Rota matou sobrevivente de ataque de grupo de extermínio

Testemunha de duplo homicídio atribuído aos Matadores do 18 foi assassinada em janeiro

Josmar Jozino e Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

21 de fevereiro de 2008 | 00h00

O porteiro Sidney Martins Dulfrayer, de 23 anos, sobreviveu ao grupo de extermínio formado por policiais militares do 9º e do 18º Batalhões da zona norte, mas não escapou dos homens das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). Testemunha e vítima de um crime atribuído aos chamados Matadores do 18, Dulfrayer morreu com vários tiros em 22 de janeiro - segundo os homens da Rota, porque resistiu de arma na mão à ordem de prisão quando fugia com um Ecosport roubado. Ele estava em companhia de dois outros homens, também mortos pela equipe 91403 da Rota.A morte de Dulfrayer aconteceu seis dias depois do assassinato do coronel José Hermínio Rodrigues, comandante do policiamento na zona norte de São Paulo, executado a tiros em 16 de janeiro. Os investigadores das chacinas e do caso de Hermínio estranharam a coincidência, ainda mais porque parte dos homens do 18º e do 9º Batalhão investigados no caso das execuções é oriunda da Rota. No passado, o porteiro já havia sido preso por roubo e porte de arma. Em 12 de fevereiro de 2007, ele e outras seis pessoas, apesar de baleadas, sobreviveram à ação do grupo de extermínio, enquanto dois homens morreram - Aírton José da Silva, de 36 anos, e Caio Preccaro, de 19.Os matadores eram quatro, estavam em duas motocicletas e chegaram ao local do crime, um bar da Rua D. Bento Pickel, Mandaqui, às 2h40. O lugar é área de atuação do 9º Batalhão, unidade que, a exemplo do 18º Batalhão, ficava sob as ordens do coronel Hermínio - também assassinado no Mandaqui.No bar da Rua D. Bento Pickel havia uma roda de samba, que reuniu homens e mulheres. O grupo de extermínio usou pistolas calibre 380 e 40. Os assassinos estavam encapuzados e fugiram depois dos disparos. Sidney foi atingido no tórax e disse aos policiais do 13º Distrito que não tinha visto nenhum dos autores dos tiros."Agora já foi. Quando meu irmão estava vivo, ninguém fez nada por ele", disse a irmã de Dulfrayer, que pediu à reportagem para não ser identificada. Segundo ela, seu irmão "jamais ia trocar tiro com a Rota". "Quem é que é louco para fazer isso, senhor?""Meu filho até hoje está assustado. Ele ainda tem a marca da violência no corpo: uma bala alojada no pescoço. Ele escapou por misericórdia de Deus", afirmou a dona de casa Aparecida, de 69 anos, mãe do motorista C., de 43, que também sobreviveu ao ataque ao bar. C. ficou dias internado no Hospital do Mandaqui.A execução no bar aconteceu 11 dias após outra ainda maior, o assassinato de seis jovens em um escadão na Rua Olga Benário, no Jardim Elisa Maria, zona norte. Nela teria ocorrido o mesmo "consórcio" entre os Matadores do 18 e homens da Rota.O alvo era um grupo de rapazes que praticava pequenos furtos na vizinhança, onde morava um sargento da Rota - hoje ele está no 9º Batalhão. Segundo revelou um policial ao Estado, pelo menos duas equipes da Rota deram cobertura aos Matadores do 18, que estavam num Palio preto. Os homens do Palio se apresentaram como policiais e mandaram as vítimas ficarem de costas. Depois dos disparos, equipes da Rota foram vistas "escoltando" o Palio preto.Um exame de balística feito pelo Instituto de Criminalística constatou que a mesma pistola calibre 40 usada na matança da Rua D. Bento Pickel foi utilizada na chacina da Olga Benário - daí a suspeita de que um mesmo grupo de extermínio esteja por trás dos dois crimes.Os casos das Ruas D. Bento Pickel e Olga Benário estão sendo analisados pelo Ministério Público e pelo 2º Tribunal do Júri. Uma testemunha chegou a ser ameaçada, após depor no Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

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