Rio de Janeiro tem 12 policiais mortos em oito dias

Com a morte do sargento Ailton Lima da Fonseca, atingido por um tiro de fuzil na noite de quinta-feira, 15, durante operação na Favela da Metral, na zona oeste do Rio, a cidade contabiliza 12 policiais mortos em oito dias.Só na quinta-feira, foram dois policiais militares mortos na cidade. Durante a manhã, em operação na Favela de Vigário Geral, o soldado Elson Rente, de 30 anos, foi atingido por seis tiros no tórax e na cabeça. Na quarta-feira, o sargento Jorge Ulisses Fernandes Vietas, de 53 anos, foi morto durante assalto na Penha, na zona norte do Rio.VersõesHá duas versões para a morte de Rente. Uma delas está relacionada com a operação que a Polícia Civil comandou na manhã de quinta-feira, quando cerca de 200 policiais ocuparam a Favela de Vigário Geral atrás de traficantes, revistando até crianças. Mais de 20 pessoas foram detidas, incluindo cinco suspeitos de participação nos ataques contra o Estado entre os dias 28 e 31 de dezembro. Naquela ocasião, 18 inocentes morreram, bandidos queimaram ônibus e metralharam delegacias. Junto aos 200 policiais que invadiram a favela na quarta, um informante levava as equipes até os suspeitos e ao local onde uma quadrilha armazenava armas e drogas.Pelo caminho, até crianças eram revistadas. Dois menores foram detidos. Um deles era procurado por ter baleado acidentalmente, quando limpava a arma, o primo Jessé Arivaldo, de 6 anos, em novembro. O outro, de 9 anos, foi pego com sua avó. Segundo a polícia, um bandido abordou a família nas ruas da favela e colocou a arma na mochila da criança. Avó e neto foram liberados à tarde.Foram apreendidos 20 quilos de maconha, 300 papelotes de cocaína, duas pistolas, seis granadas e uma espingarda. Preso como chefe do tráfico em Vigário Geral e em oito favelas da Baixada Fluminense, Gilberto Soares Alves, o Caveirinha, de 32 anos, negou participação nos crimes. DetidosAcusado pela polícia de ?matador de policiais? e de estar com munição para pistola 9 mm nos bolsos, o educador social da ONG Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social (Ibiss), Leonardo Rodrigues dos Santos, de 24 anos, também negou as acusações. ?Nada foi encontrado nos meus bolsos? disse o rapaz, que tinha a camisa e a calça ensangüentadas. Segundo o delegado, Santos se feriu ao tentar fugir. O acusado disse que um policial fez um corte em sua mão ao cortar as algemas de plástico. A ONG confirmou que Santos é inocente. ?Ele é professor da escolinha de futebol. Não acreditamos no envolvimento dele em crimes?, disse o diretor da ONG, o holandês Nanko Van Burren. Os outros três acusados não quiseram comentar o assunto. Até as 20h40, várias pessoas eram interrogadas. A polícia não descarta que, além dos cinco acusados pelos ataques, outros entre os 20 detidos ficassem presos. Muitas famílias foram para a porta da Polinter, na zona portuária do Rio, em busca de informações. O delegado-titular da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae), Carlos Alberto Oliveira, exibiu para a reportagem imagens de alguns dos acusados em filmagens realizadas com uma microcâmera nos últimos dias. Nas imagens, traficantes circulam de fuzis entre crianças e vendem drogas sem constrangimento. Segundo a polícia, os traficantes foram surpreendidos fora de seus postos e, por isso, não houve tiroteio. ?Tivemos informações que os ataques do ano passado foram planejados em reuniões em Vigário Geral - e que estes bandidos teriam participado dos crimes?, declarou Oliveira.Onze mortosPela primeira versão para a morte de Rente, ele foi baleado por traficantes que fugiam da ação policial em Vigário Geral. A outra versão é a de que ele foi recebido a tiros ao atender, com um colega, a uma ocorrência de assalto em uma transportadora de valores, no Jardim América, próximo da favela. Funcionários da empresa teriam sido obrigados pelos bandidos a abrir o portão de ferro para os policiais, só para que eles fossem metralhados no pátio.Décima vítima, o sargento Fernandes morreu ao reagir ao assalto quando estava em seu carro particular. Levou nove tiros. No enterro dele, realizado ontem, a filha Carolina chorava abraçada ao quepe do pai. A família não falou com a imprensa.CPIDepois de arquivar o pedido de abertura da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a participação de policiais nas milícias, a Assembléia do Rio instaurou ontem uma CPI apurar a causa da morte de policiais e a situação de seus familiares. O presidente da comissão, o deputado estadual Coronel Jairo (PSC), não soube dizer quem será ouvido.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.