''''Revolta é pouco'''', diz vítima de promotor

Rapaz diz que ficou ?anestesiado? ao saber que Schoedl segue no MP

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

07 Agosto 2031 | 00h00

Felipe Siqueira Cunha de Souza, de 23 anos, faz faculdade de Relações Internacionais, estágio na Secretaria Estadual de Ensino Superior e aulas de italiano. Mas ontem, durante o dia inteiro, Felipe não fez absolutamente nada - ficou trancado em casa, vendo televisão, esperando as horas passarem um pouquinho mais depressa. Ferido gravemente por quatro tiros dados pelo promotor agora vitaliciado no cargo Thales Ferri Schoedl, o estudante teve de reviver todos os momentos de recuperação e tristeza por que passou nos últimos 32 meses."Eu ainda estou tentando levar uma vida normal. Mas, quando vi no jornal que o Thales não foi exonerado pelo Ministério Público, simplesmente fiquei anestesiado", diz ele. "É difícil explicar o que estou sentindo, colocar em palavras. Revolta é pouco. Isso é corporativismo, ninguém vê isso? Não tem um dia em que eu não me lembre daquela noite, não tem um dia em que não passe um filminho pela minha cabeça. Mas a vida segue, ela precisa seguir mesmo que o Thales saia impune dessa. " O crime ocorreu no dia 30 de dezembro de 2004, a 30 metros da orla da Praia de Riviera de São Lourenço, em Bertioga, no litoral de São Paulo. Felipe conta que estava dentro do seu carro com o amigo Diego Mendes Modanez quando ouviu uma discussão. "Era o Thales discutindo com um grupo de dez pessoas, que eu nem conhecia", conta. "Puxa, era véspera de Ano Novo, época de festa, nós fomos lá para tirar o cara da briga, até porque ele estava sozinho e ia apanhar. Só que ele começou a discutir comigo. Quando vi, ele estava apontando um arma para mim. Fiquei paralisado. Depois disso, só tenho flashes do que aconteceu."O estudante tomou dois tiros no peito, um no braço e outro na perna. A cicatriz da altura do umbigo até o ombro é resultado da cirurgia de emergência por que teve de passar. Quando estava na UTI do hospital, logo depois de acordar, viu na televisão que seu amigo Diego havia morrido com dois tiros no abdome."O que mais me revolta é que o Thales inventou uma grande fantasia, dizendo que nós somos os vilões da história", diz. "E o Diego nem pode se defender. O Diego era um cara de paz, isso é o que mais me dói. Eu tento ter uma vida normal, meus pais e meus amigos me ajudam muito. O problema é na hora de dormir. Por mais cansado que eu esteja, não consigo me acalmar, não consigo parar de pensar no Diego. E isso vai ser para o resto da vida, não tem jeito."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.