JIM LO SCALZO/ EFE
JIM LO SCALZO/ EFE

Relatório sobre ex-cardeal dos EUA mostra que autoridades católicas sabiam de abusos sexuais

Conforme o documento, mesmo com os rumores de má conduta sexual, autoridades permitiram ascensão de Theodore McCarrick na Igreja; Relatório traz 90 testemunhos e dezenas de cartas e transcrições do Vaticano e Arquivos da Igreja dos EUA

Reuters, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2020 | 19h29

O Vaticano publicou nesta terça-feira, 10, um relatório em que aponta que autoridades católicas sabiam das acusações contra o ex-cardeal Theodore McCarrick, dos Estados Unidos e, mesmo assim, o deixaram ascender na hierarquia da Igreja. Influente na Igreja Católica americana, McCarrick foi expulso da entidade no ano passado depois que uma investigação do Vaticano o considerou culpado por crimes sexuais contra menores e adultos, além de abuso de poder.

O relatório diz que o Papa João Paulo II promoveu McCarrick em 2000, embora já houvesse rumores da sua má conduta. Com 450 páginas, o documento traz depoimentos de 90 testemunhas e dezenas de cartas, documentos e transcrições do Vaticano e Arquivos da Igreja dos EUA. Até o atual papa, Francisco, foi questionado. 

Segundo o relatório, há “provas críveis” de que o ex-arcebispo de Washington, D.C. abusou de menores quando era padre na década de 1970 e isso só foi formalmente revelado em 2017. Além disso, diz que a Igreja dos EUA estava ciente de rumores consistentes de que, depois que McCarrick se tornou bispo no início dos anos 1980, ele atacou seminaristas adultos do sexo masculino.

“Durante as entrevistas, que muitas vezes foram emotivas, as pessoas descreveram vários comportamentos, inclusive abuso e ataques sexuais, atividade sexual que não havia sido requerida, contatos íntimos e até dividir a cama mesmo sem toques.”

De acordo com o texto, nos anos 1980 não havia "nenhuma informação com credibilidade" que indicasse má conduta de McCarrick. No entanto, o documento afirma que, em retrospectiva, as investigações do Vaticano sobre alegações contra McCarrick foram de "natureza limitada".

McCarrick afirmou que não se lembra de ter abusado de menores e não comentou as alegações sobre suas relações com adultos. Atualmente, ele tem 90 anos e vive isolado. Barry Coburn, o advogado de McCarrick, disse à reportagem que não comentaria o caso.

McCarrick foi promovido mesmo com suspeitas

Em 1999, o cardeal John O'Connor aconselhou o Papa João Paulo II que seria imprudente promover McCarrick por causa de “rumores” de má conduta sexual com seminaristas nas cidades de Metuchen e Newark, nos anos 1980. 

Uma investigação do embaixador do Vaticano nos Estados Unidos, solicitada por João Paulo II, “confirmou que McCarrick compartilhou uma cama com rapazes”, mas disse que não havia certeza de que ele havia se envolvido em atos sexuais.

Em 6 de agosto de 2000, McCarrick escreveu ao secretário particular do Papa João Paulo II para refutar as alegações feitas pelo cardeal O'Connor. "Acreditou-se na negação de McCarrick", diz o relatório.

Em novembro de 2000, o Papa João Paulo II indicou McCarrick como arcebispo de Washington, D.C., um dos cargos de maior prestígio na Igreja dos EUA. Lá, ele conviveu com líderes mundiais e teve bom desempenho na arrecadação de fundos para a Igreja.

Investigações posteriores, em 2019 e 2020, determinaram que três bispos deram informações "imprecisas e incompletas" sobre a conduta sexual de McCarrick. Essas omissões "impactaram as conclusões dos assessores de João Paulo II e, consequentemente, do próprio João Paulo II", aponta o relatório.

O relatório ainda afirma que o Vaticano nunca recebeu uma reclamação direta de uma vítima e era plausível, dadas as informações de que dispunha, caracterizar as alegações contra ele como "fofoca" ou "boatos".

Governos do Papa João Paulo II e Papa Bento XVI

João Paulo morreu em 2005 e foi declarado santo em 2014. O relatório diz que ele quis acreditar na negação de McCarrick por sua experiência na Polônia. Lá, o governo comunista usou “alegações espúrias contra bispos para degradar a posição da Igreja”, segundo o relatório.

O Vaticano, então sob o governo do Papa Bento XVI, disse a McCarrick que ele deveria renunciar ao cargo de bispo depois de tomar conhecimento de mais informações de uma vítima identificada como “Padre 1”. Bento XVI aceitou a renúncia de McCarrick em 2006. 

Em 2008, três altos funcionários do Vaticano sugeriram que o papa aprovasse uma investigação canônica “para determinar a verdade e, se garantido, impor uma medida exemplar”.

Em vez disso, uma autoridade do Vaticano pediu a McCarrick para “manter uma postura mais discreta e minimizar as viagens para o bem da Igreja”. Como não houve “instruções explícitas do Santo Padre (Papa Bento XVI)”, McCarrick continuou as atividades públicas.

O relatório diz que Bento XVI provavelmente rejeitou a ideia de uma investigação porque não havia “alegações com credibilidade de abuso infantil”, porque McCarrick havia jurado como bispo que não abusou sexualmente de ninguém e “não havia indicação de qualquer conduta imprópria recente (com adultos)”.

Papa Francisco

Depois de ser eleito em 2013, o Papa Francisco tomou conhecimento de “alegações e rumores” sobre o comportamento anterior de McCarrick, conforme o relatório.

“Acreditando que as alegações já haviam sido revisadas e rejeitadas pelo Papa João Paulo II, e bem ciente de que McCarrick foi ativo durante o papado de Bento XVI, o Papa Francisco não viu a necessidade de alterar a abordagem que havia sido adotada nos anos anteriores.”

O arcebispo Carlo Maria Vigano, ex-embaixador do Vaticano, acusou Francisco de permitir que McCarrick continuasse suas viagens e de ter suspendido as "sanções" que haviam sido impostas por Bento XVI. O Vaticano respondeu que nunca houve sanções formais contra McCarrick.

O relatório diz que nenhuma documentação de qualquer abuso cometido por McCarrick foi entregue ao Papa Francisco antes de 2017, quando McCarrick foi acusado de abusar de uma menor na década de 1970, levando à investigação do Vaticano, que levou à sua expulsão do sacerdócio.

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