Revistas de Lupi encalham, e R$ 150 mil se perdem

No depósito da antiga gráfica do Ministério do Trabalho, 686 caixas com 55.320 exemplares juntam poeira e assessor diz que não sabe explicar por quê

MARTA SALOMON / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

05 Outubro 2011 | 03h06

No subsolo do anexo do bloco F da Esplanada dos Ministérios, 686 caixas juntam poeira na antiga gráfica do Ministério do Trabalho, fechada há dois anos. Nesse período, foram se acumulando ali "sobras" da Revista Trabalho, impressa em papel cuchê, ao custo estimado de R$ 2,70 por exemplar, numa gráfica privada. O tamanho do desperdício se aproxima de R$ 150 mil.

"Sinceramente, não sei como explicar isso", disse Max Monjardim, assessor especial do ministro Carlos Lupi, um dos integrantes da executiva nacional do PDT nomeados para o comando do Ministério do Trabalho. Monjardim assina a coordenação editorial do projeto. A revista é uma publicação trimestral.

Na véspera, Monjardim havia respondido que o ministério mantinha exemplares em número reduzido. "Apenas o suficiente para o arquivo ou demanda extra", informou a assessoria de imprensa, por orientação do assessor especial. Os exemplares não distribuídos representariam "cerca de 3%" da tiragem. Cada edição foi impressa ao custo de R$ 160,6 mil, segundo o ministério. Monjardim calculou que estariam no depósito 1.800 exemplares de cada uma das sete edições impressas na Gráfica e Editora Brasil.

O Estado fotografou o depósito com pilhas de caixas com exemplares da Revista Trabalho impressos desde 2009. O depósito, identificado com o aviso "gráfica fechada", é protegido por cadeado e foi aberto por um funcionário. As contas do ministério e da reportagem se desencontravam.

Na terça-feira, 4, Monjardim mandou um funcionário contar o material logo cedo. O funcionário listou 686 caixas, contendo 55.320 exemplares de sete edições diferentes. Há no depósito 42.420 revistas a mais do que a "reserva técnica" necessária. O menor encalhe é de 5.500 exemplares, do número 8 da publicação. O número anterior registrou o maior encalhe: 10.200 exemplares.

Com os números à mão, Monjardim não soube explicar a cena registrada no depósito localizado no subsolo do Ministério do Trabalho. "Vou sentar com os Correios (estatal responsável pela distribuição das revistas) para tentar entender o que aconteceu", disse.

Mapa. O mapa da distribuição mostra que a maior parte das edições se destina às secretarias regionais do trabalho nos Estados. Também recebem exemplares os governadores, os 594 deputados e senadores e todos os prefeitos do País. O documento aponta uma sobra de 8.700 exemplares para uma edição de 60 mil. Um dos números da revista teve edição ampliada para 70 mil exemplares. "Não me lembro de ter autorizado isso", disse Monjardim.

A edição que acumula a maior sobra dedica sete páginas às oportunidades de emprego criadas pelas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia. Com o texto principal intitulado Um rio de oportunidades, começou a circular logo depois do quebra-quebra nos canteiros de obras de Jirau, que levou a Força Nacional de Segurança ao local, por conflitos trabalhistas.

São fartas, ao longo das edições, as imagens do ministro Carlos Lupi. Na edição de número 9, que circulou no início de 2011, Lupi aparece na região serrana do Rio de Janeiro, sua base eleitoral. "Ministro Lupi dedicou boa parte de sua agenda em fevereiro em apoio às vítimas de uma das maiores tragédias naturais do País", informa a revista com destaque na sessão Agenda do Ministro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.