Ribeirinhos resistem, por medo de talvez nunca voltar

Enchente atinge bairros ricos e pobres de Teresina (PI) e um dos shoppings locais está fechado desde segunda

Ricardo Brandt, TERESINA, O Estadao de S.Paulo

06 de maio de 2009 | 00h00

O sorriso forçado, que tenta disfarçar a tristeza, não deixa dúvidas. Astrogildo Rodrigues Pimentel, de 34 anos, está envergonhado por não ter conseguido vencer as águas do Rio Poti. Raiva? "Não, culpar quem?", lamenta, vencido pela enchente que tomou sua casa e seu comércio, que conseguiu abrir na Vila Ferroviária, depois de 13 anos de batalha, na capital Teresina (PI). No fim da tarde de ontem, o comerciante e a mulher ajudavam os soldados do Exército a colocar os últimos pertences no caminhão. A família Pimentel é uma das atingidas pela maior enchente da história do Rio Poti, que juntamente com o Parnaíba, cercam Teresina. Em um dia, o número de famílias atingidas pela enchente praticamente dobrou no Estado. A Defesa Civil registrou 49 mil pessoas afetadas, que tiveram de deixar as casas.As chuvas dos últimos dias deixaram o Estado em alerta total. Ontem as aulas na rede estadual foram suspensas, se decretou ponto facultativo e a população foi orientada ostensivamente pelas autoridades locais a não sair de casa. O governador Wellington Dias (PT) afirmou que pelo menos 4 mil famílias perderam as casas e os estragos provocaram problemas em 61 cidades. O quadro é crítico em 19, onde estão concentrados os desalojados (que foram para casas de amigos ou parentes) e os desabrigados (que são acolhidos em ginásios, igrejas, centros sociais e escolas, de forma improvisada). Falta tudo, mas a desgraça parece corriqueira para os desabrigados.Mas eles não são os únicos afetados. A mais preocupante enchente enfrentada pelo Piauí desde 1985, desta vez, foi democrática. Atingiu bairros ricos e pobres. Áreas da zona lesta da capital Teresina, por exemplo, onde mora a elite local, têm vários pontos de alagamento e alguns acessos estão interditados. Até um dos shoppings do bairro está com as portas fechadas desde segunda-feira. Desde aquele dia, o quadro de atingidos, as notícias de transbordamento de açudes e os pedidos de socorro só aumentam. "Estamos trabalhando há quatro dias, sem descanso, para contornar essa situação", diz o major John Feitosa da Silva, coordenador da Defesa Militar e da Defesa Civil da prefeitura."Nós resistimos até hoje (ontem) para ver se o rio iria voltar ao normal", afirma Pimentel, conformado com a tragédia. Seus pertencentes serão levados para a casa de um parente. Sua mulher, o filho de 3 anos e ele vão juntos. Como vivem em áreas ribeirinhas, pode ser que nunca retorne para casa ou volte a abrir o comércio. É esse o motivo também que alimenta a resistência de muitas famílias de deixarem suas casas. O medo de talvez nunca voltar.Poucos metros distante dali, a doméstica Socorro Moreira, de 51 anos, observa, segurando a bicicleta cheia de barro. "Eu, minha mãe de 88 anos, um filho e meu marido tivemos de deixar nossa casa", parte logo a contar, apontando o muro com a água pela metade. Mas não veio matar a saudade. "Vim olhar se ninguém vai entrar na casa para roubar." A Defesa Civil disponibilizou homens para tentar evitar problemas, mas eles ocorrem. Ontem, a polícia foi surpreendida com o comunicado de que além dos saques às casas vazias, uma pessoa foi vista usando um jet ski nas áreas alagadas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.