Repórter flagra guarda que fraudava furto de carro

A Guarda Municipal de Campinas abriu hoje sindicância administrativa para apurar o envolvimento do guarda Cristiano Ricardo Miranda em fraudes de furtos de veículos. O acusado foi afastado da corporação por 90 dias. A Polícia Civil, que já havia instaurado inquérito sobre o caso, informou que pretende ouvir o suspeito e poderá solicitar sua prisão. Miranda, que há cinco anos trabalha na Guarda Municipal, foi flagrado por uma emissora de televisão negociando com um repórter que simulou interesse em se desfazer de seu carro para receber o seguro. Ele instruiu o repórter a lhe entregar o veículo, com o documento ou cópia do documento, e comprometeu-se a dar fim no automóvel. O guarda municipal avisou o suposto interessado que seu carro seria levado a um desmanche, onde teria vidros e chassis destruídos. "Depois que o carro entrou na loja, eu garanto para você que não sai mais", disse o acusado na gravação. Ele acrescentou que o carro seria desmanchado em quatro horas. O acusado ainda orientou o repórter a dar queixa em uma delegacia de uma das cidades da região e se prontificou a acompanhá-lo para confirmar o furto, depois que o carro já tivesse sido desmontado. A conversa entre o repórter e o guarda ocorreu no Largo do Rosário, no centro de Campinas. Ele tranqüilizou o suposto cliente dizendo que era amigo do dono do desmanche há 12 anos e que já lhe havia entregue pelo menos 50 automóveis. Miranda concluiu dizendo que "sua parte" seria resolvida com o dono do desmanche e o repórter ficaria com o valor do seguro. O delegado titular da Delegacia de Investigações Gerais Hamilton Caviolla Filho disse ter sido informado da denúncia há pelo menos 10 dias e ao repassá-la para aos policiais foi avisado de que o caso já estava sendo investigado. O delegado comentou que foi instaurado o inquérito policial e que o acusado será chamado para depor. Segundo ele, a polícia tem informações sobre o desmanche para onde Miranda levava os automóveis, mas preferiu não divulgá-las para não atrapalhar as investigações. Peças marcadas Caviolla disse que a Delegacia Seccional de Campinas promove fiscalizações diárias nos cerca de 100 desmanches legalizados da cidade. "Mas esse tipo de receptação é difícil de ser confirmada porque não há como identificar as peças dos carros desmanchados", alegou. Ele sugeriu que as montadoras marquem com números todas as peças dos automóveis e não somente os chassis e os vidros. As seguradoras também contribuem para mascarar fraudes, conforme o delegado, porque quando as descobrem fazem acordo com o cliente de não denunciá-lo à polícia se ele desistir do pagamento do seguro. No primeiro trimestre deste ano, 1,5 mil veículos foram furtados ou roubados em Campinas. O Sindicato das Empresas de Seguro de São Paulo informou que as fraudes são estimadas em 25% dos seguros. Um funcionário do Sindicato, que preferiu não se identificar, alegou que o valor dos seguros cairia se o índice de fraudes, ou o custo de fraude como preferem chamar as empresas, diminuísse. O funcionário reconheceu que "algumas seguradoras" fazem acordos com clientes fraudadores, mas afirmou que não se trata de "prática de mercado". Ainda segundo o Sindicato, São Paulo responde por 55% dos prêmios-seguros do Brasil. De acordo com dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep) do Ministério da Fazenda, somente em janeiro deste ano as seguradoras pagaram R$ 906.320 de seguros de automóveis, 5,79% a mais que no mesmo mês do ano passado. Em todo o ano de 2002, as empresas pagaram R$ 9.620.588 referentes a seguros de automóveis.

Agencia Estado,

03 Junho 2003 | 18h10

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.