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Funcionária em laboratório de Guangzhou, na China EFE/EPA/ALEX PLAVEVSKI

Relatos da quarentena (4): A possibilidade de perder um amigo para o coronavírus

'O senhor Chen é uma das pessoas mais interessantes que já conheci. Desde a  semana passada tento contato com ele mas não obtenho respostas', escreve Caleb Guerra, um dos 34 repatriados de Wuhan, na China, em quarentena na base área de Anápolis

Caleb Guerra, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2020 | 10h00

ANÁPOLIS - O Estado iniciou na semana passada a publicação de uma série de relatos escritos por Caleb Guerra, de 28 anos, estudante de Literatura que morava em Wuhan. Ele está entre os 34 brasileiros repatriados da província, área mais afetada pela epidemia de coronavírus. Guerra aceitou escrever um diário com suas impressões sobre a quarentena na Base Aérea em Anápolis, em Goiás. Este é o seu quarto texto. O governo informou nesta sexta-feira, 20, que avalia antecipar a liberação do grupo.  

"O dia 05 de janeiro de 2019 está acabando e eu já o considero um dos piores aniversários que eu já passei na vida. Cheguei em Wuhan há menos de quatro meses e não consigo lembrar qual foi a última vez que senti uma solidão tão densa assim. Depois de algum tempo na vida, socializar não é tarefa simples.

Levanto, coloco meus livros na mochila e caminho em direção à porta da biblioteca. Ainda de dentro do saguão vejo pela janela uma grande quantidade de alunos no pátio do lado direito dos pilares que leva ao laguinho do centro e às famosas cerejeiras da Universidade de Wuhan. Ao sair, o vento frio me lembra que eu não tenho roupa o suficiente e que o caminho até meu apartamento será solitariamente congelante, mas ainda assim, como me é de costume nos últimos dias, saio pela esquerda da praça em direção ao portão principal para pegar o caminho mais longo. Sempre me considerei introvertido mas a rotina de voltar para meu quarto alugado vazio tem me machucado além do suportável. 

Passando pelas últimas árvores antes de chegar na saída, recebo uma mensagem do senhor Chen. Ele diz que viu uma postagem minha mais cedo naquele dia falando sobre meus recém cumpridos vinte e sete anos e me pergunta onde eu estou e o que estou fazendo. Tento não focar no quão patético e carente eu me sinto agora pela publicidade que fiz mais cedo sobre mim, e respondo dizendo que estou à caminho do shopping em busca de algo para comer. Então o senhor Chen, em tom de animação, me diz que tem uma surpresa e me urge a encontrá-lo na saída do metrô em vinte minutos. “Venha de barriga vazia”, diz ele. 

Não sei o que me espera na saída do metrô mas, enquanto caminho em direção à expectativa do melhor sábado que já tive desde que cheguei aqui, recapitulo na minha mente tudo o que sei sobre o senhor Chen. Eu o conheci há pouco tempo em um clube de leitura. Sentamos todos ao redor de uma mesa grande lendo clássicos da literatura chinesa escritos antes mesmo de Cristo ter pisado no mundo.

Em meio a mestrandos e doutorandos em literatura, filosofia e vários professores desses dois departamentos, está o senhor Chen sentado sempre quieto. Ele quase nunca dá opiniões enquanto discutimos os livros porque está sempre de cabeça baixa escrevendo freneticamente em seu caderninho de anotações. Quando terminamos a aula e nos encontramos no salão, eu lhe pergunto a qual departamento pertence e ele me diz sorrindo que é “só o guardinha do prédio”, e que “conhecimento é algo precioso e transformador”, então sempre participa das classes e palestras depois do seu expediente porque acredita que não pode “desperdiçar a oportunidade de estar tão perto desse mundo e não usufruí-lo de alguma forma”. Desde então, o considero uma das pessoas mais interessantes que eu já conheci.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Hoje Wuhan amanheceu linda assim.

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Quando chego às escadas da estação de metrô, vejo o senhor Chen caminhando em minha direção com um sorriso grudado no rosto maior que a lua pendurada no céu. Na mão esquerda carrega uma sacola branca. Ele se aproxima de mim, aperta minha mão e me deseja feliz aniversário, entregando a sacolinha pra mim. Me diz que acabou de cozinhar um mingau de arroz fermentado doce com tâmaras vermelhas pra me dar de presente e que se eu não me importasse, poderíamos procurar algum lugar para sentar e conversar. Caminhamos juntos até o portão sul da universidade, e nos sentamos nas escadarias do pátio.

O senhor Chen embrulhou um potinho de mingau de arroz em oito camadas de sacolinhas brancas “para conservar quente até chegar à você”, diz ele. Está frio, escuro e pouquíssimas pessoas ainda na rua, e alí sentados os dois, começo a ouvir as histórias do senhor Chen sobre sua infância humilde em uma vila pequena ao norte de Wuhan enquanto como o melhor mingau de arroz fermentado com tâmaras que já experimentei. E nesse momento, sinto como se a lua de Wuhan talvez nunca tivera sido tão ofuscada antes pela beleza da simplicidade de alguém que, mesmo com a idade avançada, senta em um campo aberto com o vento frio batendo na nuca só para fazer o aniversário de um forasteiro algo que não deve ser esquecido.

Depois de algumas semanas, o posto de trabalho do senhor Chen foi remanejado para um departamento no outro lado da Universidade. Continuei acompanhando suas publicações online, agora que ele assiste aulas de física quântica e literatura russa. Alguns meses se passariam até eu o encontrar novamente na rua da estação do metrô. Ele me pede uma foto juntos “pra guardar de recordação”, porque decidiu viajar rumo ao sul do país e realizar seu sonho de virar um monge taoísta. 

Nunca mais o vi. Desde semana passada tento contato com ele, mas não obtenho respostas. E eu não consigo parar de pensar na possibilidade do mundo ter perdido uma das pessoas mais doces de Wuhan para o covid19. No começo da semana, insisto em mandar mais uma mensagem. Fecho a nossa janela de conversa, logo um amigo me passa o vídeo de um comediante brasileiro tirando sarro com um rapaz que veio assistir ao seu show. Em meio à piadas, ele pergunta e o rapaz diz que é chinês. Gargalhadas abafam as últimas palavras do comediante enquanto ele resmunga a palavra “coronavírus” fazendo cara feia e saindo de perto do chinês alvo da comédia. Penso no senhor Chen em todos os chineses que não merecem esse tipo de chacota.

O dia 21 de fevereiro de 2020 está acabando e eu já o considero um dos melhores do ano. O senhor Chen finalmente me respondeu. “Desculpe o sumiço” - diz. “Eu voltei para a minha vila e estou como voluntário no trabalho para conter o risco de disseminação. Trabalho desinfetando as áreas públicas e ensinando as pessoas a se proteger”. Ah, senhor Chen, se o mundo pudesse vê-lo! A lua de país nenhum brilharia tanto quanto o sorriso que o senhor leva no rosto já cansado pela idade, mas mais vivo do que nunca pelo amor e compaixão de um dos heróis dessa história toda. Obrigado senhor Chen, por sempre descer das montanhas do seu retiro espiritual para tocar na vida de tanta gente aqui embaixo."

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Relatos da quarentena (1): 'Não consigo esquecer a parte da minha vida que deixei em Wuhan'

Da base em Anápolis eu acompanho as notícias da cidade, converso com meus amigos que estão lá, assisto os números de pessoas infectadas crescer e tento não pensar muito no fato de que talvez só consiga voltar daqui a alguns meses

Caleb Guerra, especial, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2020 | 14h30

ANÁPOLIS - A partir desta terça-feira, 11, o Estado inicia a publicação de uma série de relatos escritos por Caleb Guerra, de 28 anos, estudante de Literatura que morava em Wuhan. Ele  está entre os 34 brasileiros repatriados da província, área mais afetada pela epidemia de coronavírus. Guerra viveu nove anos no país asiático - primeiro cursou dois anos de Sociologia, mas mudou para Letras e Literatura em Mandarim. Atualmente, antes de voltar para o Brasil, fazia mestrado em Mandarim clássico. Integrado à cultura local, Caleb contou que decidiu voltar por conta dos pais - que moram em Marília, no interior de São Paulo. Convidado pelo Estado, Guerra aceitou escrever um diário com suas impressões sobre a quarentena na Base Aérea em Anápolis, em Goiás. Leia o início do diário.

"Numa noite há mais de 2 mil anos, um filósofo taoísta chinês sonhou que havia se transformado em uma borboleta. No sonho, o sentimento de deslizar sobre as flores e de ser levado pelo vento o fez se esquecer de quem ele era. De repente, a borboleta se lembra de ter visto um homem deitado sonhando que se transformou nela. Então ela se dá conta que não sabe muito bem se ela é um homem sonhando que é uma borboleta ou uma borboleta sonhando que é um homem.

No primeiro dia de quarentena aqui em Anápolis, sentado em um quarto da base aérea militar depois de quase 40 horas desde que saí do meu apartamento para voltar ao Brasil, a minha vida na China parece novamente um sonho distante. Na verdade, morar na China sempre acentuou a percepção do distanciamento do Brasil e da vida que eu tinha aqui. Tudo lá é diferente de cá e nada de cá relembra sequer algo de lá.

Vivi os últimos nove anos vagando por duas dimensões diferentes, colecionando memórias de duas vidas paralelas. Ora eu acordava no Brasil sonhando com meu passado na China, ora me via lá caçando as reminiscências de uma vida que eu não tenho mais aqui.

Até que a tragédia de Wuhan causou a colisão dos meus dois mundos. Entre a minha identidade brasileira e meus sonhos chineses, o fator de aproximação foi o povo de uma cidade inteira prostrado a um vírus que nem nome ainda tem.

De dentro da cidade isolada e silenciosa, ouvíamos todas as vozes do mundo falando sobre nós. As ruas anônimas, nunca antes catalogadas nos radares dos jornais internacionais, se tornaram o foco de milhões de olhares mundo à fora. Todos os meus amigos e familiares que nunca conseguiram memorizar direito os nomes das cidades por onde passei, soletravam e pronunciavam “Wuhan” com perfeição. A cidade ganhara a atenção global que nunca possuíra por algo que nunca desejou ter.

De repente, os personagens da versão brasileira da minha vida calculavam a soma dos corpos que tombavam sem vida nos leitos dos hospitais da cidade chinesa que eu chamo de casa. Os lugares que eu gostava de visitar regularmente foram fechados e jornalistas brasileiros sabiam antes mesmo de mim onde eu podia ou não ir. Meus irmãos chineses se tornaram ou estatísticas de morte ou casos suspeitos ou piadas na internet.

O capítulo da minha vida do qual o vírus de Wuhan é coautor ainda não tem um final escrito. Da base aérea de Anápolis eu acompanho as notícias da cidade, converso com meus amigos que ainda estão lá, assisto os números de pessoas infectadas crescer e tento não pensar muito no fato de que talvez eu só consiga voltar pra lá daqui a alguns meses.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Wuhan ❤ Better days will come again and your streets will shine one more time.

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Nas outra vezes que voltei ao Brasil, minhas memórias na China sempre me pareceram um sonho distante, como se eu tivesse acordado aqui novamente depois de ter sonhado minhas aventuras asiáticas. Mas desta vez as notícias do vírus me relembram o dia inteiro do quão real é tudo o que eu vivi em Wuhan. Não consigo esquecer nem tirar da minha cabeça a parte da minha vida que deixei por lá. Não sei quando tudo isso vai acabar e ainda não processei toda essa história direito na minha mente, mas a China está mais viva no meu coração do que nunca."

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Obrigado, Brasil!

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Relatos da quarentena (2): 'Como feijão salgado pensando nos doces em que vão feijão'

'Minha mente continua esculpindo dragões que voam pelas ruas de Wuhan oferecendo uma ajuda que eu não tenho nem condições de prestar', escreve Caleb Guerra, estudante de Literatura que está na base aérea em Anápolis

Caleb Guerra, Especial para o Estado

14 de fevereiro de 2020 | 10h00

ANÁPOLIS - O Estado iniciou nesta semana a publicação de uma série de relatos escritos por Caleb Guerra, de 28 anos, estudante de Literatura que morava em Wuhan. Ele  está entre os 34 brasileiros repatriados da província, área mais afetada pela epidemia de coronavírus. Guerra aceitou escrever um diário com suas impressões sobre a quarentena na Base Aérea em Anápolis, em Goiás. Este é o seu segundo texto. 

"Na China, feijão é servido doce. Às vezes, até caramelizado. E tem sido impossível comer feijão salgado todos os dias sem pensar nos doces que vão feijão: feijão com sorvete de menta, por exemplo, é um clássico. Feijão no pão doce, com leite à vapor ou na gelatina de coco. Feijão no leite com chá. Se os chineses descobrirem o quão fascinante sobremesas feitas com leite condensado são, talvez em alguns anos teremos uma versão chinesa de brigadeiro, feito com feijão preto em vez de chocolate.

No livro A Mente Literária e o Esculpir de Dragões, que foi escrito no quinto século, Liu Xie diz que a maior dádiva outorgada pelo universo ao homem se torna também uma das maiores maldições de sua existência: a realidade de que, estando ele parado na beira do rio observando toda sua beleza, ainda assim a sua mente vaga involuntariamente pelos palácios da corte imperial.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Wuhan ❤ Better days will come again and your streets will shine one more time.

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Ele atribui toda beleza da existência humana ao fato de que o homem sempre ocupa dois lugares ao mesmo tempo, vivendo duas realidades de uma vez só, experimentando o mesmo mundo de duas formas diferentes, simultaneamente. E a essa capacidade da alma do ser humano, ele dá o nome de “a arte de Esculpir Dragões”. Nossa vida se baseia no esforço do processo criativo de desenhar mentalmente suas escamas, pintar as camadas e ser fiel aos contornos na tentativa de criar algo tão majestoso e sublime. É essa percepção da realidade na mente que dá sentido e beleza ao nosso dia a dia mais natural e vulgar.

Mas enquanto esse dom concedido pelo cosmos trabalha para o bem da humanidade que cria e se desenvolve, paradoxalmente ele se torna a nossa maior sina. E é exatamente essa possibilidade que todo ser humano tem de Esculpir Dragões que me faz comer feijão salgado pensando em feijão doce. Não me leve a mal, sou muito agradecido pelo que tenho aqui. Mas a minha mente perambula.

Eu olho o pão francês servido quentinho pela manhã e me alegro. De repente minha mente me pergunta: “Cadê ovo cozido que passou a noite inteira mergulhado no chá e agora já está da cor marrom e com gosto de cravo?”. Eu vejo as camadas de presunto e mortadela no prato e tento buscar inconscientemente onde está na mesa o pepino ralado, o pimentão cortado, o pãozinho cozido à vapor, o repolho frito com cebola, a sopinha doce de arroz fermentado com milho e por último aquele prato de macarrão com molho de gergelim tão famoso que o povo de Wuhan adora comer às sete da manhã... 

Após o café da manhã, os médicos batem na minha porta para medir minha pressão, temperatura e fazer um questionário de perguntas sobre como estou me sentindo. Quando eles saem, a psicóloga chega. Preencho o formulário, digo que está tudo bem. Penso na senhora que mora no apartamento ao lado do meu lá em Wuhan. Será que ela tem alguém perguntando como ela amanheceu todos os dias?

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Ah, o azul de Anapolis ❤

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Devolvo o meu prato na cozinha e me lembro dos fins de semana tomando chá com meus amigos chineses e de como a casa ficava vazia quando eles iam embora e eu me sentia tão sozinho novamente lavando a louça suja. Penso no meu colega que acabou de perder o pai para o vírus, mas não pode nem enterrá-lo porque ele mesmo tem passado os últimos dias em uma cama de hospital infectado. Será que ele tem alguém ao lado para dar as mãos e orar junto com ele? E aquela garota americana que toca flauta tão bem e foi confirmado o diagnóstico positivo para o vírus? Acho que vou mandar uma mensagem e perguntar como está o coração dela. Será que ela vai ler? Será que vai responder?

Estar no Brasil agora é um privilégio do qual sou grato. Mas eu não esqueço do feijão doce. Enquanto os dias passam embaixo do céu limpo e azul de Anápolis, minha mente continua esculpindo dragões que voam pelas ruas de Wuhan e é incontrolável o desejo de voar junto com eles batendo de porta em porta oferecendo uma ajuda que eu não tenho nem condições de prestar. Mas fico pensando que consolo um abraço, uma oração ou um sorriso traria às pessoas do outro lado da porta? O povo de Wuhan está de coração partido, e esculpir dragões comendo feijão salgado me faz lembrar disso o tempo todo."

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Relatos da quarentena (3): O cotidiano na lavanderia da base aérea

'Na fila de pessoas que estão lavando suas roupas, e das que esperam sua vez em alguma das três máquinas, todo tipo de enredo se desenrola', conta Caleb Guerra, que está na Base Aérea de Anápolis após ter regressado de Wuhan, na China

Caleb Guerra, Especial para o Estado

19 de fevereiro de 2020 | 10h00

ANÁPOLIS - O Estado iniciou na semana passada a publicação de uma série de relatos escritos por Caleb Guerra, de 28 anos, estudante de Literatura que morava em Wuhan. Ele está entre os 34 brasileiros repatriados da província, área mais afetada pela epidemia de coronavírus. Guerra aceitou escrever um diário com suas impressões sobre a quarentena na Base Aérea em Anápolis, em Goiás. Este é o seu terceiro texto. 

"(O texto de hoje é dedicado a todos os meus companheiros de quarentena que conseguem encontrar resquícios de alegria e risadas em meio ao drama que nos alcançou em Wuhan e nos acompanhou até o Brasil).

Aqui na base os dias seguem com poucas emoções óbvias mas centenas de pequenas peças dramáticas que se desenrolam via conversa. Sobre algumas das histórias contadas, o que nós sabemos sempre é demais mas nunca o suficiente. No fim, o que importa mesmo é o prazer de ter algo para contar e ouvir. Quando se tem um grupo grande de pessoas que não se conhecem e nunca conviveram juntas dividindo os mesmos espaços e horários, o cotidiano se torna uma exibição constante de diferentes gêneros cinematográficos.

E se você me perguntar onde é o maior palco de exibição desses filmes eu te respondo: a lavanderia. Na fila de pessoas que estão lavando suas roupas, e das que esperam sua vez em alguma das três máquinas, todo tipo de enredo se desenrola.

É possível, por exemplo, assistir a comédia do atrasado despreocupado se encontrando com o impaciente de boca afiada. Essa é a história daquele cujas roupas já estão limpas e secas na máquina mas ainda não veio buscá-las. Ele é aquele que chega a passos largos e com desculpas pérfidas esbarrando com o cara que já não aguenta mais ficar de pé esperando para colocar sua roupa para lavar. O atrasado balbucia o óbvio do ridículo: “me desculpa, atrasei”, e o impaciente responde com o sarcasmo seco: “ah sim, com tanta, mas tanta coisa que você tem pra fazer aqui, deve ser fácil se atrasar mesmo. Normal, acontece”. 

Tem também a tragédia do antipático e sempre sonolento que encontra no recôndito da lavanderia com o palavroso e sempre expressivo demais. “Se chover hoje de novo eu não tenho ideia de como vou poder suportar mais um dia de chuva. Muita chuva! Quem é que aguenta? Se o tempo fechar e chover de novo eu talvez nem sinta vontade de sair do quarto. E é ruim isso, não é? Quem é que aguenta? Poxa vida! Olha lá! E se chover amanhã de novo? Meu Deus, nem sei se eu aguento! Mas também né, quem é que aguenta?” - diz o prolixo primeiro arrumando os óculos, esfregando a testa, coçando a cabeça e por fim balançando as duas mãos e batendo palminhas enquanto vai dobrando os joelhos devagarzinho e dando uns pulinhos tímidos sem tirar os pés do chão. 

Você pode assistir também ao documentário que conta a história da rotina do organizador metódico. Esse está não só disposto como engajado a encontrar o melhor método de organização da fila. Ele vai contando na entrevista sobre o processo criativo de criar uma lista em sua caderneta espiral colorida para marcar os horários das lavagens e permitir que cada pessoa que chegue na lavanderia saiba de quem é a roupa dentro da máquina, quanto tempo ela vai ficar lá e quando o dono das peças vai voltar para buscar.

Às vezes o documentário tem uma reviravolta na trama quando alguém tira suas roupas da lavanderia mas esquece de riscar o nome da lista. Quando isso acontece, nós temos uma verdadeira aventura documental na telona: assistimos ao organizador metódico rodar a base caçando com unhas e dentes quem ousou quebrar o protocolo perfeito.

Assistimos apreensivos ao drama da discussão daquele que jura ter deixado o relógio para despertar assim que sua roupa estivesse pronta mas não ouviu por algum motivo. Após ter atrasado uns míseros cinco minutos, acabou cruzando o caminho daquela atrevida desesperada que foi logo arrancando tudo o que tinha dele de dentro da máquina e colocou de qualquer jeito em cima do balcão.

E há ainda o suspense que narra o conto dos misteriosos sem-rosto que esperam o cair da noite para lavar roupa. Deles sabemos muito pouco, e tudo é especulação. Eles são os rebeldes que não querem se submeter à convenção social de pôr seus nomes na lista colorida do organizador metódico e por isso vagueiam pelos corredores na calada da madrugada com seus cestos de roupa suja. 

É difícil passar os dias aqui sem ter a mente me transportando para a tragédia de Wuhan o tempo todo. Por isso serei eternamente agradecido aos amigos que fiz aqui e que sentam comigo no corredor assistindo diariamente aos dramas da lavanderia da quarentena e me ajudam a criar essas crônicas insanas para passar o tempo. Cláudia, Heros, Alefy, Gabi, Igor e Higor. Obrigado por possibilitarem risadas nesse momento dramático das nossas vidas. Sem vocês, lavar roupa suja não seria a mesma coisa.

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