Reportagens mostram a voz viva dos eleitores

Quem mora na cidade de São Paulo ou mesmo no Estado de São Paulo tem uma noção limitada de como pensa o eleitor médio brasileiro. Podemos ir além de São Paulo. As pessoas de classe média e alta das grandes cidades brasileiras não entendem, muitas vezes, por que o governo Lula tem uma aprovação tão elevada e por que Lula é tão querido.

Análise: Alberto Almeida, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2010 | 00h00

A série de artigos do Estado, tão bem redigidos pelo jornalista Lourival Sant"Anna, mostra com bastante clareza e realidade o que é captado de maneira fria pelos números das pesquisas quantitativas. Lula é querido sim, mas não em abstrato. As pessoas que gostam de Lula pensam desta maneira porque associam ao seu governo a melhoria de suas vidas.

Lula não é um deus, um ídolo, ou alguém cuja popularidade seja inquebrantável. Aliás, a popularidade do presidente não cairá, como não diminuiu no passado, por causa de críticas ou ataques de quem lhe opõe. É preciso um fato político real, como uma profunda crise econômica ou um aumento agudo da inflação para que a popularidade de Lula caia. Ao que tudo indica isso não acontecerá mais.

O que o Estado mostra, ao ir ouvir diretamente o eleitor, é que essa elevada popularidade tem a ver com ter sido possível comprar um carro, reformar a casa, conseguir um emprego melhor. Aqueles que apoiam Lula, e que por isso têm a tendência de votar na sua candidata, estão ao lado do presidente por causa de uma questão geral, ampla, assim formulada pelos eleitores: "A minha vida melhorou com Lula". Esse "melhorou" se aplica às condições financeiras, ao consumo.

Não há um motivo específico para ficar ao lado de Lula, algo como: "Aprovo ele porque esta obra denominada desta ou daquela maneira me beneficiou." Ou ainda, "estou ao lado de Lula porque ele apresentou na Câmara, e conseguiu que fosse aprovado, um determinado projeto de lei". Na aprovação de Lula predomina uma justificativa geral e faltam motivações específicas.

O sinal se inverte quando lemos os depoimentos dos eleitores que pretendem votar nos candidatos de oposição. O motivo para votar em Serra ou Marina é sempre alguma coisa que o governo Lula ou fez errado ou deixou de fazer. Os eleitores são muito específicos quando mencionam coisas erradas que foram realizadas. Para eles, neste caso, é preciso votar em outro candidato que não o apoiado por Lula para que uma lei particular seja abolida ou introduzida.

O recado da população captado pelo Estado é também uma sugestão para a campanha de Serra e Marina. A sugestão de que ambos busquem um discurso mais geral e mais amplo. Vale recordar aqui dois estilos de campanha nas primárias norte-americanas, o Obama do discurso geral e a Hillary do discurso específico.

A mesma pergunta feita a Hillary e a Obama recebia duas respostas inteiramente diferentes. Hillary apresentava quinze medidas que iriam resolver o problema endereçado pela pergunta; dentro de cada medida ela explicava como e por que seria feito daquela forma. Obama se limitava a responder indicando o rumo que seguiria. Algo como "todos os americanos terão acesso a tratamento de saúde digno".

Obama venceu Hillary na indicação do Partido Democrata por diversas razões, mas essa diferença no discurso de ambos não pode ser menosprezada. O eleitor capta e retém muito menos informações do que as pessoas que gostam de política e a acompanham. Por isso, o argumento geral tende a ser mais efetivo do que questões detalhadas e específicas.

Outro aspecto muito relevante do especial do Estado se refere ao que realmente mobiliza o eleitor. As discussões são cristalinas: o eleitor, de qualquer escolaridade, só se preocupa com o seu próprio umbigo. O eleitor, no momento de escolha de seu candidato, é mesquinho e egoísta. Ele quer saber como os candidatos podem melhorar a sua vida. Eles querem que os candidatos falem para ele de seus problemas e como serão resolvidos.

Eis aí mais um recado para as campanhas de 2010. Temas como Banco Central não dizem nada para o eleitor, em particular se comparado com um tema sobre o qual a atuação do Banco Central tem grande impacto: a inflação. Temas como reforma tributária, carga fiscal e sua linguagem incompreensível, crise fiscal ou a partilha de impostos entre municípios, Estados e União não dizem respeito em nada ao interesse do eleitor. O eleitor quer saber e está disposto a votar em quem vai reduzir os impostos dos alimentos, passagens aéreas e automóveis. O Estado premiou seus leitores e as campanhas de 2010 com este especial que para nós, pesquisadores, é uma verdadeira pesquisa qualitativa.

É SOCIÓLOGO E AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE "A CABEÇA DO BRASILEIRO"

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