Rosa: ascensão e consciência política

Moradora de Belford Roxo que virou dona de academia diz que vota em nomes, não em partidos

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

17 Abril 2011 | 00h00

Três vezes eleitora de Luiz Inácio Lula da Silva (1989, 2002, 2006), duas de Fernando Henrique Cardoso (1994, 1998) e uma de Dilma Rousseff, a professora de educação física Emíria Nancy de Oliveira, mais conhecida como Rosa, carrega uma história de ascensão social, mas não se considera de classe média. É a terceira mais velha de dez irmãos, filhos do ambulante e ex-soldado da borracha Félix José de Oliveira, pernambucano que foi para o Rio com a mulher, Djanira, no fim dos anos 50.

Recentemente, a moradora de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, celebrou vitórias que contrastam com sua origem: a primeira viagem ao exterior e um empréstimo na Caixa Econômica para reabrir a academia que comprara em 2005. "Falta ter a estrutura que a gente quer implantar. Falta nossa empresa ganhar o volume que ela precisa."

Rosa não esconde o orgulho do que conquistou. Sempre viveu em Belford Roxo, hoje uma cidade com 500 mil habitantes marcada pela pobreza. Na infância, estudou com muita dificuldade: o lápis, diz, tinha de durar o ano inteiro; não havia dinheiro para material escolar nem para uniforme. Era boa aluna, mas acabou deixou os estudos no ensino médio, pois seria reprovada em uma disciplina por não ter o livro - e "não gosta de perder".

Fez compras para vizinhos, vendeu frutas colhidas no quintal, foi babá e faxineira. Com o dinheiro, pagou um curso de jazz. "Aos 17/18 anos, tive a ideia de alugar um espaço no Heliópolis Atlético Clube para dar aulas de dança para crianças. Um dia, perguntaram: por que você não dá ginástica para as mães? Comecei e resolvi voltar ao ensino médio focado em educação física", conta.

Em 2001, ela entrou na UniAbeu, em Belford Roxo, para cursar educação física. Depois, especializou-se em musculação na Faculdade Maria Teresa. Os estudos de graduação e pós na duas faculdades privadas foi pago do próprio bolso - na UniAbeu, com bolsa de 50%, porque Rosa passou para a monitoria.

"Um dia, fui a uma academia, porque queria um espaço para trabalhar, e o dono perguntou: você não quer arrendar por cinco anos? Fomos para casa, pensamos, voltamos, e eu disse: se você quiser vender, eu aceito." Foram 50 prestações mensais, iniciadas em outubro de 2005.

No fim de 2010, como o proprietário do imóvel onde ficava a Academia Vital Fit queria um aumento de quase 100% no aluguel e havia dívidas a saldar, Rosa e a família fecharam-na temporariamente, quitaram os débitos e aproveitaram o convite de um casal de amigos que mora na Itália para uma viagem.

Na semana passada, veio a notícia da aprovação do empréstimo do Proger para compra de aparelhos de ginástica.

Política. Rosa diz que vê na TV "que o Brasil está melhorando", e explica que faz suas escolhas políticas baseada em nomes, não em partidos. Curiosamente, elogia os rivais FHC e Lula. Ela recorda a hiperinflação do início dos anos 90 para fazer a apologia do tucano e do Plano Real. "No Clube de Heliópolis, onde dava aula de jazz, eu cobrava não me lembro quanto, mas digamos que fosse hoje R$ 40. No dia seguinte, estava aquela maquininha no supermercado, remarcando os preços. Aí veio o real."

Segundo Rosa, FHC "deu uma organizada" no País. "Começou com ele. Não digo que tenha ficado tudo às mil maravilhas." Mas ela também exalta a gestão do petista. "A impressão que tenho é que o Lula, por ter vindo de onde veio, a gente acaba se identificando mais com ele. Do Fernando Henrique lembro mais do Real." Para ela, "o governo Lula acabou usufruindo os resultados do Fernando Henrique".

Ela conta que votou na atual presidente por considerá-la continuidade de Lula. "O (José) Serra poderia querer mexer. E ele veio com propaganda de São Paulo. Não acho que São Paulo esteja tão bem. O sistema de saúde é ruim, tem violência em favelas, muita chacina, assassinato", diz.

Saúde, aliás, é, para Rosa, o pior serviço público do País. "Esse posto aí só funciona para cadastrados das ruas próximas."

Felizes com o empréstimo obtido, ela e o marido, Edson, elogiam: "Tem muito crédito". Sobram, porém, críticas a bancos privados que, dizem, não repassam o dinheiro do BNDES destinado a pequenos empreendedores para "empurrar" os próprios produtos, a juros mais altos.

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