Resgate treina com blindados

Bombeiros fazem curso específico para retirar as vítimas que ficam presas nas ferragens

Fernanda Aranda, O Estadao de S.Paulo

29 de junho de 2009 | 00h00

Os veículos blindados, cada vez mais presentes na frota por causa da violência urbana, viram desafio extra quando deixam de ser só item de segurança e acabam envolvidos em acidentes com vítimas. A disseminação das "fortalezas" em forma de carros, que já não circulam apenas em São Paulo, exige agora treinamento específico dos bombeiros de todo o País. O problema é como socorrer esse tipo de ocorrência, cada vez mais frequente.Em 1998, 305 automóveis rodavam com blindagem no Brasil; no ano passado, o número subiu para 8 mil carros (aumento de 26 vezes). Quando um desses veículos se choca com algum obstáculo, tirar as vítimas das ferragens é tarefa árdua, uma vez que os vidros pesados e a carcaça mais rígida só são detectados quando precisariam ser quebrados, o que é difícil. "Depois de estudarmos bastante, identificamos que são necessárias ferramentas diferenciadas, pontos do automóvel que não podem ser cortados e uma estratégia de resgate específica para conseguir socorrer quem está em meio à lataria amontoada após a colisão", afirma o capitão Carlos Roberto Rodrigues, responsável pelo Centro de Treinamento do Corpo de Bombeiros em Franco da Rocha, Grande São Paulo. Até metade de 2007, não havia um padrão de atendimento nem um plano B para vencer a briga contra o relógio e conseguir retirar vítimas com vida de dentro de um carro blindado.O Estado de São Paulo, que tem a maior parte da frota brasileira (6 milhões ou 25% de todo o País), funciona como um dos maiores observatórios de acidentes veiculares do mundo (assim descrito pelos especialistas) e também concentra 65% dos blindados (conforme dados divulgados pela Associação Brasileira de Blindados, a Abrablin). Por isso, foi pioneiro na iniciativa de treinar os bombeiros para o salvamento. "Começamos os primeiros treinamentos com homens de São Paulo, mas este ano recebemos bombeiros de outros Estados, até porque a frota de blindados chegou a esses locais", completa Rodrigues. No Centro de Treinamento, já foram realizados três cursos específicos, um deles neste ano. A duração é de cinco dias, em turmas de 20 pessoas. A reportagem do Estado acompanhou a simulação de um desses resgates. "Executivos, famílias com crianças pequenas, políticos, juízes e jovens universitários que estudam à noite." São esses os clientes atuais e preferenciais dos carros blindados, conforme o presidente da Abrablin, Christian Conde. Para o tenente do Corpo de Bombeiros de São Paulo Diógenes Munhoz - especializado em resgate terrestre - trata-se também de um público que "se envolve até mais em acidentes veiculares".A preocupação em oferecer as diretrizes corretas para o salvamento de blindados é que qualquer minuto perdido pode ser fatal. O tempo ideal estipulado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para tirar a vítima das ferragens, oferecer os primeiros socorros e chegar ao hospital é de 8 minutos, para que não haja nenhum impacto na sobrevida. "Não saber como manusear um veículo blindado é crucial no tempo de atendimento. Além disso, pode causar nervosismo e interferir ainda mais no resgate", completa Marcelo Teixeira, coordenador médico da Autoban, que administra o sistema de estradas Anhanguera-Bandeirantes e também oferece treinamento específico de blindados.O enfermeiro especializado em urgência e emergência Eduardo Fernando de Souza é um dos idealizadores do treinamento de resgate de vítimas de veículos blindados e ressalta a cautela nos cursos. "Só pode ser oferecido para instituições credenciadas, civis ou militares", diz. "Afinal, não é todo mundo que pode aprender a abrir um blindado ou a segurança perde a função." A necessidade de um curso para socorrer vítimas de carros blindados, por analogia, representa o encontro dos dois tipos de violência urbana que mais amedrontam a população: os homicídios e os acidentes de veículos. HISTÓRIASDiógenes MunhozTenente dos Bombeiros"Cheguei ao carro, que estava batido perto do Parque do Ibirapuera. O airbag escondia o rosto do motorista, mas dava para ver que era um senhor de 45 anos. Ele estava inconsciente, com hemorragia no braço e os pés presos nos pedais. Fui quebrar o vidro para retirá-lo e o vidro não quebrou. Algumas partes do veículo também não eram serradas. Foi a minha primeira ocorrência com blindado. O ano era 2007. Consegui resgatá-lo com vida, mas percebi que precisava de treinamento"Marcelo TeixeiraCoordenador da AutoBan"O acidente que mais me marcou foi com um carro forte, todo blindado. Havia cinco vítimas dentro do veículo, todas conscientes, mas com ossos fraturados. O resgate precisava ser pelo chão do carro, o que simula um socorro típico de presos em caverna. O mais incrível é que aqueles profissionais poderiam acionar o dispositivo para abrir as portas. Mesmo com a presença de policiais, eles não abriram"Eduardo Fernando SouzaEnfermeiro de urgência"Muitos resgates são marcantes, mas com carros blindados sempre é uma emoção a mais, porque é preciso jeito e treino. Em 2004 tive o meu primeiro resgate em um veículo assim. Depois, estudei as ferramentas mais adequadas. Infelizmente, foi em 2004 também que um casal não conseguiu ser salvo no Rio, por causa da blindagem"

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