Rio de Janeiro vive dia de pânico

O Rio de Janeiro viveu nesta segunda-feira um dia de insegurança, pânico e terror, supostamente imposto por traficantes de drogas da facção criminosa Comando Vermelho. Em muitas áreas da Região Metropolitana houve ordem explícita para comércio, escolas, universidades, e agências bancárias fecharem as portas e dispensar funcionários, sob a ameaça de represália dos bandidos.Apesar da presença da Polícia Militar, 22 bairros do Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo e da Baixada Fluminense ficaram quase desertos, até mesmo em áreas nobres, como Ipanema e Leblon, na zona sul. Milhares de pessoas deixaram de trabalhar. Três coletivos foram incendiados por bandidos, e um, depredado, em diferentes pontos do Rio, segundo o Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários.Empresas de ônibus da capital retiraram de circulação 20% da frota, com medo de ataques violentos. Dezenove suspeitos, 11 menores, foram presos quando ameaçavam comerciantes ? um deles detido pela juíza aposentada e candidata a deputada federal Denise Frossard (PSDB), ao tentar fechar seu comitê de campanha.O medo generalizado foi alimentado por trotes. Um prédio no centro da capital teve de ser evacuado por causa de uma falsa ameaça de bomba. A intimidação a comerciantes começou no início da manhã desta segunda. ?Se deixar aberto, vou jogar uma bomba aí dentro?, gritou um rapaz na garupa de uma moto aos funcionários de uma padaria em Ramos, na zona norte.O bairro, onde fica o Complexo do Alemão, está acostumado aos desmandos dos criminosos, que freqüentemente determinam o fechamento do comércio em luto pela morte de traficantes. Entre os transeuntes, o clima era de surpresa e revolta. ?Não podemos ficar reféns de um bando de traficantes, é uma inversão de valores. Esse clima de terror não pode acontecer, tem de ser expurgado, e a população tem de se rebelar?, disse o advogado Alcir Barbosa.Na Tijuca, que já enfrentou situações semelhantes, um homem entrou em um salão de beleza, que havia cerrado apenas uma das portas, e ameaçou uma cabeleireira. ?Não vai fechar tudo, não? Acho bom fechar, que o morro vai descer.? Na rua Conde de Bonfim (Tijuca), duas bombas explodiram, provocando correria e pânico.No alto dos morros, muitos fogos ? recurso normalmente utilizado quando a polícia faz incursões de repressão à venda de drogas. De acordo com lojistas, rapazes suspeitos caminhavam pelas vias do bairro, falando ao telefone celular, aparentemente observando os estabelecimentos que continuavam abertos.Lojistas de Madureira (zona norte do Rio) foram surpreendidos pela manhã por cartazes ameaçadores em suas portas. Escritos a mão com pilot colorido em folhas de caderno, os panfletos traziam a assinatura das facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC), predominante em São Paulo. ?Mantenha as portas fechadas, ou haverá represálias. CV e PCC.?Policiais militares arrancaram os avisos no início da manhã. No prédio em que funciona o Ministério Público Federal, no centro do Rio, foi pichada a inscrição ?Poder paralelo? no terraço. Apesar de a PM ter anunciado que 13 mil policiais estavam fora dos quartéis para garantir a ordem nas ruas ? o trabalho administrativo foi suspenso ?, muitos comerciantes reclamaram que não se sentiam seguros para trabalhar.?Hoje a PM está na rua, mas e amanhã? Quem poderá garantir nossa segurança??, indagou o dono de uma padaria de Botafogo, na zona sul. ?É um efeito cascata: se um fecha, também fecho, não vou me arriscar sozinho.? Houve quem suspendesse o expediente por causa de boatos de que os bandidos desceriam armados das favelas; outros pararam de trabalhar só porque as lojas vizinhas haviam fechado.A Polícia Federal está investigando a origem dos boatos. Em Laranjeiras, Cosme Velho, Leme, Copacabana, Ipanema, Leblon ? na zona sul, região onde nunca havia ocorrido situação semelhante ?, comerciantes também não quiseram arriscar. A Visconde de Pirajá, principal rua de Ipanema, ficou quase deserta. Lojistas disseram que, por volta das 7 horas, três menores que seriam mensageiros dos traficantes passaram pelos estabelecimentos avisando que os bandidos haviam ordenado o fechamento de todo o comércio. A Avenida Nossa Senhora de Copacabana, onde se concentram centenas de lojas, também viveu dia de feriado. ?Trabalho na zona sul há 25 anos e é a primeira vez que vejo essa pouca-vergonha. É inacreditável isso estar acontecendo, em plena segunda-feira, num bairro como Copacabana. O Rio se transformou na Colômbia?, disse o funcionário de uma farmácia.De manhã, circulou o boato de que a ordem teria partido do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, preso no Batalhão de Choque da PM. O advogado do bandido, Lydio da Hora, negou a versão. Os representantes dos outros bandidos presos no BPChoque, Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, e Márcio Nepomuceno, o Marcinho VP, também disseram que seus clientes nada tinham a ver com o episódio.Assustados, pais buscaram filhos em escolas públicas e particulares, que encerraram as atividades do turno da manhã mais cedo e cancelaram as aulas do turno da tarde. Na Universidade Estácio de Sá, no Rio Comprido, também na zona norte, 3,3 mil alunos ficaram sem aulas. A reitoria ficou com medo porque ocorreram três explosões perto do prédio, no início da manhã.Agências do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) no Centro, Copacabana e Japarepaguá (zona oeste) fecharam as portas por volta das 11 horas temendo tumultos. A superintendência do órgão informou desconhecer o fato. Centenas de postos de gasolina deixaram de funcionar, segundo o sindicato que reúne os estabelecimentos.

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