Ettore Ferrari/EFE
Ettore Ferrari/EFE

Relatório do Vaticano para encontro de bispos cogita padres casados na Amazônia

Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia ocorrerá em outubro e discutirá a evangelização de povos nativos e a preservação da floresta

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2019 | 07h46
Atualizado 17 de junho de 2019 | 21h56

CIDADE DO VATICANO - O Vaticano divulgou nesta segunda-feira, 17, o documento preparatório para o Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, que abre as portas para a ordenação de leigos casados. Ao afirmar que “o celibato é um presente para a Igreja”, se pede que “nas zonas mais remotas da região se estude a possibilidade de ordenação sacerdotal de idosos, preferivelmente indígenas, respeitados e aceitos por sua comunidade, ainda que já tenham uma família constituída e estável”.

A ideia seria estender o sacerdócio a “viri probati”, homens casados, de fé comprovada e capazes de administrar espiritualmente uma comunidade. O documento ressalta a falta de sacerdotes na região. Por isso, em vez de deixá-las sem o sacramento da Eucaristia, “devem ser mudados os critérios de seleção e preparação de ministros autorizados a celebrá-la”.

É o tipo de exceção à exigência de celibato que, segundo os vaticanistas, pode levar à ordenação de homens casados em outras áreas do mundo. O papa Francisco já havia dito no passado que ele teria a possibilidade de ordenar “viri probati” em áreas remotas - segundo fontes vaticanas, a sugestão teria vindo ainda em 2017 do cardeal emérito de São Paulo, d. Cláudio Hummes. O arcebispo brasileiro foi nomeado no mês passado relator geral do sínodo, que ocorrerá de 6 a 27 de outubro.

A proposta do Vaticano foi elaborada após consultas com católicos na região amazônica. Se for aceita, esses homens casados não seriam os primeiros a servir como sacerdotes. O atual papa emérito, Bento XVI, já havia permitido a ordenação de alguns padres anglicanos casados que se converteram ao catolicismo. E igrejas católicas orientais, como os melquitas e os maronitas, há muito tempo permitem que casados celebrem.

Mas a simples publicação do documento deve acirrar um confronto nem sempre silencioso no pontificado de Francisco, entre tradicionalistas e renovadores. O cardeal Robert Sarah, um dos líderes ultraconservadores e prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, argumenta que a ordenação de “viri probati” é uma “violação da tradição apostólica”. 

Os críticos veem uma série de problemas, a começar pelo fato de que o Sínodo só deveria tratar da Amazônia - e não haveria como uma proposta assim não ser usada em outros lugares, como no interior dos Estados Unidos, onde paróquias vêm sendo fechadas por falta de padres.

Além disso, se critica a criação de “dispensadores” de sacramentos e a possibilidade de se criarem castas de leigos, destacando a preocupação sobre como ficaria a questão dos diáconos permanentes - homens casados que auxiliam nas circunscrições, mas não têm a ordenação sacerdotal.

Na mesma Cúria Romana, porém, o cardeal Beniamino Stella, prefeito da Congregação para o Clero, afirmou que a medida deveria ser “avaliada”. Pressionado sobre o tema, recentemente, o cardeal Lorenzo Baldisseri, que secretariou o conclave que elegeu o atual pontífice, disse que “a Igreja não é estática, há possibilidade de movimento”. 

Já o cardeal alemão Walter Kasper, um conselheiro teológico de Francisco, adiantou que “se os bispos (da América do Sul) concordassem, por consentimento, com casados ordenados, é meu julgamento que o papa iria aceitá-lo”. “O celibato não é dogma, não é prática inalterável.” Só há uma unanimidade entre os grupos: a decisão, e as críticas, ficarão par a o papa.

Mulheres

Outro ponto que deve acirrar ânimos é a alegação no documento vaticano de que “indígenas devem pregar para indígenas com base em sua cultura e língua”. Além disso, o documento surpreendeu em mais um ponto: contém uma proposta de um “ministério oficial” para as mulheres na área pan-amazônica. O texto não especifica o tipo de ministério, o que deve ficar para o sínodo.

Um temor para Bolsonaro

O ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno, já admitiu que o Sínodo sobre a Amazônia cria “preocupação” no governo Jair Bolsonaro, que tem sido criticado internacionalmente por afrouxar políticas ambientais. O tema chegou a ser discutido internamente no Planalto, que via no evento agenda “de esquerda”.

Entre os temas, há o trabalho pastoral de evangelização no bioma, que se espalha por nove países. Mas também se discutirá o combate à pobreza, a proteção à população indígena e desmatamento.

Ao Estado, o cardeal Cláudio Hummes observou que o atrito foi superado, após vários contatos, entre os quais uma reunião em Manaus entre representantes católicos e militares, incluindo o general César Augusto Nardi, do Comando da Amazônia./ COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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