Rio revitaliza cortiços do centro

Quatro são tombados pelo município; prefeitura prevê transformação dos cômodos em apartamentos

Clarissa Thomé, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

Durante 40 anos, Edna Pinto lavou a roupa dos fregueses nos tanques comunitários do Cortiço Chora Vinagre, na Lapa, região central do Rio. Ali criou os três filhos e viu o mais velho se formar médico. Aos 77 anos, 52 deles no cortiço, ainda vive o desconforto de dividir com os vizinhos de outros 68 cômodos seis banheiros, apenas três com chuveiro. Para cozinhar, atravessa o pátio descoberto - ainda com resquícios do piso em pé-de-moleque do fim do século 19 -, onde cada um dos 36 moradores do térreo tem uma pequena cozinha, fechada do lado de fora por cadeado. No seu quarto, cabem apenas a cama de solteiro, um armário, uma pequena estante e a TV. Mas não há quem a tire dali. "Só saio direto para o cemitério." O Chora Vinagre, erguido em 1893, mantém as características da moradia típica do centro da cidade do século 19 - sobrados divididos em muitos cômodos, com dependências coletivas, como banheiro e lavanderia. Como este, outros três cortiços, cujos nomes se perderam no tempo, estão tombados pelo município e não podem dar lugar a condomínios modernos. Eles constam do Guia do Patrimônio Cultural Carioca, recém-lançado pela prefeitura. "Esse tipo de construção marcou muito o desenvolvimento da cidade. Como memória viva do Rio é importante preservar. Não acho que tenha valor arquitetônico, mas é a memória histórica de quando o centro da cidade tinha outra função, que misturava negócios, atividades comerciais e moradias pobres", afirma o professor Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ) e coordenador do Observatório de Metrópoles. Em 1868, 58% dos moradores do Rio viviam em cortiços, de acordo com a antropóloga Márcia Cörner, em sua tese de mestrado sobre o Chora Vinagre, defendida pela Universidade Federal Fluminense. Esse número caiu muito. O Censo 2000 informou que 1,2% da população da cidade ocupa cômodos - ou 72.029 pessoas -, segundo dados do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos. Quando Edna chegou ao Chora Vinagre, os 33 cômodos do 2º piso eram ocupados por homens. Os casais ou mulheres solteiras viviam no térreo, perto dos tanques. A maioria era lavadeira. "Fomos a primeira família de brasileiros aqui. Antes só havia portugueses", lembra. Alguns moradores dizem que não há romantismo nenhum em morar num dos cortiços históricos. O esgoto corre a céu aberto, ratos transitam pelo pátio, usuários de drogas já frequentaram os banheiros coletivos. "Teve época que a gente tinha medo de sair à noite. Agora está muito mais calmo", conta Maria Luiza de Paula, de 69 anos, há 10 no Chora Vinagre. TOMBADOSNa Rua Senador Pompeu, 43, há outro cortiço tombado pelo patrimônio municipal. Ali, os 28 cômodos do térreo foram descaracterizados - ganharam cozinha, banheiro e um jirau. No andar superior, ainda há 26 quartos, com três banheiros coletivos e uma pia onde todos lavam a louça. "Aqui é bom, mas é sem lei. Tem barulho e os vizinhos jogam água em cima do meu telhado. Fica tudo mofado", reclama a doméstica Conceição da Silva, de 42 anos, que divide a casa com o irmão. Do outro lado da rua, no número 34, há um cortiço que foi todo reformado pela prefeitura, dentro do programa Novas Alternativas, que incentiva a moradia no centro da cidade. Depois da reforma, o prédio foi vendido à Caixa Econômica, que negociou as 23 unidades por uma espécie de leasing - os moradores pagam R$ 150 mensais por 15 anos e se tornam proprietários. Se deixarem o imóvel antes do prazo, as mensalidades valem como aluguel. A prefeitura já recuperou outros três cortiços. Alguns mantiveram as características desse tipo de moradia, com dependências coletivas. Agora, as novas reformas preveem a união de dois cômodos, para que os imóveis tenham banheiro e cozinha. "Há uma certa dificuldade em convencer as pessoas a adquirirem apartamentos nesses antigos cortiços. O migrante vê essa moradia como algo transitório, mesmo que passe anos ali", explica Nazih Heloui, gerente do programa Novas Alternativas, que começou em 1995. A prefeitura não sabe quantos cortiços há no centro do Rio e está firmando convênio com a Light para identificá-los. A ideia é que esses apartamentos sejam financiados pelo governo federal, no recém-lançado Minha Casa, Minha Vida.

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