MARCIO FERNANDES/ESTADAO
MARCIO FERNANDES/ESTADAO

Rio Doce terá dois depósitos de lama para evitar rompimento de barragem

Mineradora Samarco está construindo dois diques com estruturas metálicas para conter sedimentos liberados pela Barragem do Fundão a fim de impedi-los de chegar ao mar; objetivo é terminar as obras antes que as chuvas de verão tragam mais rejeitos

Bruno Ribeiro e Márcio Fernandes, Enviados Especiais

02 Novembro 2016 | 03h00

MARIANA - O vaivém de caminhões não para. Funcionários a serviço da mineradora Samarco abrem e fecham a estrada de terra que liga o município de Rio Doce à usina hidrelétrica de Candonga, para controlar o trânsito. Ali, dois diques estão sendo construídos para conter a lama e aliviar as estruturas da represa. Se romperem, já há um vilarejo apontado como “a próxima Bento Rodrigues”: Santana do Deserto, uma vila de pescadores que seria levada pela lama. 

Feitas para bloquear o curso da água do rio, as paredes de concreto da usina estão segurando 13 milhões de m³ de lama que vazaram da Barragem do Fundão, em Mariana, cuja ruptura, em 5 de novembro de 2015, deixou 18 mortos e um desaparecido. Estimativa da Samarco aponta que 80% da lama está concentrada até essa parte do Rio Doce. O temor da população é que a usina se rompa, ampliando o desastre que já tira a renda de moradores da região. As estruturas da represa são monitoradas tanto pelo Consórcio Candonga, dono da usina hidrelétrica, quanto pela Samarco.

Dois diques estão sendo erguidos com areia e pedras trazidas pelos caminhões. Para conter o avanço dos sedimentos da Samarco em direção ao mar, o Rio Doce, que fornece água para 27 cidades, terá dois depósitos de lama. Segundo a empresa, os diques serão estruturas permanentes. “Elas são metálicas, com características similares às estruturas usadas na construção de portos e atracadouros de navios”, diz a Samarco, em nota. “Ficarão submersas quando o reservatório da usina hidrelétrica for novamente enchido.” 

Um deles, a “Barreira A”, ficará 14 metros abaixo da lâmina d’água e está previsto para o ano que vem. O outro dique, a “Barreira B”, vai ficar 9 metros abaixo da lâmina e deve ser finalizado no mês que vem. Foi nesse trecho do rio, onde está a represa, que a maioria dos 18 corpos das vítimas das barragens da Samarco foi localizada. A lama parada ali vem sendo drenada pela empresa, enquanto as comportas de Candonga permanecem abertas. Há pressa, uma vez que chuvas do período devem trazer mais rejeitos.

A Samarco quer retirar a lama que se acumula nos depósitos artificiais. Desde julho, ela usa duas dragas, que tiram até 5 mil m³ de rejeitos por dia. A hidrelétrica está com as atividades paralisadas desde a tragédia. A energia produzida ali era distribuída entre empresas consorciadas. Além da própria usina, o prejuízo ficou para a cidade de Rio Doce, que recebia royalties da energia. Até agora, a Samarco se comprometeu a gastar R$ 20 bilhões na recuperação da região e com indenizações.

Temores. A vila de Santana do Deserto, que faz parte do município de Rio Doce, tem menos de 200 moradores. São apenas duas ruas, paralelas, cercadas por fazendas de um lado e o rio do outro. Para chegar lá, só pela estrada de terra, que contorna a usina. Lá, agora, há uma sirene de emergência, para tocar caso a barragem rompa. Placas de sinalização indicam a rota de fuga. Há três meses, os moradores passaram por um treinamento sobre como agir, caso ela seja acionada. Foi feita uma palestra e distribuídos panfletos.

“Disseram que, caso a sirene toque, devemos ir para a praça”, diz a professora aposentada Maria Vera Vieira Leandro, de 63 anos, indicando um ponto localizado na parte mais alta da vila. “O pessoal fica assustado, mas eu não acho que vai acontecer novo acidente”, diz. “Se bem que não dá para confiar muito, né? Olha o que já aconteceu.”

Ela brinca com o nome da vila. “Está um deserto mesmo”, diz a professora. Segundo Maria, antes da tragédia, os pescadores estariam trabalhando e, em uma tarde de sexta-feira, como quando o Estado esteve ali, o local teria gente nas ruas. “Ninguém nunca mais pescou. Quem iria comprar os peixes?”, afirma a dona de casa Raimunda de Brito Riva, de 66 anos. 

“As pessoas estão recebendo o cartão da Samarco para não passarem necessidade”, diz o motorista Mario do Nascimento, de 46 anos. “Mas o povo não sabe como vai ser: se isso será para sempre, se vão limpar o rio, se vão voltar a trabalhar. Por aqui, a gente ainda espera.

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‘Faz um ano que não trabalho’, afirma pescador do Rio Doce

Reis havia economizado R$ 4,7 mil para comprar barco e redes um mês antes da tragédia; hoje, vive da bolsa da Samarco

Bruno Ribeiro e Márcio Fernandes, Enviados Especiais

02 Novembro 2016 | 03h00

MARIANA - “Sou o único pescador profissional daqui”, conta, com orgulho, Juliano Conegundes Reis, de 39 anos. Ele mora em um lugar lindo: duas montanhas de grama verde, usadas como pasto, convergem para um chão de pedras que, com a água, brilham. É ali que o Rio Piranga se encontra com o Rio do Carmo, fazendo nascer o Rio Doce. “Mas faz um ano que não pesco”, diz, já com um pouco de raiva na voz. Reis vive em uma pequena vila, com apenas cinco casas, habitada por gente que trabalha nas roças da região, pouco antes da chegada a Rio Doce. 

Nascido em Ponte Nova, ele se mudou para Rio Doce em 1996. “Conheci minha mulher e comecei a namorar. Então consegui emprego em uma fazenda aqui perto, para ficar junto dela.” Eles se casaram três anos depois. Têm dois filhos. “Um deles é especial”, conta. “Eu fazia um monte de serviços diferentes, e também pescava. Então, há quatro anos, me tornei pescador profissional. Tirei toda a documentação pelos Correios.” 

Com os documentos na mão, foi viver do rio, despreocupado. “Vendia os peixes em Rio Doce, Ponte Nova, até Mariana”, distante cerca de uma hora e meia dali. O ofício foi próspero o bastante para ele seguir com planos de expansão. “Eu já tinha juntado R$ 4.700. Ia comprar 4 mil metros de rede e um barco a motor. Estava tudo planejado para outubro do ano passado. Ainda bem que esperei um mês”, afirma. Naquele mês, há um ano, sua vida mudou para sempre.

Cenário de destruição. “A gente viu a lama chegando com tudo, fomos para o alto do morro e só olhamos”, conta Reis. As ondas de lama provocaram a maior enchente que ele e os vizinhos já tinham visto. Madeira, entulho, peixes mortos, gente. Tudo foi parar ali. “Foi logo mais para frente que eles acharam corpos”, diz o pescador, já entre lágrimas, contando o impacto do rompimento da barragem da Samarco. “Ficou um cheiro de carniça aqui. Era muito peixe.”

Nos dias seguintes, Reis diz ter notado que até os pássaros sumiram. “Eles comem peixe, né? Ficaram sem alimento.” “A gente nadava aqui, colocava a criançada para nadar. Fazia churrasco na beira do rio, trazia os amigos, a família. Não vai ter mais nada disso.” Agora, sua casa dá fundos para um rio de duas cores: parte escura, com a tal “cor de rio”, e parte com a cor da lama. 

O pescador recebe auxílio da mineradora Samarco. “Vou procurar algum serviço de pedreiro, de ajudante, para fazer”, planeja. “As pessoas até falam em indenização. Acho até que vão pagar. Mas o que você vai fazer? Se você recebe R$ 100 mil, investe em um negócio, compra uma casa em outro lugar, perto de um novo trabalho. Mas isso ajuda em quê? O rio vai voltar a ficar limpo? Os peixes vão voltar? A gente vai poder nadar de novo? Vai fazer churrasco com a família? Não. Então, no fundo, a indenização não adianta quase nada. Ela não vai recuperar o rio”, afirma o pescador. 

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