Roqueiros bem-comportados

Descolados e educados, os integrantes do NX Zero, que não curtem drogas nem baladas, viraram ídolos dos adolescentes

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

10 Agosto 2008 | 00h00

Sinal de que os tempos mudaram - e os adolescentes, também -, hoje a banda de rock de maior sucesso entre eles, o NX Zero (de Nexo Zero), é formada por cinco jovens bem educados de classe média, famosos por tratar bem os fãs e até mesmo os funcionários dos hotéis por onde passam. Nada a ver com ícones eternizados como Kurt Cobain, o vocalista e guitarrista do Nirvana, que se suicidou em 1994. Os garotos do NX não são grandes baladeiros, adoram esporte, churrasco e pizza - como todo bom paulistano. Até o ano passado, quase todos ainda moravam na casas dos pais. Agora, com sucesso e dinheiro no bolso, a maioria partiu para vôo solo. A rebeldia própria dos roqueiros até existe um pouco nas tatuagens espalhadas pelo corpo, no cabelo desalinhado - às vezes até meio ensebado - e na pose. E pára por aí. Os garotos do NX - o vocalista Diego José Ferrero, o Di, de 23 anos; o baterista Daniel Weksler, o Dani, de 22; o baixista Conrado Lancerotti Grandino, o Caco, de 22; e os guitarristas Filipe Duarte Pereira, o Fi, de 21, e Leandro Franco da Rocha, o Gee, de 21 - viraram os novos ídolos juvenis. E foi por causa desse público, e não da crítica, que a banda cresceu. Em 1º de julho, foram eleitos a Melhor Banda, com 1 milhão de votos de internautas, no Prêmio Multishow de Música Brasileira, realizado no Teatro Municipal do Rio. No ano anterior, conquistaram o primeiro lugar na categoria Banda Revelação. Já no Video Music Brasil (VMB), da MTV, a banda ganhou o Hit do Ano, com Razões e Emoções, desbancando Capital Inicial, CPM 22, Natiruts e Pitty, que também concorriam. "Tem crítico que fala mal do nosso som. Mas o público gosta. E é isso que importa", diz Dani. "Tivemos 1 milhão de votos no Multishow", repete. Por que tanto sucesso? "O NX é de uma geração mais nova que o CPM 22, por exemplo. O grupo fala a mesma língua que a garotada de 15 anos, em média", diz Rick Bonadio, presidente da Arsenal, selo e braço da Gravadora Universal. "São sensíveis, mas com atitude. Sabem falar de amor sem medo e não têm vergonha de mostrar que são bons garotos." São mais de 800 os fãs-clubes da banda espalhados pelo Brasil, um deles oficial, com 33 mil integrantes - dos quais 3 mil pagaram R$ 20 para ter uma carteirinha, que dá alguns privilégios, como promoções de camisetas e acesso ao camarim nos dias de show. "Mas a taxa só é cobrada uma vez", diz Everton Oliveira, de 21 anos, coordenador do site e dos fãs-clubes. "Eu tenho tudo deles: toalhinha, baqueta e palheta que usaram nos shows, revistas, pôsteres e camiseta", diz a estudante paulistana Yasmin Santos, de 17 anos, que tatuou na pele o nome de uma das músicas, Conseqüência. Uma outra canção do grupo, O Silêncio, virou o toque de mensagem de seu celular. Yasmin vai longe por causa da banda. No início do ano, seguiu para Belo Horizonte, Rio e cidades do interior de São Paulo para ver os garotos tocarem. "Assisto a um show deles a cada 15 dias, não importa onde seja", diz a fã. "Minha mãe fica um pouco preocupada e algumas vezes até vai junto." Com fãs assim, a banda ganha presentes de todos os tipos. Ursinhos de pelúcia chegam aos montes. "Recentemente, doei mais de cem", diz Oliveira. As fãs - sim, porque a maioria é mulher - não economizam nas cartas. "Recebemos uma que, enrolada, tinha o tamanho de uma roda de caminhão. É a chamada carta-metro. As meninas colam várias folhas de sulfite." Em troca, o NX dá toda a atenção possível para a galera. Chegam até uma hora antes dos shows para autografar fotos e camisetas. "Eles continuam exatamente como eram antes de fazer sucesso, muito profissionais e sem frescura", diz Bonadio. "São do bem de verdade. E isso faz muita diferença." O INÍCIO "Há sete anos e meio, quando gravaram o primeiro CD independente, Diálogo, da composição atual da banda só havia Leandro, Daniel e Filipe", conta o empresário da banda, Angelo Casarin, de 32 anos, que, na época, era dono de estúdio na Lapa, zona oeste, por onde passavam muitas bandas iniciantes. "Pouco antes de gravar o CD, o Leandro me disse que tinha um cara que tocava muito bem num condomínio da Casa Verde. Era o Diego", conta Daniel. Diego entrou na banda uma semana antes da gravação, logo seguido por Conrado, que conhecia Leandro e Daniel da Rua Teodoro Sampaio, zona oeste, local onde os três trabalhavam em lojas de instrumentos musicais. "Colocávamos nossas músicas na internet, o que ajudava a conseguir shows pelo Brasil", diz Diego. Bastava que pagassem a passagem para a banda colocar o pé na estrada. "Dormíamos muito na van, porque não tínhamos dinheiro para o hotel." Hoje, o cachê da banda está por volta de R$ 70 mil. "Até chegarmos na Universal, conseguimos muita coisa, diria que chegamos ao topo do independente", diz Diego. Isso aconteceu há dois anos, quando o grupo foi descoberto por Bonadio num show do Hangar 110, no Bom Retiro. A partir daí, a vida da banda mudou muito. "O esquema exigiu uma dedicação integral e a banda era a prioridade dos cinco", diz. Daniel largou a Faculdade de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; Diego, o curso de Publicidade da Universidade Anhembi Morumbi; Filipe, o de Rádio e TV das Faculdades Integradas Rio Branco; Conrado, o de Comunicação Social na Faculdade Ibero-Americana; e Leandro deixou os planos de fazer faculdade de Cinema de lado. Os pais reclamaram. "Minha mãe até apelou, dizendo que, se me formasse, ao menos teria direito à prisão especial. Meu pai entendeu", diz Diego, que já foi vocalista de um grupo gospel. Ele é o único da banda que não é paulistano. Nasceu em Campo Grande, morou em Brasília, Porto Alegre e Argentina, até chegar a São Paulo, por volta dos 12 anos. Em julho, mês de turnê para o lançamento do Agora, segundo CD pela Universal, fizeram uma dezena de shows pelo interior de São Paulo, em cidades como Jacareí, onde tocaram para 20 mil pessoas. Na capital, o show de lançamento será no dia 23 de agosto, no Via Funchal, na Vila Olímpia, zona sul. Hoje, os cinco parecem irmãos. "A gente não tem tempo. Vai perdendo o contato com os amigos e se fechando entre os cinco. E vira mesmo uma família", diz Daniel. Mas o grupo tem um bom equilíbrio. Leandro é conhecido por ser o dorminhoco da turma; Filipe, o mais sossegado; Conrado, o animado; Daniel, aquele que acorda de mau humor; e Diego, o preguiçoso mais queridinho das meninas. "Nas horas livres, aproveitamos para ficar com a família e com as namoradas", diz Daniel, que mora com a cantora baiana Pitty. "Às vezes, vamos ao Studio SP, na Rua Augusta." Mas eles são caseiros. "Fico tanto tempo viajando que quando estou em São Paulo gosto de curtir meu canto. Outra noite fiquei tocando horas, sozinho, dentro do estúdio que montei em casa", conta Conrado. Para o NX, dever e lazer se confundem. "O trabalho não é um compromisso. Não é um saco", diz Conrado. "Pode até ser cansativo, mas a gente se diverte." E as meninas deliram: "Quando o Fi fala no show", diz Yasmin, "ele diz tudo o que preciso ouvir".

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