RJ interdita estacionamento em terreno da UNE

A prefeitura interditou um estacionamento que ocupava, há 15 anos, o terreno da União Nacional dos Estudantes (UNE) na Praia do Flamengo. Ali ficava o histórico prédio da sede da entidade, que foi metralhado, incendiado e demolido pelo regime militar. Por cerca de 30 anos, a área pertenceu à Universidade do Rio de Janeiro (Uni-Rio), mas foi devolvida à UNE em 1996 pelo então presidente Itamar Franco. O administrador do estacionamento, Jorge Onofre Alves, se recusa a entregar o terreno.O secretário municipal de Governo, José Luiz Vasconcelos, decidiu cassar definitivamente o alvará do estacionamento porque não há contrato entre o proprietário do terreno, a UNE, e Alves. "Ele pode até tentar regularizar a situação, mas terá que apresentar um contrato", afirmou.Alves reagiu violentamente à interdição. Ameaçou chamar ?um pessoal" para afastar os guardas municipais e tentou agredir o fotógrafo do Estado. Foi contido por agentes da Guarda. O advogado dele, Wilson Siston, disse que a UNE "até pode" conseguir a reintegração de posse por ação judicial. "Mas vai demorar". Alves é vereador na cidade de Bicas (MG). Segundo levantamento do advogado da UNE, Marcelo Cerqueira, ele tem dois registros de CPF, respondeu a inquéritos por roubo, agressão, e falsidade ideológica. Alves também foi condenado a cumprir pena alternativa por agressão a policiais federais.Para Cerqueira, a interdição do estacionamento teve sabor especial. Ele era vice-presidente da UNE quando, em 30 de março de 1964, a sede da entidade foi metralhada por tropas da Aeronáutica. O candidato à Presidência pelo PSDB, José Serra, era o presidente. "Eu e o Zé saímos pela lateral do prédio. Acabamos escondidos na ?fortaleza? do deputado Tenório Cavalcanti. Depois ficamos quatro dias na garçonière do Jacob Kligerman ( hoje diretor do Instituto Nacional do Câncer). Depois conseguimos chegar à Embaixada da Bolívia, e de lá fomos para o Chile", conta.Antes de chegar à casa do lendário Tenório Cavalcanti, deputado da UDN conhecido por envolvimento com grupo de extermínio, Serra e Cerqueira tentaram se abrigar na Faculdade Nacional de Filosofia, que estava ocupada pela Marinha, e no Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (Caco) da Faculdade Nacional de Direito, cercado pelo Exército. Eles também tentaram chegar aos Correios, mas os tanques que guardavam o prédio voltaram-se contra eles. "Foi uma sensação terrível. Hoje sinto um misto de comoção e de indignação com o que aconteceu, com a violência desnecessária, a truculência das Forças Armadas. Nós nunca ameaçamos ninguém. Éramos isso...", disse, apontando para os estudantes que se aglomeravam na porta do estacionamento, atraídos pelo anúncio da interdição.O prédio que abrigou a UNE também sediou o Clube Germânia. Ele foi desapropriado pelo então presidente Getúlio Vargas durante a 2.ª Guerra Mundial e entregue aos estudantes. O presidente da UNE, Felipe Maia, quer reerguer o edifício, que funcionaria como centro cultural e sede nacional da entidade. O arquiteto Oscar Niemeyer já projetou o novo prédio. Maia ainda não decidiu se a entidade entrará com ação de reintegração de posse. "Vamos esperar a retirada dos carros para dar o próximo passo", disse.

Agencia Estado,

31 de julho de 2002 | 18h50

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