Rivais ao acaso

Fernando Henrique Cardoso e Geraldo Alckmin demonstraram mais apoio a Dilma Rousseff na semana passada do que boa parte do PT. Não foram só os elogios, verbas e afagos da presidente que seduziram os dois tucanos. O cálculo político explica melhor o oposicionismo "light" da dupla, cada vez mais contrastante com o de José Serra. Tudo passa por 2014.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

22 Agosto 2011 | 00h00

Nas internas, FHC disse a correligionários que o PSDB deveria apoiar a dita "faxina" promovida por Dilma no governo, em vez de propor uma investigação pelo Congresso. Na sua avaliação, uma CPI da Corrupção agora só favoreceria o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva daqui a três anos. O subtexto: em 2014, é mais fácil um candidato tucano bater a atual presidente do que o seu patrono político.

É improvável que o ex-presidente defendesse Dilma se ela não o tivesse elogiado publicamente mais de uma vez, se não o fizesse convidado de honra no encontro com Barack Obama, em Brasília. O ego sempre foi o ponto fraco do tucano. Mas tampouco FHC se arriscaria nessa defesa da petista sem uma razão partidária. O cálculo do ex-presidente pode até não fechar, mas é defensável.

Com Alckmin, o flerte de Dilma passou por outros cantos. Presidentes e governadores sempre têm interesses comuns: programas em parceria, controle fiscal e o bom andamento da economia - o principal lubrificante para suas reeleições. Mas nada é mais importante do que o objetivo político de cada um. E o do governador paulista parece combinar com o da presidente.

Em cerimônia na quinta-feira no mais alto ninho tucano, o Palácio dos Bandeirantes, Dilma tateou: "O pacto republicano e pluripartidário que estamos firmando hoje é capaz de transformar a realidade social que vivemos". Pela reação de Alckmin, a petista tocou a nota certa. "Ultrapassamos o período de disputas para unir esforços em prol daqueles que precisam. Isso se deve em grande parte ao seu patriotismo", respondeu o governador, referindo-se à visitante. Rapapé inédito entre tucanos e petistas.

Tanta eloquência se explica se Alckmin estiver preocupado em garantir a sua reeleição em 2014, e fazer dela trampolim para a candidatura presidencial em 2018. Ele teria 66 anos. Para o governador ter chances daqui a sete anos, Dilma - e não Lula - precisaria disputar 2014 pelo PT. Nisso, ele e FHC concordam, ainda que por motivos opostos (para Alckmin, seria melhor que outro tucano não se elegesse presidente em 2014, pois seria candidato "natural" à reeleição quatro anos depois).

Nesse cenário, em 2018 Lula, aos 73 anos e há oito longe do poder, seria um adversário improvável. Dilma seria inelegível. E o PT enfrentaria o desgaste de eventuais 16 anos de governo. 2014 é uma eleição mais arriscada para Alckmin do que 2018. Se disputar o próximo pleito presidencial, ele abrirá o mesmo flanco que abriu em 2006, quando perdeu para presidente e viu Serra se eleger governador em São Paulo.

Isso limita o próximo rol de presidenciáveis tucanos a Aécio Neves e a Serra. Não por acaso, o mineiro se apressou a reforçar o tom oposicionista. Disse que a "faxina" é mero "slogan de campanha" e que o governo só demite em reação ao noticiário. Não nomeou Dilma nem falou em CPI. Ou seja, manteve-se um tom abaixo de Serra, o mais sistemático crítico do governo federal. O PSDB é campeão olímpico de "fogo amigo", mas não disputa o título sozinho.

"Se fosse unido, não seria partido." A piada é velha, mas ainda vale. A disputa pelo poder começa dentro das siglas partidárias, sempre. O PMDB está dividido em São Paulo (Michel Temer versus quercistas). O PP rachou entre o atual e o antigo ministro das Cidades. O PT já nasceu com tantas diferenças que as institucionalizou, sob a forma de tendências partidárias. No Brasil, bastou começar com "P" para tender à divisão. Até a Polícia Federal tem facções.

Não poucas vezes há mais identidade entre políticos de agremiações antagônicas do que entre seus pares. Por contingência, histórica ou geográfica, um está em uma sigla e outro, na rival. Daí que as alianças e coalizões são quase aleatórias, com poucas combinações fora do jogo. Tudo depende da circunstância, que muda feito nuvem.

Conscientemente ou não, Dilma adotou o estilo de um antecessor na troca do ministro da Agricultura. Avisou primeiro seu vice e pediu a indicação de um substituto. Deixou claro que a vaga é do PMDB de Temer. Preveniu especulações. É como FHC fazia.

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