Reverso não provocaria sozinho o acidente com o Airbus da TAM

Investigadores têm algumas certeza e muitas perguntas para responder sobre as causas da tragédia

Bruno Tavares, Eduardo Reina e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2022 | 00h00

Os investigadores das causas do acidente com o Airbus A320 da TAM já têm algumas respostas e muitas dúvidas sobre o que fez o avião se chocar com o prédio da TAM Express, matando mais de 190 pessoas. Sabe-se que um dos reversos da turbina, o direito, estava pinado (travado). O problema não impediria o avião de voar nem causaria sozinho o acidente. Seria necessário mais. Primeiro, um aeroporto com uma pista na qual o Airbus opera com pouca margem de segurança, como a de Congonhas, com seus 1.940 metros. Depois, era preciso que estivesse chovendo, deixando a pista escorregadia. Por fim, alguma falha humana, aliada a uma outra mecânica, que tornasse a tragédia provável. Três momentos são considerados importantes pelos peritos para analisar o acidente: a aproximação da aeronave e a decisão de pousar, o primeiro toque na pista e a decisão de arremeter e, por fim, a curva para a esquerda feita pelo avião, o que o fez passar por cima do gramado e bater com os pneus na borda da cabeceira. A seguir, os especialistas ouvidos pelo Estado comentam as principais dúvidas surgidas com o acidente. 1 O avião podia voar com um dos reversos inativos? Sim. Ele podia, pois tem os freios hidráulicos das rodas e os aerodinâmicos das asas tão potentes que fazem com que o reverso seja apenas algo a mais nesse conjunto. O Airbus tem um sistema de três tipos de freios hidráulicos. O primeiro é autobreak, que faz o avião parar de forma paulatina e automática. Se ele falhar, o avião tem outro sistema, que os pilotos devem acionar com o pé. Por fim existe um freio de emergência acionado com a mão. Um sistema chamado antiskid evita que o avião derrape, quando os freios são usados. Muitas pessoas pensam que os reversos têm um grande papel na aterrissagem: mas têm função secundária, não afetando a distância percorrida em mais de 10% a 20%, dependendo do modelo do avião. No Airbus, a falta do reverso com pista molhada aumenta a margem de segurança para o pouso em 55 metros. 2 O avião podia voar com um reverso inativo e pousar em Congonhas em dia de chuva? Sim. A distância necessária para frear um Airbus A320 fica em média em 1.300 jardas (cerca de 1.190 metros), dependendo do ângulo de aproximação do avião. A pista principal de Congonhas tem 1.940 metros. É desejável que a distância mínima para o pouso seja equivalente a, no máximo, 60% da pista total. Nesse caso, Congonhas está no limite. O piloto do Airbus da TAM sabia que a pista estava escorregadia, pois foi avisado pelo controle de aproximação do aeroporto. Os pilotos não relataram nenhum problema e decidiram pousar. O avião, segundo a Aeronáutica, tocou no solo dentro do limite, nos primeiros 300 metros da pista, pois foi filmado pela câmera 16, que fica no começo da pista. Aparentemente, algo fez o avião manter sua velocidade, provocando a arremetida. 3 Por que se diz que o reverso esquerdo estava aberto e quando ele abriu? O reverso abre quando o avião toca com os três trens de pouso no solo. A abertura do equipamento é programada no computador de bordo. O Airbus não tem manche, mas um joystick. "Até os aviões da geração anterior desse, se o piloto percebesse algo errado, apanhava o manche e assumia o controle. Agora, ele tem de programar um computador, que pode ou não aceitar o comando dado pelo piloto", disse um oficial da Aeronáutica ligado ao Departamento de Controle de Espaço Aéreo (Decea). As imagens feitas pela Infraero do pouso do Airbus mostram uma quantidade de água grande na turbina, o que indiciaria a abertura do reverso esquerdo - o que não estava pinado. 4 Se tudo estava, aparentemente bem até o toque no solo, por que muitos especialistas acham que o piloto arremeteu? Para muitos especialistas, é quase certo que o piloto tomou a decisão de arremeter porque não conseguir parar o avião. Para eles e para o brigadeiro Jorge Kersul Filho, chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), o comandante do Airbus acelerou após pousar em Congonhas. Isso seria um indício de que o piloto tentava arremeter. O outro indício é o fato de que, quando o Airbus virou à esquerda no fim da pista, ele não deixou marcas do trem de pouso da frente do avião (bequilha). Isso indicaria que ele havia levantado o bico e apenas raspava as rodas das asas no solo, como acontece nas decolagens. 5 Por que o piloto arremeteria após após tocar o solo e, provavelmente, abrir um dos reversos? Especialistas dizem que é necessário esperar a abertura da caixa-preta com os dados técnicos do avião para responder a essa pergunta. Os dados da caixa devem explicar por que o piloto não freou a aeronave, apesar de todos os sistemas existentes para parar o Airbus. É possível que tenha ocorrido uma falha em algum sistema do avião de frenagem - os freios mecânicos, por exemplo - o que levou o piloto a concluir que seria impossível parar. Dificilmente, ele cometeria o erro de avaliar mal o local da pista onde pousara, pensando tê-la tocado além do limite seguro para o pouso. 6 O piloto podia ter arremetido antes do pouso? Sim, mas o problema no avião pode ter surgido só depois de ele pousar. Também pode ter havido conflito na cabine. O co-piloto pode ter desejado arremeter antes, mas o comandante achou que não. 7 Uma aquaplanagem pode ter provocado o acidente? Ela não é impossível, mas é pouco provável que ela se estendesse por toda a extensão da pista, mesmo sem o grooving, espécie de ranhuras transversais no concreto da pista. A ausência dele afeta a drenagem da água. Mas, em caso de aquaplanagem, o avião não teria passado reto, mantendo sua direção em boa parte da pista, até o trecho final, quando ela virou à esquerda. O avião teria rodado e ficado ali, sem começar a ganhar sustentação, como parece ter sido o caso antes de cair no prédio da TAM Express. 8 O sistema de aceleração pode ter travado? É improvável que isso tenha ocorrido, pois aviões modernos como o Airbus têm um sistema de duplo comando. 9 Se o avião começou a acelerar para decolar e não mudou de rumo, por que o Airbus virou à esquerda no final da pista, atravessou o gramado e saiu pela área de taxiamento? Antes de tudo, em caso de arremetida, o comandante deve manter uma trajetória reta. Assim, uma falha em algum equipamento é a hipótese mais forte investigada pela Aeronáutica para responder a essa pergunta. O suspeito principal é o reverso, mas outras falhas podem ter ocorrido, como a turbina direita ter ganho mais potência do que a esquerda, desviando o Airbus para a esquerda. Algum outro sistema de freio como o reverso pode ter entrado em ação, provocando um arrasto maior do lado esquerdo. Flaps ou leme podem gerar esse efeito. Uma aquaplanagem nesse ponto em que o avião está praticamente decolando é pouco provável, mas não está descartada. 10 Por que o reverso é a principal hipótese para explicar essa guinada à esquerda? Primeiro porque se sabe que o reverso direito estava inativo enquanto, aparentemente, o esquerdo funcionou no pouso. Enquanto o avião está freando não há problema nisso, pois ele está perdendo potência no motor. O reverso inativo também não causaria problema na decolagem normal, pois o avião parte com o reverso fechado. Só haveria problema no caso de uma arremetida. Nela seria preciso recolher o reverso e dar potência na turbina, o que só pode ser feito depois de o reverso ser fechado. Com o esquerdo aberto, é possível que a turbina direita tenha adquirido força antes da esquerda, que teve de esperar o fechamento do reverso. Isso pode ter criado a assimetria - mais força de um lado do que de outro - que, segundo os especialistas, empurrou o avião para a esquerda. Os sistemas do Airbus são programados para dar potência nas turbinas só após o fechamento do reverso. Mas nada impede que um um cabo ou um rele defeituoso tenha mantido o equipamento aberto. 11 É possível, apesar das evidências, que o piloto do avião não tenha arremetido Airbus? Sim. Em tese é possível, apesar de a maioria dos especialistas considerar pouco provável. Há, no entanto, quem diga que o piloto não acelerou, apenas não conseguiu parar o avião. Consideram que a curva à esquerda no fim da pista tenha sido uma manobra in extremis, um cavalo de pau para segurar o avião. 12 Houve falha humana no caso? Não se sabe. Segundo os especialistas, um piloto poderia recolher o reverso, ganhar potência na turbina para arremeter, mas dificilmente teria tempo hábil para executar essa manobra, considerada incomum. Isso não significa que um erro humano não tenha sido responsável pelo fato de o avião não parar e por ter virado á esquerda. Hesitações, decisões erradas ou conflitos entre os pilotos na cabine podem ter contribuído para o acidente. As gravações das câmeras da Infraero mostram que o piloto teve, de fato, pouco tempo para reagir ao problema. Elas mostram que o Airbus da TAM percorreu trecho da pista em três segundos, enquanto avião do mesmo porte percorreu o mesmo trecho pouco antes do Airbus em 12 segundos. 13 O avião estava acima do peso? Não, segundo a TAM. O brigadeiro Renato Cláudio Costa pereira, ex-secretário-geral da Organização Internacional de Aviação Civil (ICAO, na sigla em inglês), acredita na possibilidade de algum problema ligado ao peso e balanceamento da aeronave criado pela desestabilização do Airbus no pouso, por causa da pista encharcada. 14 Uma pista maior impediria o acidente da TAM? É muito provável, pois, com mais espaço para frear e diminuir sua velocidade, o piloto do Airbus teria mais segurança para pousar. 15 Houve explosão na turbina? Há a hipótese de o equipamento ter sido sobrecarregado quando o piloto colocou potência máxima, o que teria ultrapassado o limite da turbina. 16 O avião acidentado passou por procedimentos de manutenção periódicos? Sim, segundo a TAM. A empresa informou que a aeronave prefixo MBK foi incorporada à frota da empresa em 2006 e estava com 26.320 mil horas de vôo. A última revisão de linha (check-A) foi realizada em 13 de junho de 2007 e a estrutural (check C) em 27 de novembro de 2006 com vencimento previsto para julho de 2008. Há 20 dias, o MBK teve uma problema no sistema hidráulico de freio, que teria sido sanado. Na sexta-feira, o mesmo avião teve um problema no reverso direito, que foi travado. Esse problema não faz parte dos que são considerados no go, ou seja, que impedem a decolagem do avião. A empresa tem 10 dias para consertá-lo. 17 O sistema de pouso por instrumentos de aeronaves (ILS) de Congonhas estava funcionando? Um erro do controle de vôo causou o acidente? A pista 35 (proa 350, sentido Jabaquara-Moema) não tem esse equipamento em Congonhas, só a pista 17 (Moema-Congonhas). Além disso, é decisão do piloto pousar sem ILS. A câmera 16 da Infraero mostra o avião no começo da pista de Congonhas, o que confirma que o Airbus não pousou atrasado. Aparentemente, o avião já estava no solo, quando a tarefa do controle de vôo estava concluída, quando o problema surgiu. Por isso, seria pouco provável uma falha da torre.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.