteoritos já foram retirados. O diretor também não quis estimar qual a percentagem do museu que foi queimada. Um levantamento ainda será feito. Ele preferiu não conjecturar sobre a causa do incêndio. Kellner afirmou que não há registro de ocorrência de balões na história do museu. 

 

"A responsabilidade é do governo federal, não adianta dizer que não. Tem que se falar diretamente. Se tivéssemos conseguido o terreno que pedimos aqui do lado, para o acervo, algo a mais teria sido salvo. Bastava bom senso. Só chorar não adianta. Nem manchete de jornais. O museu precisa de ajuda, já foi falado em diversas ocasiões. Isso é resultado de como tratamos nossa história", definiu.

Kellner, há mais de 20 anos no museu, falou com emoção e indignação à imprensa. "Perdemos parte do acervo, que não façam com que o Brasil perca sua história. O Bendegó resistiu, e, da mesma forma, vamos resistir. O País está de luto. Seria uma irresponsabilidade querer que a UFRJ abarcasse tudo. Eu não estou mais pedindo o terreno da União. Mudou, estou exigindo. É barato, com R $ 200 mil se consegue. Já há uma década não existe investimento na manutenção. A ironia do destino é que o dinheiro (do BNDES) chegou. Só não deu tempo".

O incêndio de grandes proporções destruiu o acervo do Museu Nacional, na zona norte do Rio, na noite deste domingo, 2. O fogo começou por volta das 19h30 de domingo e durou até por volta de 2 da manhã desta segunda-feira, 3. Após o exaustivo combate às chamas, prejudicado pela falta de água nos hidrantes da instituição, iniciou-se ainda de madrugada o trabalho de rescaldo.

Ministro da Educação admite responsabilidade

O ministro da Educação, Rossieli Soares, admitiu que o governo tem responsabilidade sobre o incêndio de grandes proporções que atingiu o Museu Nacional, no Rio. "A responsabilidade existe, é histórica e entendemos que agora é o momento da reconstrução, com todo mundo", disse. Questionado se seria correto atribuir parte da responsabilidade às gestões anteriores, ele emendou: "A responsabilidade é do governo federal, é da universidade federal, mas não é exclusiva de agora." Ele argumentou que o empréstimo liberado pelo BNDES para a reforma do prédio, de 200 anos, havia anos era requisitado e somente há poucos meses foi concretizado. "A reforma era necessária desde a época em que se tinha mais recursos, mas ela não foi feita. Avançamos com o empréstimo. Temos que olhar para frente."

Rossieli garantiu que a reconstrução do prédio será uma das prioridades do governo, mas disse não haver ainda estimativa de qual o valor que será necessário. "A obra é complexa, não é de execução rápida. Não se pode fazer de qualquer jeito .Se fala em R$ 100 milhões, mas não temos informações técnicas. É fundamental que a gente recupere o máximo possível, aquilo que for possível. A perda é para o Brasil. É insubstituível."

O MEC iniciou na manhã de hoje negociações com o relator setorial do orçamento Luciano Ducci (PSB/PR) para providenciar recursos necessários à reconstrução do Museu Nacional, destruído num incêndio de grandes proporções na noite deste domingo. "Vamos apoiar a universidade na recuperação do museu", disse o ministro da Educação, Rossieli Soares. Ele no entanto diz não ser possível falar em números neste momento, mas já sinalizou com a esperança de  contar com "parceiros para ajudar nesse momento". Rossieli argumentou ser necessária a realização de um projeto executivo, que deverá definir o que precisa ser feito e, então, o quanto será necessário.

 

 

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