Rio Negro atinge nível recorde: 29,69 metros

Marca histórica iguala a de 1953 e deve ser superada ainda nesta semana; em Manaus, calçadão da Ponta Negra virou piscina natural

Liège Albuquerque, O Estadao de S.Paulo

25 de junho de 2009 | 00h00

O Rio Negro, no Amazonas, atingiu ontem 29,69 metros de profundidade e alcançou a marca da maior enchente, registrada em 1953. Como o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) prevê aumento médio do volume de água de 2 centímetros por dia, esse empate deve ser superado ainda nesta semana para se estabelecer um novo recorde que seria o maior desde 1903, quando a medição foi iniciada. "Enquanto o Rio Solimões estiver represando o Rio Negro, a tendência é de subida até o fim deste mês", afirmou o superintendente do CPRM no Amazonas, Marco Oliveira. Segundo ele, apenas na enchente de 1989, quando o Rio Negro alcançou a marca de 29,42 m, a água parou de subir no dia 3 de julho.O funcionário do Porto de Manaus que há 30 anos mede o nível do Rio Negro, Valderino Pereira, passou o dia de ontem providenciando uma nova régua para a medição. "Certamente amanhã (hoje) o rio vai estar mais profundo", disse. A medição é cunhada em uma parede de ferro no porto principal da capital. Um dos cartões-postais da cidade, o Calçadão da Ponta Negra, virou piscina natural. "Estamos adorando tomar banho de rio pisando no chão de piso, melhor que na areia", disse o estudante Ivo Olgário, de 12 anos, que brincava nas águas com os dois irmãos na tarde de ontem. O cenário no centro e nos bairros que beiram o rio é de casas e ruas alagadas. Em bairros como a Glória e São Raimundo, as palafitas já estão todas com novos assoalhos, as marombas, obrigando os moradores a andarem agachados em suas casas. Um shopping teve um de seus dois acessos completamente alagado."Eu me lembro que ia ao trabalho com água pelo joelho em 1953, mas acho o cenário de hoje mais desolador", disse o economista Gladstone Saraiva, de 75 anos. Ele trabalhava como contador na Rua dos Barés, alagada naquele ano e neste também. Ele considera o descaso dos governos nesses 50 anos a causa do sofrimento das pessoas cujas casas foram alagadas. "Há muito tempo as gestões da capital já deviam ter organizado essas invasões nas zonas leste e oeste", disse.O historiador e também secretário de Cultura do Estado, Robério Braga, que mantém acervo de fotos da enchente de 1953, disse que o número de pessoas afetadas poderia ter sido mais que o dobro se não existe atualmente um programa de retirada de moradores de igarapés - hoje são 3 mil afetados na capital. "O que ocorre é que a cidade está mais alagada que naquela época por complicadores como a falta natural de escoamento no asfalto, já que as ruas do centro eram em paralelepípedos portugueses e os arredores bem mais arborizados." Ontem, o governo estadual e a prefeitura de Manaus deram início a um plano emergencial para as áreas de alagamento, nos Igarapés do 40 e do São Raimundo, os mais alagados. A preocupação da Secretaria Municipal de Saúde é com as doenças que devem chegar com a vazante, como leptospirose. A enchente atinge hoje 55 dos 62 municípios do Amazonas, que estão há dois meses com estado de emergência decretados. NÚMEROS2 centímetros por dia é o aumento do volume de água diário previsto para o Rio Negro3 mil pessoas foram atingidas pela cheia em Manaus55 dos 62 municípios do Estado do Amazonas têm sido atingidos pelas enchentes há dois meses e estão em estado de emergência

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.