Rio tem roteiros para todos os gostos e em todos os horários

Professor de geografia da Uerj chega a reunir 100 pessoas em seus passeios e conta com auxílio de grupo de estudantes; datas festivas são pretexto para rotas variadas

Heloisa Aruth Sturm, O Estado de S. Paulo

22 Maio 2013 | 15h23

RIO - Munido de um estridente megafone, vestindo calça jeans e camisa xadrez, com uma sacola de brim a tiracolo e calçando confortáveis sandálias de dedo, João Baptista Ferreira de Mello caminha pelas ruas do centro do Rio. Atrás dele, um grupo de cerca de 100 pessoas acompanha seus passos e ouve atentamente suas histórias. Há dez anos, esse professor de geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) organiza roteiros turísticos gratuitos pela cidade, oferecidos aos fins de semana e também durante a madrugada.

"O Rio é uma cidade muito rica. Foi capital da Colônia, do Reino, do Império, da República, então é um projeto que me dá muito prazer em fazer", diz o professor. A ideia surgiu quando ele fazia passeios com os alunos da graduação, para mostrar in loco os lugares históricos que a maioria conhecia somente nos livros. Mello recebeu a sugestão de colegas professores para transformar o roteiro em um projeto de extensão universitária, ampliando o acesso para o público em geral.

"Dúvidas, comentários, lamentos, protestos?", brinca o professor ao final da explicação inicial sobre o percurso. O tom bem-humorado prossegue durante todo o passeio - a tática é importante para manter o grupo disposto, já que os roteiros duram em média 3 horas. Há alguns trajetos fixos, como o "Caminhando entre luzes no centro do Rio", passeio noturno que vai da Igreja da Candelária à Cinelândia, ou o "Domingo no Centro", que começa com cantos gregorianos no Mosteiro de São Bento e termina no Paço Imperial. Já os passeios de madrugada avançam pela boemia da Lapa. No meio de cada percurso, ele faz questão de parar em algum ponto mal conservado para fazer campanha contra o lixo nas ruas - a sujeira é uma das principais críticas dos turistas à cidade.

Mello é quem desenvolve os roteiros, e conta com a ajuda de 11 estudantes de graduação e pós para atualizar as atividades no site do projeto (www.roteirosdorio.com), tirar dúvidas pelo telefone (21 8871-7238), e fazer a divulgação nas redes sociais. Mas um dos principais atrativos do projeto é que os itinerários não são sempre os mesmos. As datas festivas são oportunidade para criação de diferentes percursos.

Na última segunda-feira, por exemplo, dia 13 de maio, foram dois especiais em homenagem aos 125 anos da abolição da escravatura. Batizados de "Caminhando por Negras Geografias no centro do Rio", os roteiros incluíram locais como o sambódromo e o terreirão do samba, a Igreja das irmandades negras de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, a Rua do Ouvidor, palco dos acordes iniciais do carnaval de rua, o Arquivo Nacional, onde a Lei Áurea está sendo exibida ao público pela primeira vez, e o Campo de Santana, palco dos debates em torno da abolição no antigo Senado.

O norueguês Vidar Kalsås, que passou os últimos sete meses no Brasil, aproveitou para fazer seu último passeio na cidade antes de regressar à Europa no dia seguinte. "Fiquei sabendo pela internet, e estou achando bem interessante, apesar de não entender tudo o que ele está falando".

Justamente por causa dos roteiros variados, é comum encontrar alguns frequentadores assíduos e fãs do professor. É o caso da aposentada Adilene Graça da Costa, de 67 anos, que participa do grupo há quase oito anos. "Ele é super culto, inteligente, brincalhão. O passeio é divertido e mostra a cultura que a gente nem presta atenção no dia-a-dia, não vê onde circula". Adilene conta que já fez tantos roteiros com ele que nem se importa em repetir o passeio. "Sempre aprendo alguma coisa diferente". Ela só não teve coragem ainda de fazer os passeios de madrugada.

 

 

 

 

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