Retrato de um saque organizado

Retrato de um saque organizado

No painel político descortinado com maestria pela autora, uma impressão que fica é a de que o PT assimilou rapidamente os meandros da grande política

Marco Antonio Villa, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2010 | 00h00

É um ato de coragem a publicação de um conjunto de artigos (99 no total) com um amplo painel de 9 anos da vida política brasileira. Para muitos, artigos jornalísticos não resistem ao tempo. Ledo engano. Dora Kramer foge do episódico, do anedótico, para buscar no cotidiano da política as questões estruturais. Em uma das primeiras crônicas, a autora indica com sagacidade que a direita mais conservadora, em 2002, estava embarcando na candidatura Lula. Mas vai além da mera constatação: aponta que apoiam o candidato do PT porque consideravam que seria mais fácil manipulá-lo, mantendo intactas suas áreas de influência no aparelho de Estado. E, sem ser uma pitonisa do oráculo de Delfos, Dora acertou no alvo.

O foco da autora é Brasília, centro do poder político nacional. Suas crônicas têm como marca uma leitura crítica e independente da conjuntura política. Na maioria das vezes, acaba desagradando tanto governo como oposição. Não teme - e o próprio título do livro demonstra este objetivo (O avesso do poder) - enfrentar os poderosos do momento. Segue o bom caminho dos clássicos do nosso jornalismo político, como Carlos Castelo Branco. Para ela, "não se aperfeiçoa a democracia criminalizando o exercício de opinião".

Não é uma tarefa fácil acompanhar o cotidiano da política em Brasília. Ao longo das crônicas o leitor fica com uma sensação de vazio (algumas vezes de enjôo). Em poucas ocasiões, isto em 9 anos, ocorreu um debate político relevante. Na maioria das vezes, a autora tira leite de pedra. O conflito entre as correntes políticas que dão sustentação ao governo deveu-se à partilha da máquina estatal, não em razão de alguma questão programática. Infelizmente, temos um presidencialismo de transação, particularizado pelo saque organizado do Estado.

Dora Kramer, com um texto elegante, passeia pelas nulidades políticas do Planalto Central. Ouve, discute, polemiza, mas parece uma batalha, ao menos até o momento, fadada ao fracasso. É incrível a permanência dos escândalos, dos personagens e dos partidos, ao longo das crônicas. Os dirigentes sindicais das principais centrais passaram os 7 anos do governo Lula tendo problemas com a polícia e a Justiça. Foram acusados diversas vezes de terem desviado recursos (milionários) do FAT, como se o filme de Elia Kazan (Sindicato de ladrões) tivesse o Brasil como cenário.

Pelas crônicas vamos encontrando boas histórias. José Dirceu, por exemplo, ao sair da Casa Civil, em plena crise do mensalão, soprou para a imprensa que na Câmara dos Deputados seria uma espécie de líder do governo e estaria esquentando os motores para, no ano seguinte, ser eleito presidente daquela Casa. É inevitável lembrar da piada: o "consultor" esqueceu de combinar com os russos. Já o presidente Lula, em 2007, reunido com a direção do PMDB, admitiu que o partido poderia sim indicar o candidato que deveria lhe suceder. Sem o charme dos personagens de um certo filme de Francis Ford Coppola, os dirigentes peemedebistas fingiram que acreditaram. Afinal, para eles (e para todo sempre?) o que importava eram os rendosos cargos dos ministérios.

No painel político descortinado com maestria pela autora, uma - entre tantas - impressão que fica é de que o PT assimilou rapidamente os meandros da grande política. É claro que seus dirigentes tinham tido uma iniciação nestas práticas, ainda na vida sindical, mas foi em Brasília que aprenderam com mestres de reconhecida excelência na apropriação privada da coisa pública. É interessante comparar as crônicas durante o mensalão com outras, já no segundo governo Lula, que tratam das CPIs abortadas no nascimento e as que foram - depois de longa agonia - criadas mas amplamente dominadas pela base governamental. Desta forma - e foi uma lição do mensalão - constituíam as CPIs exigidas pela oposição, mas as inviabilizavam como instrumento de denúncia e de enfraquecimento do governo.

O livro de Dora Kramer é uma fonte importante para o futuro historiador que se debruçar para estudar a história política brasileira da primeira década do século XXI. A autora aponta nomes, práticas, fatos. Como historiador, fiquei curioso especialmente com a crônica de 8 de julho de 2005. De acordo com a autora, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, anotava em cadernos - tinha mais de uma dúzia preenchidos - o dia a dia do governo. Vale recordar que estávamos em plena crise do mensalão. Qual o destino dos cadernos? Serão publicados? Existem mesmo? Ou não passa de um típico blefe de advogado criminalista?

HISTORIADOR. PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS (UFSCAR)

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