Rio quer banir tráfico em orla turística com ocupação de favelas

Operação em Cantagalo e Pavão-Pavãozinho nesta terça fechou comércio; bomba explodiu perto de fotógrafo

Pedro Dantas, O Estado de S. Paulo

01 de dezembro de 2009 | 18h25

Com o anúncio nesta terça-feira, 1.º, de mais duas ocupações ainda este ano das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) nas favelas Ladeira dos Tabajaras e Morro dos Cabritos, em Copacabana, o Governo do Estado do Rio pretende banir de toda a orla turística da cidade o tráfico ostensivo de drogas e a presença de traficantes armados com fuzis e metralhadoras.

 

Prosseguem ocupações das favelas de Cantagalo e Pavão-Pavãozinho. Foto: Marcos Arcoverde/AE

 

"Com a ocupação destas comunidades, nós teremos mais de 130 mil pessoas livres do poder paralelo em seu cotidiano - seja da milícia, no caso do Jardim Batam (em Realengo, na zona oeste), seja do tráfico de drogas, como na Dona Marta (Botafogo) e da Babilônia e Chapéu Mangueira (Leme)", disse o governador Sérgio Cabral.

 

Nesta terça, no segundo dia de ocupação das favelas Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, o comércio das ruas próximas no asfalto fechou à tarde após um grupo ordenar que eles baixassem as portas. Policiais tentaram convencer os lojistas das ruas Sá Ferreira e do trecho da Avenida Nossa Senhora de Copacabana até a Rua Djalma Ulrich a abrir, mas não foram ouvidos. Foram detidos sob a suspeita de ameaçar os comerciantes, dois homens, quatro menores e cinco mulheres, uma delas identificada como irmã do traficante Paulo Henrique Duarte Correa, o Juca Bala, de 34 anos, do Pavão-Pavãozinho.

 

Dois homens jogaram um granada contra uma patrulha da PM na Avenida Princesa Isabel. A explosão seguida de tiros disparados por policiais provocou pânico no bairro. A PM negou que a ocorrência tivesse ligação com a ocupação das favelas e informou que a dupla era perseguida após assaltar uma lanchonete. Um assaltante foi baleado e está internado em estado grave. O outro foi preso.

 

 

Apesar da ausência de tiroteios, o clima ainda é tenso no Cantagalo e Pavão-Pavãozinho. Uma bomba do tipo Malvinas foi arremessada e explodiu próxima ao fotógrafo do Estado, Marcos Arcoverde, no momento em que ele atravessava a quadra de futebol no Cantagalo. Ele não foi ferido. "Gritaram 'repórter!' e jogaram. Não vi quem foi porque corri. Pensei ao ouvir a explosão, que seria baleado, mas nada aconteceu", disse Arcoverde.

 

No interior da favela, o comércio, os serviços de coleta de lixo e as obras do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) funcionaram normalmente. O único ponto em que o comércio estava fechado no Pavão-Pavãozinho era o beco situado 50 metros após o início da Ladeira Saint Romain. De acordo com os moradores, próximo ao local funcionava a boca de fumo mais frequentada. A venda de drogas nas favelas movimentava até R$ 300 mil por mês, segundo a polícia.

 

"Não podia sair de casa com meus filhos sem encontrar 20 vagabundos, metade deles armados e os outros cheirando pó na frente das crianças. Eu dormia no inferno e depois da ocupação acordei no paraíso. Não sei se os traficantes saíram do morro, mas não deu tempo do armamento descer. É só procurar nas casas", disse um homem que mora há oito anos no Cantagalo.

 

Policiais do Batalhão de Operações Especiais, o Bope e outros batalhões continuaram as buscas em casas e na mata por traficantes e armas. Até os caminhões das obras do PAC eram inspecionados. Nesta terça, apenas DVDs piratas e um gravador de DVD foram apreendidos. O presidente da Associação de Moradores do Cantagalo, Luiz Bezerra do Nascimento, negou que os policiais do Boi tenham imposto um toque de recolher na comunidade. O homem ainda não identificado baleado durante o tiroteio de segunda-feira não resistiu e morreu.

 

As favelas ocupadas na zona sul eram dominadas pela facção criminosa Comando Vermelho. A Rocinha, em São Conrado, passou a ser a única favela com intensa venda de drogas e sem a ocupação policial. Como a comunidade está sob o domínio da facção Amigos dos Amigos, a polícia monitora os traficantes do CV para evitar uma invasão. A Rocinha movimenta até R$ 8 milhões por mês com a venda de drogas. Após abertura de ruas e avenidas previstas pelo PAC, vários módulos de UPPs devem ser instalados na Rocinha.

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