Rivais também mostram muitas semelhanças

No encontro organizado pelo Estado, José Eduardo Dutra e Sérgio Guerra se esforçaram para expor as diferenças no ideário político e no estilo de agir entre PT e PSDB, os dois partidos mais influentes do País. Ao final de duas horas de debate, porém, era quase inevitável a sensação de que os dois são mais parecidos do que se supõe.

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2010 | 00h00

Já na apresentação, o tucano e o petista se aproximaram ao lembrar sua presença na luta pela redemocratização. Os dois também manifestaram confiança na continuidade do amadurecimento democrático e declararam que são contrários ao radicalismo político. "O povo não é radical", disse o senador Guerra.

Mais adiante reconheceram as fragilidades do sistema, especialmente a dificuldades das relações entre a Presidência e o Congresso - movidas por um sistema de trocas tão avassalador que leva o partido a votar contra suas próprias convicções. Ou, como admitiu o ex-senador Dutra, sem ser contestado, a agir de maneira "incoerente".

A cada momento que um apontava uma falha no outro, ou reclamava para si alguma virtude, o outro tinha um contraponto à mão. Guerra acusou o governo petista por não ter feito a reforma política quando tinha força para isso, no início do primeiro mandato de Lula. E Guerra perguntou porque Fernando Henrique Cardoso não a fez.

Quando o senador tucano insistiu em atacar o polêmico 3.º Programa Nacional de Direitos Humanos, apontando-o como símbolo de radicalismo e intolerância petista, Dutra respondeu que um dos principais defensores do programa é um velho aliado do PSDB e ex-integrante do governo Fernando Henrique, o cientista político e diplomata Paulo Sérgio Pinheiro.

Os dois lembraram momentos de tensão no Congresso em que seus partidos se uniram para aprovar projetos de lei de interesse do País. "Eu era da oposição e e ajudei a aprovar o Fust", lembrou Dutra.

Também recordaram que, quando necessário, foram buscar no território do adversário nomes para ocupar cargos no governo. O poderoso presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, era um quadro do tucanato quando o presidente Lula o chamou para ocupar o cargo - ocupado por ele até hoje. José Serra, quando ministro da Saúde, buscou no PT nomes para ocupar cargos na sua assessoria. (Não foi citado no debate, mas vale recordar que o bem sucedido programa de produção de remédios genéricos, implementado por Serra, surgiu de um projeto de lei do petista Eduardo Jorge, atualmente no PV.)

No capítulo sobre política externa, o senador pernambucano acusou o governo Lula de se aproximar de governos totalitários, que menosprezam os direitos humanos, citando de maneira específica o caso de Cuba. O presidente do PT já estava com a resposta pronta: Fernando Henrique apoiou o terceiro mandato de Alberto Fujimori - presidente peruano que mais tarde seria condenado a vinte e cinco anos de prisão por atos de corrupção e violação de direitos humanos.

Na área econômica, Dutra, que fez carreira sindical antes de dedicar à política, exaltou a forma como o governo Lula enfrentou a crise econômica que paralisou o mundo no ano passado. Seu oponente recordou que isso não teria sido possível se Fernando Henrique não tivesse modernizado o aparato do Estado. "Os fundamentos estavam lá atrás", disse.

Foi um debate elegante, em tom respeitoso, durante o qual alguém poderia perguntar, com razão, porque PT e PSDB não conseguem se unir em torno de algumas propostas de grande interesse para o País, como a reforma política. Pode ser que alguém dia isso ocorra. Mas não vai ser agora, certamente. Como disse Dutra, o que vem por aí é uma eleição "muito dura, muito disputada".

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