Rindo se castigam os costumes da política

As letras de rock deram lugar ao teatro de humor que ganha os palcos do País

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

Em meio século de vida cultural, Brasília importou cabeças pensantes ? dublês de funcionários públicos ? e, nos anos 80, viu estourar a irreverência dos filhos do poder em letras que marcaram o rock nacional. Hoje, numa época varrida por um dos escândalos mais bem filmados de todos os tempos, que rendeu momentos como a "oração da propina", "o deputado da meia" e o governador preso, o humor do DF vive um ótimo momento. Como no adágio latino, a capital castiga os costumes com o riso (ridendo castigat mores).

Representado pelos grupos "Os Melhores do Mundo", o "G-7", "De 4 é Melhor" e a "Cia. de Comédia Setebelos", o Planalto Central ganha projeção com artistas que fazem gargalhar. A turbulência política virou farta matéria-prima de piadas, cujos alvos são José Roberto Arruda e seu antecessor, Joaquim Roriz (o ex-governador da bezerra, que virou senador e depois renunciou). Ainda sobra espaço para menções a Sarney, Collor e outros, independentemente de coloração partidária.

"Enquanto o humor nordestino é calcado em criar tipos, o brasiliense se volta para uma crônica social. Não é muito pastelão, é mais político", diz o veterano Alexandre Ribondi, um dos principais nomes do cenário teatral candango. Recentemente, ele reencenou As invejosas, espetáculo que incorporou até a Caixa de Pandora, nome da operação da PF que desbaratou o mensalão do DEM. "A peça respira esse escândalo político. As pessoas se sentem tão humilhadas que precisam ir ao teatro para rir."

"Como ETs". Dos grupos locais em atividade, "Os Melhores do Mundo" é aquele que mais êxito obteve fora do DF, com participação em programas da TV Globo (Zorra Total e Fantástico) e turnês pelo País e em Portugal. "Toda vez que falamos que o grupo é de Brasília, nos olham como se fôssemos ETs", diz Ricardo Pipo. "E toda matéria jornalística que sai nos grandes centros urbanos começa assim: "Brasília não é feita apenas de corrupção e escândalos..."

Os espetáculos não se restringem ao cenário político, mas a crítica está lá, bem-humorada. Quando o "mensalão do DEM" veio à tona, por exemplo, foram levados ao palco a "oração da propina" e uma espécie de sósia de Durval Barbosa, o delator do esquema. "Como moramos no olho do furacão, respiramos essas notícias", diz Pipo.

Na peça Eu odeio meu chefe, do G-7, alguns dos melhores momentos estão na imitação do ex-governador Roriz. "A plateia transforma a indignação em comédia e extravasa toda a sua indignação", diz o ator Rodolfo Cordón. Em A comédia como ela é, também do G-7, a paródia de Romeu e Julieta apresenta as famílias rivais Arruda Montecchio e Capuleto Roriz.

Zombando do ridículo. Na opinião do produtor e diretor James Fensterseifer, o teatro de Brasília não chega a ser engajado. "Não é político no sentido de levantar bandeiras, e sim o teatro zombando a política por ser ridícula." Como exemplo, ele cita as imagens do ex-presidente da Câmara Legislativa, Leonardo Prudente, flagrado colocando maços de dinheiro na meia.

"Se um diretor botasse aquilo em um roteiro, iriam criticá-lo, dizendo que não há verossimilhança. É cinema de pornochanchada." Do atual boom de humor no DF, Fensterseifer destaca a questão do público. "Se a comédia carioca vem a Brasília, tem de ter um global para fazer sucesso. A maioria desses grupos locais não tem artista famoso e mesmo assim os teatros ficam lotados."

Ser capital da República não basta para Brasília, que, enfim, pode se gabar de ser também a capital do riso ? e, desta vez, o título não vai para seus políticos.

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