Relatório da Dersa é superficial, diz especialista

O coordenador da Divisão Técnica de Meio Ambiente do Instituto de Engenharia, Julio César Cerqueira César Neto, considera o relatório de impacto ambiental do Rodoanel apresentado pela Dersa superficial. "Para não impactar o meio, o projeto deveria ser muito mais complexo. Ele é encarado pelo ponto de vista do benefício do tráfego, mas é preciso avaliar os recursos hídricos, a questão habitacional e ambiental mais profundamente", afirma.Para o conselheiro do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) Carlos Bocuhy, além do impacto da obra do Rodoanel em si, com riscos de assoreamento, o empreendimento deve ser indutor de ocupação de áreas de proteção de mananciais, tanto ao norte, onde fica o Sistema Cantareira, quanto ao sul, região das Represas Billings e Guarapiranga."Na Cantareira já surgiram nos últimos dez anos 200 loteamentos ilegais e na área das represas se instalaram 150 mil habitantes. Nessa realidade, é impossível aceitar uma obra que vá atrair ainda mais ocupação."Bocuhy diz ainda que a obra extrapola o traçado do Rodoanel. "A via é de trânsito segregado, mas há construção de marginais e acessos. Com isso o impacto será maior ainda."Na Cantareira, cujos acessos são restritos a duas estradinhas sinuosas, os moradores estão prevendo a necessidade de abertura de vias já durante a obra, para comportar a circulação de caminhões. "Vão rasgar a serra. O impacto será enorme, com os bota-fora, movimentação de terra e desmatamento. E depois serão seis pistas em dois sentidos, com barulho, poluição e riscos com cargas perigosas numa área rica em cursos de água que alimentam o maior sistema de abastecimento da Grande São Paulo", diz a empresária Yuca Cunha Maekawa, da entidade SOS Cantareira.Bocuhy ressaltou a necessidade de estudar a viabilidade do Rodoanel do ponto de vista metropolitano, levando em conta políticas integradas de Estado e municípios. "Sem isso, o Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (Eia-Rima) é uma peça de ficção." Ele ressaltou que a Grande São Paulo já sofre problemas de abastecimento. "Estamos indo buscar água cada vez mais longe e não podemos pôr em risco os mananciais."Se o traçado original for mantido, o Rodoanel vai cruzar em cheio a Igreja de Santa Inês, em Mairiporã, bem perto da Represa Paiva Neto, que o comerciante Adilson de Oliveira ajudou a construir. "O campinho de futebol, única diversão do bairro, também vai desaparecer", lamenta. Sem contar que seu barzinho deve ficar bem debaixo de um viaduto. "A vizinha quis alvará para uma casa no seu terreno de 82 mil metros quadrados e não foi autorizada porque era área de preservação, mas o Rodoanel pode?", indaga.O comerciante Sergio Silva está preocupado com as nascentes de sua chácara na Cantareira, que também devem ser atingidas pela obra. "Os moradores dos condomínios da região passaram por um processo de conscientização longo e se organizaram para preservar o verde e os animais. Se tiro uma árvore sem autorização, sou preso."

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