Rivalidade nacional atropela Lulécio

Parceria entre PSDB e PT, iniciada com Aécio no Estado e Pimentel em BH, acaba na disputa que opõe 'time de Lula' e aliados do ex-governador

Malu Delgado / ENVIADA ESPECIAL e Eduardo Kattah / BELO HORIZONTE, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2010 | 00h00

Representantes do Movimento de Moradia Popular, Marinalva e Mônica emergem da plateia - onde o sindicalista de boina vermelha se mistura a professores universitários de camisa social - e entregam suas reivindicações ao candidato que, apoiado pelo PT, disputará o governo de Minas Gerais. O cenário é uma plenária do partido. A indefectível bandeira vermelha está lá, pregada ao fundo, mas o candidato em questão não é do PT. Estamos em 2010, e o ex-ministro Hélio Costa (PMDB) é recebido entre aplausos de centenas de militantes petistas na capital mineira, a despeito da guerra travada pelos dois partidos meses antes, quando brigavam por candidaturas independentes.

Ao lado de Hélio Costa, os petistas Patrus Ananias - outro ministro da era Lula - e o ex-prefeito Fernando Pimentel, apontado como provável ministro se Dilma Rousseff (PT) chegar ao Planalto, dão demonstrações da coesão político-eleitoral desejada pelo presidente da República que os fez pender para o mesmo lado em nome do projeto nacional, distanciando-se do polo dominado pelo PSDB na figura do ex-governador Aécio Neves.

Na terra de Drummond, a poética Quadrilha pode ser assim adaptada quando vira disputa: Aécio tinha se aliado a Pimentel, que abriu mão de ser governador porque quer eleger Dilma, que precisou apoiar Hélio, que foi obrigado a se agarrar a Patrus, que queria ser candidato ao governo e se conteve para agradar a Lula, que luta para derrotar Serra, que precisa de Aécio.

Naufrágio. O duelo nacional entre Dilma e José Serra (PSDB) fez naufragar em Minas o que poderia ser um promissor projeto de parceria entre as siglas, iniciada a partir da dobradinha entre Aécio no Estado e Pimentel na prefeitura da capital.

Jogando em lados opostos, PSDB e PT obrigam o ex-governador Aécio e o presidente Lula, detentores de altíssima popularidade no Estado, a medirem forças, ainda que nenhum deles tenha interesse numa disputa explícita. Para além da simbologia que tem no cenário político do País, Minas ocupa lugar de destaque na disputa presidencial de 2010 não apenas pela vitória ou pela derrota que poderá conceder a Serra ou a Dilma. Minas é hoje um laboratório político do pós-Lula e do pós-Aécio, arranjos que permearão a política no próximo mandato presidencial e em 2014.

Numa disputa de pesos e contrapesos, "o time de Lula" se contrapõe aos "aliados de Aécio". O fato é que Minas pregou uma peça no chamado Lulécio, o voto majoritário dos mineiros que elegeu Lula e Aécio em 2002 e 2006.

Ao contrário das expectativas, PMDB e PT parecem estar em harmonia. A entrada de Patrus na chapa como vice de Hélio Costa não só atraiu a militância e a base social do PT no Estado como deu fôlego à estratégia de atrair votos para Dilma.

Clonado. "Vamos ter um governador com quatro braços e duas cabeças; um governador clonado", grita Hélio Costa em meio aos petistas. Sem o apoio do PT, o peemedebista se via diante do pesadelo de somar mais uma iminente derrota às duas anteriores que teve quando também disputou o governo do Estado. A pedido de Hélio, Patrus coordena o programa de governo e alimenta a expectativa de, se eleito, coordenar todos os programas sociais no Estado.

Para o PSDB, o grupo peemedebista alijará o PT em caso de vitória e Patrus faz o movimento mais arriscado de sua vida política, colocando em risco sua biografia. "Hélio Costa tem dito reiteradamente que fará um governo com foco no social", rebate Patrus. "Não ficou sequela nenhuma da disputa partidária. Fizemos uma equipe coesa, unida, com a militância dos dois partidos trabalhando junta", diz Hélio Costa.

"O PT nacional subjugou os interesses de Minas. A candidatura do outro lado não atende à lógica dos interesses do Estado. Representa apenas a garantia de tempo de TV. Colocaram Minas como a joia da coroa e tiraram o PT do jogo no Estado", vocifera Aécio. "Tudo o que derrotamos de práticas políticas antigas em Minas, e que não fizeram bem ao Estado, está se aglutinando do outro lado", continua o tucano. Sem ser explícito, o ex-governador se refere ao grupo político do PMDB ligado a Newton Cardoso, inimigo mortal dos petistas quando ocupou o Palácio da Liberdade.

Televisão. Para superar aparente estagnação do seu afilhado político Antonio Anastasia nas pesquisas, Aécio aposta na ação dos prefeitos aliados e na propaganda eleitoral na TV.

Nos bastidores, os aliados de Aécio são claros: o objetivo maior é eleger Anastasia. O ex-governador de Minas, porém, acolhe sem rancores o correligionário Serra em seu território. O mineiro confidenciou a colegas que será responsabilizado pela vitória ou pela derrota de Serra em Minas, independentemente de seu grau de engajamento na campanha.

Irritado com rumores de que não se empenha por Serra, Aécio pediu que ele faça overdose de aparições no Estado. Predominantemente, materiais de campanha mostram fotos de Aécio com Anastasia ou o ex-presidente Itamar Franco (PPS), que quer se eleger senador com ajuda de Aécio. A sintonia é tanta que o número de Itamar é 234, e de Aécio é 456. A dobradinha ameaça seriamente a eleição do petista Pimentel ao Senado.

Imagem. Fotos, slogans, jingles dizem muito em campanhas. A foto do "time do Lula" é usada na campanha de Hélio Costa. Nela, Lula, Dilma, Hélio, Patrus, Pimentel e o vice José Alencar - apontado como a cereja do bolo em Minas - estão lado a lado.

Entre os adversários, o slogan favorito toma as ruas: "O povo de Minas não erra. Anastasia, Aécio e Serra." Anastasia, que padece com o alto índice de desconhecimento, enfrentou recentemente greves de servidores públicos, que considerou tática eleitoral do campo inimigo. "No governo, colocamos a casa em ordem no funcionalismo", afirma o governador candidato. Funcionário de carreira do Estado, disciplinado e quase metódico, Anastasia mostra estar preparado para a disputa, com discurso articulado e aos moldes do padrinho. Sabe, porém, que vale para ele a mesma lição que Dilma e Lula tentam aprender. O criador não pode abafar a criatura.

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