Divulgação/Marinha
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Relatório do BEA aponta erros dos pilotos durante queda do voo 447

Eles interpretaram alarme de forma errada e não procederam de forma correta à perda de estabilidade

Andrei Netto, de O Estado de S.Paulo, com agências internacionais

29 de julho de 2011 | 08h04

PARIS - O Escritório de Investigações e Análise para Aviação Civil (BEA, na sigla em francês) divulgou nesta sexta-feira, 29, com duas horas de antecedência, um dos relatórios mais completos sobre as causas do acidente com o voo AF 447. As principais conclusões são que realmente houve falha nos sensores de velocidade da aeronave e interpretação incorreta dos dados pelos dois copilotos, o que levou à condução errada do avião. O BEA diz, porém, que até o momento é impossível confirmar que os pilotos tenham de fato errado. Existe a suspeita, mas não está provada a culpa.

 

De acordo com o documento, a falha nos sensores de velocidade provocaram o desligamento do sistema eletrônico de navegação da aeronave, como apontava o relatório anterior, divulgado em maio. Em seguida, os dois copilotos que estavam na cabine de comando (o comandante havia saído para descansar) não conseguiram identificar e discutir o alarme de que o avião estava em perda de sustentação (estol),  o que fez com que a aeronave caísse no Oceano Atlântico em 2009.

 

Essas falhas de pilotagem, diz o BEA, podem ser atribuídas a falta de treinamento para situação de risco a qual os pilotos estavam submetidos. Com isso, a agência fez novas recomendações sobre treinamento de tripulação, assim como de novas maneiras de registro do que ocorre dentro das aeronaves.

 

Com base nas análises mais detalhadas das caixas-pretas, os investigadores confirmaram o que já havia sido informado no relatório anterior: que os pilotos responderam ao alarme de perda de sustentação elevando o bico da aeronave em vez de baixá-lo para recuperar a estabilidade - algo que intrigou especialistas na época em que saíram os dados preliminares do acidente. Não ficou claro, porém, o motivo de os pilotos terem agido dessa forma.

 

Além disso, ao perceberem que a aeronave estava com perda de velocidade, mesmo com índices incoerentes por causa do congelamento dos tubos do pitot, os pilotos não adotaram o procedimento chamado de "IAS questionável", quando a leitura velocidade apresentada pelo sistema não é confiável. Segundo o relatório, nenhum dos dois tinham passado por treinamento recente para pilotagem manual ou qualquer conhecimento em altas altitudes para caso de erro de leitura de velocidade.

 

Durante todo o período crítico, não houve evidências que mostrasse a divisão de tarefas entre os dois copilotos e o comandante também não havia deixado orientações claras antes de deixar a cabine. Ainda de acordo com o relatório, em nenhum momento a equipe de pilotagem comunicou os passageiros sobre os problemas enfrentados durante o voo.

 

Dessa forma o relatório do BEA, indica 26 meses após o acidente que uma conjunção de fatores reunindo a Airbus-Thales e a Air France teria sido decisiva pra o desastre que causou a morte de 228 pessoas.

 

Recomendações. Devido a essas falhas, o BEA lançou um relatório com novas recomendações sobre o treinamento de pilotagem manual de aeronaves - o que segundo críticos da área, foi corroído com as novas tecnologias -, além de mudanças no registro de ocorrências técnicas dentro da aeronave e a transmissão de informações sobre o voo em caso de emergência.

 

Três das dez recomendações são ligadas ao treinamento de pilotos, para que saibam como abordar, identificar e recuperar o controle do avião em caso de perda de estabilidade, mesmo que em altas altitudes.

Também se pede neste documento que sejam formados critérios adicionais para a divisão de tarefas entre os copilotos quando o comandante não estiver na cabine.

 

Outra recomendação é a gravação feita em vídeo do que é mostrado para os pilotos nas telas do computador do painel de controle das aeronaves, assim como esses registros serão operados.

 

 

Atualizado às 11h20

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