Resistência a mercado motiva briga

?Precisamos saber se o que queremos é o Brasil Cidadão ou o Brasil Mercadão?, afirma o diretor do Oficina

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2008 | 00h00

O Grupo de Teatro Oficina completa 50 anos em outubro com o diretor José Celso Martinez Corrêa jogando para a platéia uma pergunta recorrente entre os urbanistas que discutem as grandes cidades mundiais. "Precisamos saber se o que queremos é o Brasil Cidadão ou o Brasil Mercadão", provoca.   Galeria de fotos do Teatro Oficina e mais sobre as obras na Oscar FreireNa visão do diretor, o quarteirão do Teatro Oficina se tornou um foco de resistência à maneira como o mercado vem determinando o crescimento da cidade e confinando a população de São Paulo a guetos. "Não se trata apenas de uma briga minha com o Silvio Santos. Se fosse, eu, que não tenho plano de saúde, não tenho nada, já teria perdido. Trata-se de algo maior, de discutir se aceitaremos uma cidade segregada, com medo, com uma população trancada em prisões, que não se mistura", afirma.Assim como ocorreu na série Os Sertões, adaptação teatral do clássico de Euclides da Cunha, a nova peça do Oficina, Os Bandidos, de Friedrich Schiller, que estréia no dia 26 de setembro, está cheia de referências à disputa que ele trava com o empresário do SBT. Passada em São Paulo, conta a história de uma grande corporação internacional, tocada por dois irmãos que se desentendem. Um continua a representar os interesses da empresa, enquanto outro se torna uma espécie de Robin Hood e passa a politizar um grupo de bandidos.Zé Celso colocou Aury Porto, a quem acha parecido com Silvio Santos, no papel do Cosme, um dos irmãos que defende o interesse da corporação. A família proprietária da empresa tem o sobrenome que significa Santos em alemão. O quadro de uma Monalisa, com a cara de Silvio Santos, uma espécie de Condessa Abravanel, também estará na peça, assim como uma máscara do apresentador.Na platéia, haverá desde os camarotes a preços salgados até os ingressos baratinhos, voltados para a população sem dinheiro. "Queremos misturar todos os públicos nessa peça. É isso também o que queremos criar na cidade, retomar a vocação do Bexiga, um bairro formado tanto por ex-escravos como pelos imigrantes italianos", conta o diretor.Em Os Sertões, peça que tratava dos grandes massacres e da relação entre opressores e oprimidos, o coronel Moreira César, que comanda as tropas legalistas, também aparecia como Ricardo III e como Silvio Santos, representando assim os conflitos ocorridos em diferentes épocas e contextos. "O que está em jogo em São Paulo hoje? Queremos ter um centro de mistura, assim como o Rio de Janeiro tem a Lapa e a Bahia tem o Pelourinho", defende.O diretor critica a omissão do Estado. "Ajudamos o Oficina com o Programa de Apoio à Cultura e com auxílio anual para a manutenção do teatro", defende o secretário-adjunto da Cultura, Ronaldo Bianchi. "Mas não é o papel da secretaria intervir nessa questão urbana, que hoje se parece mais com o confronto entre israelenses e palestinos. Quando imaginamos que haverá acordo, volta tudo para a estaca zero".Para o diretor do Oficina, a falta de intervenção do governo nessas questões urbanas é que levou a cidade à sua atual condição caótica, na qual 10 mil dos seus 22 mil edifícios surgiram nos últimos 20 anos, seguindo os interesses do mercado e sem planejamento do Estado.

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