Resistência a bikes já começa na garagem

?Não existe lugar para a bicicleta em São Paulo?, diz o ex-jogador de futebol Raí, usuário do veículo

O Estadao de S.Paulo

26 de julho de 2008 | 00h00

Cada vez mais paulistanos trocam o carro pela bicicleta. Que o diga o ex-jogador de futebol Raí, que dirige a ONG Gol de Letra e todos os dias pedala de Perdizes, onde vive, até seu escritório, na Vila Madalena. "É um outro jeito de ver a cidade, em um ritmo muito diferente. Hoje, só uso carro em caso de emergência." Ele conta que trouxe o hábito da Inglaterra, onde morou por um ano. E aqui se surpreende com a falta de prioridade para a bicicleta. "Em qualquer lugar do mundo haveria essa preocupação. Aqui, ainda engatinhamos no estímulo à bicicleta", diz, citando a reforma das calçadas da Paulista, que não incluiu ciclovia. "Não existe lugar para a bicicleta em São Paulo. Na rua, os ônibus e carros buzinam, a calçada é para o pedestre; assim, realmente é difícil."O médico pneumologista André Nathan é outro entusiasta da bicicleta. Mas há dias foi surpreendido com a proibição de deixá-la na garagem de seu prédio, o Grand Space Pinheiros. "Parece que uma das bikes riscou um carro. E o prédio resolveu andar na contramão da tendência internacional, privilegiando o carro em detrimento do transporte alternativo." Quando foi reclamar, a síndica respondeu que "garagem não foi feita para bicicleta". Um dos três bike-repórteres da Rádio Eldorado e militante histórico em defesa das magrelas, Arturo Alcorta, que há 20 anos fez um trabalho semelhante, se surpreendeu com a piora na qualidade do ar e do barulho em São Paulo. "A poluição está absurda, e hoje preciso de aparelhos bem mais potentes para conseguir falar com a rádio."O representante comercial Ivan Soares de Araújo começou a andar com mais freqüência de bicicleta depois que a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) reformou a Estação Itaim Paulista e instalou um bicicletário. "Demorava 20 minutos para chegar em casa a pé. Com a magrela, não levo nem 5 minutos", comemora. Araújo, que mora no Jardim Maia, vai com freqüência a Guarulhos, atravessando o limite entre as cidades de bicicleta, usando terno e gravata, para atender seus clientes. Se não tivesse bicicleta, a opção seria ir de vans clandestinas. No bicicletário, difícil é conseguir espaço. Há quase mil interessados para 256 vagas.A secretária Célia Moraes ia de carro para o trabalho e ficava nos congestionamentos. Olhava os ciclistas e pensava: "Por que não tenho coragem de ir de bike?" Ela comprou uma bicicleta para fazer o percurso de 14 quilômetros - ida e volta, quatro vezes por semana. Superou a frustração que sentia com o carro e aderiu a um veículo mais simples e eficiente. A viagem dura 20 minutos. Ela elogia a Avenida Roberto Marinho, mas evita a Washington Luís, Bandeirantes e as Marginais, por causa do fluxo intenso.

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